Pesquisadora alerta que cuidado não pago retira saúde mental das brasileiras

Especialista defende que o discurso do "amor materno" é usado para justificar a exploração da mão de obra feminina na esfera privada.

Por Fhagner Soares, ContilNet 01/05/2026 às 12:18
Mulheres dedicam, em média, 10 horas semanais a mais que homens em tarefas domésticas, segundo o IBGE/ Foto: Reprodução

Neste feriado de 1º de maio, a maioria dos trabalhadores brasileiros aproveita o dia para o descanso e o lazer. No entanto, uma categoria específica permanece em atividade ininterrupta: as cuidadoras de crianças, idosos e do ambiente doméstico. Este trabalho, essencial para a sobrevivência e o bem-estar familiar, possui um gênero bem definido. Segundo dados oficiais do IBGE, as mulheres dedicam quase dez horas a mais por semana aos cuidados da casa e de outras pessoas em comparação aos homens.

O “útero motor” da economia

Para a professora de Serviço Social da UFRJ, Cibele Henriques, essa desigualdade possui raízes históricas e econômicas profundas. Ela define o trabalho de reprodução feito pelas mulheres como o “útero motor do capitalismo”, pois é ele quem gera o capital humano.

A acadêmica explica que, para garantir que essa função seja cumprida sem custos, criou-se a ideia mítica do amor materno como obrigação. Citando a filósofa Silvia Federici, Cibele reforça: “O que eles chamam de amor, nós chamamos de trabalho não pago”. Essa estrutura traz sobrecarga física, social e retira da mulher a possibilidade de manter a saúde mental.

A escala 7×0 e o mito do descanso

A discussão atual sobre a escala 6×1 ganha um novo contorno sob a ótica do cuidado. Cibele Henriques afirma que as mulheres, especialmente as negras e periféricas, vivem na verdade uma escala “7×0”. Enquanto mulheres de classe média alta conseguem transferir esse trabalho, para as periféricas ele é imposto como uma obrigação inegociável.

O trabalho de reprodução social é a base que permite o funcionamento de todos os outros setores da economia/ Foto: Reprodução

Mesmo em dias de folga do emprego remunerado, o tempo da mulher raramente é voltado para si mesma. “Hoje é Dia do Trabalhador, mas quem vai poder realmente descansar? A mulher que trabalha fora usa a folga para lavar roupa e adiantar as compras”, pontua a professora.

Obrigação construída e violência de gênero

Essa divisão entre a esfera pública (do homem) e a privada (da mulher) é construída desde a infância através dos brinquedos e discursos sociais que desoneram o sexo masculino das tarefas domésticas. A pesquisadora aponta que a falta de renda própria, decorrente do tempo dedicado exclusivamente ao cuidado não pago, é um dos fatores que mantém mulheres em relações violentas.

Um futuro insustentável

Com o envelhecimento da população brasileira, Cibele alerta para uma situação que pode se tornar crítica: o aumento da demanda por cuidados de idosos sobrecarregando ainda mais as mulheres. Para a especialista, a solução exige uma quebra dos papéis tradicionais e, principalmente, uma política de cuidados estruturada pelo Estado para desonerar a mão de obra feminina.

Conteúdo Original / Fonte: Redação ContilNet

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