Um conjunto de negativos fotográficos em suporte de vidro e uma lanterna slide que pertenciam à coleção histórica do Museu Nacional, no Rio de Janeiro, retornou oficialmente ao acervo da instituição. Os materiais históricos de relevância científica estavam sob a guarda da Fundação Biblioteca Nacional há mais de um século, onde eram preservados como documentos de apoio pedagógico.
Os itens foram originalmente utilizados pelo médico e antropólogo Edgard Roquette-Pinto durante uma conferência realizada na própria Biblioteca Nacional em 1913. As imagens acabaram reproduzidas nos anais da instituição naquele mesmo ano e, desde então, permaneceram depositadas na fundação.
Molde da fotografia antiga
Ao todo, a repatriação interna envolveu nove peças que retratam culturas indígenas brasileiras, elementos da fauna, da flora e exemplares de investigações biológicas da transição do século 19 para o século 20. Os negativos de vidro funcionavam na época como matrizes, servindo de molde inicial para a revelação e geração das fotografias positivas em papel.
As chapas fotográficas recuperadas trazem registros específicos catalogados sob os seguintes títulos oficiais:
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Desenhos simbólicos dos índios Bakairis, segundo Von den Steinen;
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Zoolito dos Sambaquis de Santa Catarina;
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Índios Mauhá – viagem filosófica, de Alexandre Rodrigues Ferreira;
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Cephalopterus ornatus;
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Maloca dos índios Curutús do Rio Negro;
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Tartaruga sp.;
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K. von den Steinen e seus companheiros da Expedição Alemã, de 1884;
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Iararaca dos Parecis;
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Cabeça do último índio Cambeba (Deformação simétrica alongada).
A partir da devolução, as relíquias passam a integrar a coleção fixada na Seção de Memória e Arquivo (Semear) do Museu Nacional, vinculado à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Recomposição pós-incêndio
A identificação e a conferência técnica do lote de vidros foram executadas por uma equipe de especialistas da Semear, com a participação direta do historiador Gustavo Alves Cardoso Moreira e da chefe do Laboratório Central de Conservação e Restauro, a conservadora-restauradora Ana Luiza Castro do Amaral.
O grupo de trabalho estabeleceu cruzamentos cronológicos e tipológicos entre os negativos da Biblioteca Nacional e a coleção remanescente de pranchas fotográficas do museu. A associação tornou-se fundamental porque a antiga coleção física de negativos em vidro da instituição foi destruída no incêndio de grandes proporções que atingiu o palácio da Quinta da Boa Vista em setembro de 2018.
A articulação institucional para o restabelecimento do acervo foi intermediada pelo chefe da Semear, Jorge Dias, após o recebimento de relatórios sobre a existência das placas em setores da Biblioteca Nacional. Segundo Dias, o retorno das peças representa um reencontro da instituição com fragmentos de sua própria memória acadêmica. “Cada negativo carregado nesses vidros traz registros visuais e memórias de pesquisa que ajudaram a construir a trajetória da ciência no Brasil”, afirmou.
O diretor do Museu Nacional/UFRJ, Ronaldo Fernandes, ressaltou que a cooperação mútua entre os órgãos públicos federais é a principal engrenagem para mitigar as perdas do acervo histórico e cultural do país. “A incorporação simboliza a força dessa cooperação e o compromisso compartilhado com a preservação de um patrimônio de enorme relevância histórica, científica e cultural para o Brasil”, concluiu o diretor.


