O principal complexo portuário de La Guaira, região costeira e motor logístico vizinho a Caracas, foi transformado em um centro funerário improvisado para gerenciar o fluxo de corpos resgatados nos escombros. Seis dias após o duplo terremoto de magnitudes 7,2 e 7,5 que atingiu o norte da Venezuela, equipes de legistas trabalham em condições precárias sobre o asfalto, cercadas por dezenas de sacos mortuários e fileiras de caixões de madeira à espera de identificação.
O balanço oficial emitido pelas autoridades venezuelanas contabiliza 1.719 mortes confirmadas. No entanto, o indicador estagnou diante do colapso estrutural dos necrotérios da rede hospitalar local ainda nas primeiras 48 horas de crise, transferindo a triagem para a zona portuária. O cenário no local é de saturação: técnicos forenses operam sob lonas temporárias, aplicando cal sobre os restos mortais, enquanto caminhões de resíduos hospitalares recolhem amostras biológicas para a emissão de certidões de óbito.
A dimensão real da catástrofe desafia os relatórios governamentais. Embora o governo central evite publicar estatísticas formais de cidadãos desaparecidos, painéis técnicos da Organização das Nações Unidas (ONU) estimam que o número de pessoas presas ou não localizadas sob as estruturas colapsadas aproxime-se de 50 mil. Para mitigar a escassez de insumos básicos de saúde pública, a agência internacional anunciou o envio emergencial de 10 mil bolsas mortuárias ao país.
O processo de liberação dos corpos é marcado por protestos de sobreviventes devido à lentidão institucional e à escassez de equipes de socorro coordenadas pelo Estado. Em grande parte dos bairros periféricos de La Guaira e de Catia La Mar, a remoção de alvenaria e a localização de vítimas remanescentes vêm sendo executadas de forma rudimentar pelos próprios moradores, com o uso de ferramentas manuais e geradores elétricos particulares durante o período noturno.
Nas imediações do porto, dezenas de famílias perfilam-se sob o sol portando fotografias e flores. O acesso às tendas de reconhecimento visual é restrito e demorado, condicionado ao estado de decomposição dos cadáveres que dão entrada no perímetro.
“Vim ontem e caminhei por tudo, não encontrei minha filha”, relatou o cozinheiro Antony Marcano, 41. “Hoje vim com mais calma e a identifiquei. Reconheci pelo anel que eu havia dado a ela.”
Paralelamente, operadores de funerárias privadas do país passaram a estacionar nos arredores das docas para oferecer gratuitamente serviços de translado técnico e cremação para famílias de baixa renda, contornando a paralisia do sistema funerário municipal.
A destruição na faixa litorânea expôs falhas de engenharia e a vulnerabilidade de projetos residenciais emblemáticos construídos nas últimas décadas. O conjunto habitacional Hugo Chávez I, erguido como vitrine de programas sociais de modernização urbana, converteu-se no epicentro dos desabamentos na região de Catia La Mar.
Moradores locais relatam que os blocos situados na porção posterior do condomínio sofreram colapso total em efeito dominó segundos após o segundo tremor. Os sobreviventes dos 3,4 mil apartamentos evacuados agora ocupam acampamentos improvisados em calçadas e canteiros centrais, impedidos de acessar o interior das edificações remanescentes devido ao risco iminente de novos desabamentos. Inspeções visuais revelam extensas rachaduras que expuseram a fragilidade dos materiais internos empregados nas fundações das torres.
