‘Muitos adolescentes nem imaginam como Ă© viver com privacidade’

Quando a verdade Ă© que todos nĂłs temos uma ideia bastante intuitiva de que as coisas que mais importam na vida nĂŁo podem ser medidas

Por BBC Brasil 24/08/2025 Ă s 15:45

Carissa VĂ©liz afirma que aprende bastante nas conversas com seus alunos da Universidade de Oxford, no Reino Unido, com quem discute o valor do analĂłgico, das relações pessoais, do que faz uma vida ser boa…

Ela é professora do Instituto de Ética em Inteligência Artificial da Faculdade de Filosofia da instituição de ensino — e está convencida de que só protegendo a privacidade podemos manter a democracia a salvo.

A especialista teme que muitos jovens, acostumados a crescer sem ela, não percebam as implicações que sua ausência pode ter para o seu futuro.

A seguir, está a entrevista que Carissa Véliz concedeu à jornalista Elena Sanz, diretora do site The Conversation na Espanha.

Elena Sanz – Em alguma ocasiĂŁo, vocĂŞ comentou que a privacidade Ă© um instinto animal que compartilhamos com todas as espĂ©cies e, no entanto, ultimamente vivemos como se pudĂ©ssemos prescindir dela. As gerações mais jovens estĂŁo cientes da sua importância?

Carissa VĂ©liz – É difĂ­cil responder, porque “os jovens” nĂŁo sĂŁo um grupo homogĂŞneo: há diferenças importantes dependendo de onde nascem, onde vivem e atĂ© mesmo se sĂŁo homens ou mulheres.

Ultimamente, fiquei bastante surpresa que meus alunos estão mais conscientes da importância da privacidade e menos viciados em tecnologia do que muitos adultos. Embora talvez meus alunos não sejam suficientemente representativos da população.

Em geral, me preocupa o fato de que há muitos jovens que não cresceram com privacidade, que nem sequer conseguem imaginar o que é viver com privacidade e, acima de tudo, que não percebem as implicações que sua ausência tem para o futuro deles.

Mulher jovem de costas digitando uma senha no laptop

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,‘Isso já acontece na Inglaterra e nos Estados Unidos, onde a privacidade de quem tenta alugar um apartamento Ă© invadida: proprietários contratam empresas de dados para obter informações sobre o potencial inquilino’

Sanz – A privacidade nĂŁo Ă© apenas uma questĂŁo de permitir ou nĂŁo que nos vejam ou saibam sobre nĂłs. Quando empresas e governos tĂŞm acesso a informações sobre quem somos, o que fazemos, se temos uma saĂşde boa ou ruim, quais sĂŁo as nossas tendĂŞncias polĂ­ticas ou religiosas ou por quem nos apaixonamos, isso tem implicações.

VĂ©liz – É verdade. Principalmente porque, quando vocĂŞ sempre viveu em uma democracia, Ă© difĂ­cil imaginar que ela Ă© frágil, que Ă© vulnerável, que pode ter um fim se nĂŁo cuidarmos dela.

A perda de privacidade pode restringir sua liberdade: a liberdade de poder se dizer o que pensa, a liberdade de se associar com quem você quiser, a liberdade de protestar pacificamente. Quando tudo isso desaparece, a pessoa começa a ter medo do que disse ou do que pode dizer, e acaba se autocensurando.

Isso já acontece na Inglaterra e nos Estados Unidos, onde a privacidade de quem tenta alugar um apartamento é invadida: proprietários contratam empresas de dados para obter informações sobre o potencial inquilino.

E se o rejeitam, se negam o acesso a uma moradia, nĂŁo precisam justificar o porquĂŞ, nĂŁo precisam dar um motivo.

Sanz – Assim, sĂŁo violados vários dos direitos previstos no artigo 12 da Declaração Universal dos Direitos Humanos, que proclama garantir a proteção da vida privada, da famĂ­lia, do domicĂ­lio, da reputação…

VĂ©liz – Claro. E o mais preocupante Ă© que os problemas nĂŁo surgem no momento em que os dados sĂŁo coletados, eles costumam aparecer muito mais tarde.

Além disso, mesmo quando surgem, não é fácil estabelecer uma conexão direta entre o momento em que um dado deixa de pertencer a você e o momento em que sofremos discriminação ou exclusão por causa desse dado perdido.

Os direitos são direitos justamente porque são um bem a ser protegido, imprescindível. E, se a sociedade vive com uma perspectiva excessivamente individualista, corremos o risco de perder direitos e liberdades.

Dois jovens na frente de um laptop

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,‘Um dos problemas da vida digital Ă© que ela Ă© muito nova. NĂŁo temos experiĂŞncia suficiente para ter reações viscerais de medo ao risco ao qual nos expomos’

Sanz – Às vezes, sĂŁo os prĂłprios pais que começam a compartilhar os dados das crianças antes que elas possam decidir, sem perceber que, no futuro, isso pode ter consequĂŞncias negativas para os filhos.

VĂ©liz – Sem dĂşvida. E isso me faz pensar que todos nĂłs precisamos estar mais bem informados, o que nĂŁo Ă© nada fácil, porque muitas empresas e muitos governos nĂŁo tĂŞm interesse em divulgar como tratam os dados.

Mas não devemos cair no erro de colocar toda a responsabilidade nas costas dos indivíduos, que já estão sobrecarregados com o atual nível de burocracia e carga de trabalho, e com a quantidade de demandas que o nosso dia a dia impõe.

O ideal seria que pudéssemos ter produtos melhores, que todos tivessem acesso a e-mails privados e celulares que respeitassem a privacidade.

Sanz – A necessidade de experimentar coisas novas e a atração pelo risco sĂŁo inerentes Ă  adolescĂŞncia. Mas e os riscos digitais? Eles sĂŁo assumidos com a mesma consciĂŞncia que, por exemplo, saltar de paraquedas?

VĂ©liz – Sem dĂşvida, nĂŁo. Um dos problemas da vida digital Ă© que ela Ă© muito nova. NĂŁo temos experiĂŞncia suficiente para ter reações viscerais de medo ao risco ao qual nos expomos. Em parte pela novidade, em parte porque Ă© muito abstrato, e em parte porque foi projetado para ser opaco.

Quando escrevo uma mensagem que parece privada em uma plataforma como o X (antigo Twitter), mas na verdade está visível para todos, há uma incongruência entre o que realmente estou fazendo e a sensação que eu tenho.

Por outro lado, somos seres biológicos e, se saltarmos de um avião, a sensação física de risco é muito tangível. Mas, se alguém te empurra para a dark web ou vende seus dados para um data broker (corretor de dados) particularmente irresponsável, não há nenhuma sensação física que te alerte.

MĂŁos de adolescentes com seus celulares

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,‘Sem ciĂŞncias humanas, sem uma compreensĂŁo de como governar a tecnologia, podemos acabar pior do que se nĂŁo desenvolvĂŞssemos essa tecnologia’

Sanz – Explicar esses riscos invisĂ­veis aos mais jovens pode ajudá-los a estabelecer limites?

VĂ©liz – Acho que sim. Conheci muitos estudantes que evitam compartilhar certas coisas porque se preocupam com o dia de amanhĂŁ, em ter problemas no futuro, quando forem procurar emprego, porque alguĂ©m viu aquela foto em que eles beberam demais ou leu aquele comentário infeliz.

Eu, acima de tudo, incentivaria os jovens a participar da construção do seu próprio mundo. É o mundo deles, o mundo em que vão viver, e eles têm o direito de construí-lo.

Gostaria de ver jovens que programam, dedicados a criar aplicativos melhores do que os que existem, que não querem trabalhar para o Google — mas, sim, criar a sua própria empresa, com uma ética diferente e sem vieses racistas ou sexistas.

Sanz – Digitalizar implica vigiar?

VĂ©liz – NĂŁo necessariamente. Da forma como concebemos o digital, neste momento ambas as coisas estĂŁo indissociavelmente unidas. Por isso Ă© preciso reinventar o digital.

Sanz – Como vocĂŞ coloca, o debate nĂŁo Ă© tecnologia “sim” ou tecnologia “nĂŁo” — mas, sim, tecnologia “como” e, acima de tudo, com que Ă©tica.

VĂ©liz – De fato, a chave Ă© quem tem o poder sobre a tecnologia, quem a controla e atĂ© que ponto ela nos dá autonomia. Um adolescente de 18 anos vive em um mundo em que o Google sempre existiu, mas a verdade Ă© que, se analisarmos isso em perspectiva, o Google existe há um microssegundo na histĂłria da humanidade.

As novas gerações devem perceber que tudo é temporário, e que têm a oportunidade de mudar o que não gostam.

Carissa Véliz

Crédito,Fran Monks/Universidad de Oxford

Legenda da foto,‘Muitas empresas e muitos governos nĂŁo tĂŞm interesse em divulgar como tratam os dados’

Sanz – Muitas redes sociais e aplicativos nos oferecem constantemente conteĂşdos personalizados, e isso nos aprisiona em uma espĂ©cie de aquário, uma bolha onde sĂł sĂŁo exibidos conteĂşdos que coincidem com nossa maneira de pensar, enquanto o resto da realidade se dilui.

Assim, parece mais fácil que os discursos de ódio e a desinformação triunfem.

VĂ©liz – Sim, Ă© verdade. Mas a tecnologia nĂŁo tem necessariamente que nos colocar nesses guetos de informação, daĂ­ minha insistĂŞncia em que os prĂłprios jovens inventem algo diferente, algo menos personalizado. Porque tudo o que Ă© personalizado nos isola dos outros.

Insisto que estamos em um momento em que é necessário nos envolvermos na sociedade que temos, nos tornarmos responsáveis por ela, moldá-la, cultivá-la, cuidar dela.

Sanz – E isso, pelo que entendi, vai alĂ©m da criação de novas tecnologias.

VĂ©liz – Sim. E, embora possamos cair no erro de pensar que, neste momento, com o auge da inteligĂŞncia artificial, o mais importante para construir o futuro sĂŁo as ciĂŞncias experimentais, a realidade Ă© que este Ă© o momento das ciĂŞncias humanas.

Porque sem ciĂŞncias humanas, sem uma compreensĂŁo de como governar a tecnologia, podemos acabar pior do que se nĂŁo desenvolvĂŞssemos essa tecnologia.

Há pouco tempo, li em um artigo do Financial Times que as empresas reclamam que seus funcionários não são capazes de pensar por si mesmos. E as disciplinas que nos ensinam a pensar são, justamente, as de ciências humanas.

TrĂŞs adolescentes conversando ao ar livre

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,‘A vida nĂŁo Ă© digital — mas, sim, analĂłgica… A vida Ă© a vida das coisas, da cafeteria na esquina, a vida dos seus amigos, das conversas presenciais, da natureza, de sair para correr’

Sanz – NĂŁo sei se vocĂŞ acompanhou o debate que ocorreu recentemente na Espanha, com a Ăşltima reforma da Lei da Educação, sobre manter ou nĂŁo a filosofia como disciplina obrigatĂłria, se ela Ă© realmente Ăştil.

VĂ©liz – Que possamos sequer insinuar que a filosofia nĂŁo Ă© Ăştil deixa evidente que estamos lidando com um conceito de utilidade incrivelmente superficial, de curto prazo, centrado apenas em produzir e obter resultados que possamos quantificar, traduzir em nĂşmeros.

Quando a verdade Ă© que todos nĂłs temos uma ideia bastante intuitiva de que as coisas que mais importam na vida nĂŁo podem ser medidas.

Sanz – Que mensagem vocĂŞ enviaria aos jovens?

VĂ©liz – Eu enviaria duas.

A primeira é que este é o momento perfeito para ler. Leia tudo o que puder. Leia história, leia filosofia, leia política, leia antropologia, aprenda com as gerações passadas, como elas superaram os momentos mais difíceis de suas vidas.

E leia no papel, porque o ato de ler é um ato de desafio a tudo o que está acontecendo. Ou seja: não, não vou ficar no computador, nem nas redes sociais, vou ler os grandes pensadores da história.

A segunda: que a vida nĂŁo Ă© digital — mas, sim, analĂłgica… A vida Ă© a vida das coisas, da cafeteria na esquina, a vida dos seus amigos, das conversas presenciais, da natureza, de sair para correr.

E quanto menos dependermos do digital, mais robusta e satisfatória será essa vida. O digital é um fantasma do analógico, é uma segunda opção, que usamos quando não temos a opção de fazer algo analógico. Falamos pelo Zoom quando não podemos nos ver pessoalmente.

*Elena Sanz é diretora do site The Conversation Espanha. Carissa Véliz é professora do Instituto de Ética em Inteligência Artificial da Faculdade de Filosofia da Universidade de Oxford.

Este artigo foi publicado originalmente no site de notícias acadêmicas The Conversation e republicado aqui sob uma licença Creative Commons. Leia aqui a versão original (em espanhol).

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