O primeiro-ministro do Reino Unido, Keir Starmer, anunciou oficialmente a sua renúncia ao cargo no início desta segunda-feira (22). Pressionado por uma forte crise de governabilidade e pelo colapso de sua base de apoio político, o líder do Partido Trabalhista confirmou que deixará o comando do governo britânico assim que a legenda escolher um sucessor, o que deve ocorrer nas próximas semanas. Ele já comunicou a decisão ao Rei Charles III.
Starmer tornou-se o sexto chefe de governo a deixar o cargo de forma prematura na última década em Downing Street. O anúncio de sua saída coincide, ironicamente, com a véspera do décimo aniversário do referendo que aprovou a saída do Reino Unido da União Europeia (Brexit), cujos desdobramentos econômicos e institucionais ainda geram instabilidade no cenário político britânico.
A queda do primeiro-ministro, que assumiu o poder em 2024, foi precipitada por um desgaste acumulado e por uma insurreição pública dentro de sua própria bancada. Segundo informações da rede de televisão Sky News, cerca de 100 parlamentares trabalhistas exigiram abertamente que ele entregasse o cargo. O jornal The Observer revelou que Starmer concluiu que sua permanência no cargo era insustentável após consultas de emergência com ministros de seu gabinete, conselheiros e doadores do partido.
O estopim para a renúncia foi a movimentação do prefeito da Grande Manchester, Andy Burnham, de 56 anos. Figura popular da ala tradicional do partido e ex-ministro da Saúde, Burnham conquistou um assento no Parlamento nesta semana ao derrotar de forma expressiva o candidato do partido de extrema direita Reform UK no distrito de Makerfield.
A vitória garantiu a Burnham o capital político necessário para desafiar a liderança de Starmer. De acordo com a imprensa britânica, ele já obteve o endosso formal de 81 deputados, quórum obrigatório para forçar a convocação de eleições primárias. Como o Partido Trabalhista detém a maioria absoluta no Parlamento, o vencedor da disputa interna assumirá automaticamente o cargo de primeiro-ministro, sem a necessidade de convocar eleições gerais antecipadas no país.
A gestão de Starmer vinha sendo fustigada por sucessivas alterações de rumo em propostas econômicas e, principalmente, pelo desgaste ético provocado pela nomeação de Peter Mandelson como embaixador britânico em Washington. Mandelson enfrentou forte desgaste público devido a ligações históricas com o falecido criminoso sexual Jeffrey Epstein. Dados de uma pesquisa recente do instituto YouGov apontavam que Starmer contava com apenas 18% de aprovação popular, contra 74% de rejeição dos britânicos.
No plano internacional, a saída do premiê repercutiu imediatamente em Washington. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que acumulou atritos com o líder britânico no último ano, utilizou sua rede social, a Truth Social, para comentar o cenário de forma ambígua. Ao mesmo tempo em que desejou “tudo de bom” ao britânico, o mandatário americano desferiu críticas duras à sua gestão.
“Ele fracassou miseravelmente em dois assuntos muito importantes: imigração e energia”, escreveu Trump, criticando o veto de Starmer a novas perfurações de petróleo no Mar do Norte. Anteriormente, o presidente dos EUA já havia censurado o governo trabalhista por não alinhar o Reino Unido à postura de Washington e Israel em relação ao Irã.
No discurso de despedida, Starmer afirmou que entrega uma Grã-Bretanha “mais forte e justa” e justificou o afastamento alegando razões familiares. Ele afirmou que passará a se dedicar à esposa, Victoria, e aos filhos.
