Uma engrenagem financeira inflada artificialmente com promessas de alta rentabilidade para transferir o risco de um rombo bilionário ao sistema de proteção bancária. É esse o cenário descrito pela Polícia Federal (PF) para justificar a Operação Miragem, deflagrada nesta terça-feira (23) contra o Banco Digimais, instituição financeira controlada pelo bispo Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus.
O foco central da investigação é a escalada dos Certificados de Depósito Bancário (CDBs) emitidos pelo banco. O saldo dessa carteira saltou de R$ 694 milhões, em 2017, para R$ 8,5 bilhões em 2025 — uma expansão de 1.130% em oito anos, segundo balanços contábeis da instituição. De acordo com a PF, o crescimento acelerado sustentava-se em uma gestão fraudulenta que utilizava o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) como escudo para mascarar o passivo descoberto da operação.
A pedido dos investigadores, a Justiça Federal autorizou o bloqueio de bens de Edir Macedo, além de determinar a quebra dos sigilos fiscais de 18 pessoas e empresas ligadas ao esquema. Os alvos respondem por suspeitas de gestão fraudulenta, inserção de dados falsos em demonstrativos contábeis e realização de operações de crédito vedadas por lei.
Para manter o fluxo de dinheiro entrando em um caixa considerado deficitário, o Digimais passou a oferecer taxas de retorno significativamente superiores à média do mercado. Relatórios da PF apontam que o custo médio de captação da instituição bateu em 115,7% do CDI em 2025, mas alguns títulos chegaram a ser ofertados a investidores com rentabilidade de até 140% do CDI.
As aplicações eram pulverizadas no mercado de varejo por meio de grandes plataformas de investimento e corretoras tradicionais. Um documento da própria instituição financeira enumera seis parceiros de peso na captação desses recursos: XP Investimentos, BTG Pactual, Nu Invest (do grupo Nubank), Itaú Corretora, Banco Inter e Ágora.
A tese dos investigadores é que o Digimais copiou o modelo de atuação atribuído ao Banco Master, comandado pelo banqueiro Daniel Vorcaro. Em ambos os casos, a PF enxerga o uso instrumental do FGC, fundo privado que assegura depósitos de até R$ 250 mil por CPF em caso de quebra bancária. Cientes dessa proteção, os gestores captavam bilhões do público para financiar uma estrutura insolvente, sabendo que o prejuízo final seria repassado ao fundo coletivo do sistema financeiro.
“Ocorre que o crescimento do volume de captação não possuía lastro na capacidade patrimonial da instituição emissora, sustentando-se na expectativa de cobertura por parte do FGC”, afirma a Polícia Federal na representação enviada à Justiça.
A corporação sustenta que o artifício servia essencialmente para captar liquidez imediata, ocultar o real tamanho do passivo financeiro da instituição e empurrar o risco sistêmico da carteira para os mecanismos de segurança institucional do mercado. Enquanto o volume de captação explodia de forma desproporcional ao patrimônio líquido, o banco registrava lucros contábeis que agora estão sob severa desconfiança de fraude e manipulação por parte dos peritos criminais.


