Produtora de filme sobre Bolsonaro se nega a dar senha de celular à polícia

Alvo de operação em São Paulo, Karina da Gama seguiu orientação de advogado

Por Fhagner Soares, ContilNet 10/06/2026 às 12:18
Agentes do DPPC constatam fechamento de escritório de ONG na Avenida Paulista e interceptam documentos ocultados/ Foto: Reprodução

A produtora Karina Ferreira da Gama, investigada sob a suspeita de desviar verbas públicas para financiar o filme Dark Horse, que retrata a história do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), recusou-se a fornecer a senha de acesso de seu telefone celular aos investigadores durante a deflagração de uma operação da Polícia Civil de São Paulo. A recusa ocorreu no último dia 1º de junho, quando agentes da 2ª Delegacia do Departamento de Polícia de Proteção à Cidadania (DPPC) cumpriram mandados de busca e apreensão expedidos pelo Poder Judiciário da capital.

O aparelho retido, um modelo iPhone 17, faz parte do material técnico recolhido para subsidiar o inquérito policial. A decisão judicial que autorizou as buscas domiciliares também chancelou o pedido de quebra do sigilo de dados telemáticos e bancários de Karina e de outros agentes envolvidos no suposto esquema de triangulação financeira.

O foco central das investigações da Polícia Civil recai sobre as operações contábeis da organização não governamental Instituto Conhecer Brasil (ICB), entidade privada na qual a produtora atua como representante legal. O inquérito apura se o ICB utilizou ilegalmente parcelas de um contrato de R$ 108 milhões, firmado com a Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia da Prefeitura de São Paulo, para injetar capital na produção cinematográfica de cunho político.

O montante milionário da parceria pública previa originalmente, e de forma exclusiva, a prestação de serviços para a instalação e manutenção de pontos de conexão de internet banda larga em bairros de alta vulnerabilidade social na periferia da capital paulista. De acordo com os relatórios de auditoria que instruem a investigação, peritos criminais identificaram uma série de inconsistências e descompassos estruturais nas notas fiscais emitidas e apresentadas pela ONG para justificar a prestação das contas do convênio rodoviário.

Karina da Gama seguiu orientação da defesa e barrou acesso a iPhone 17/ Foto: Reprodução

Segundo o relatório circunstanciado de cumprimento dos mandados lavrado pelos policiais civis, as equipes foram recebidas pela própria Karina em uma de suas residências, localizadas na capital paulista. A investigada franqueou a entrada dos inspetores nas dependências do imóvel e acionou seu defensor particular, o advogado Márcio Sayeg.

O profissional compareceu ao endereço minutos após o início das buscas e, conforme o relato oficial dos agentes, orientou formalmente sua cliente a exercer o direito constitucional de não autoincriminação, retendo a combinação numérica de desbloqueio do smartphone.

Além do iPhone, a operação resultou na coleta de outros elementos probatórios no local:

  • Documentação: Uma pasta contendo relatórios e contratos internos do Instituto Conhecer Brasil (ICB), localizada na cozinha do imóvel;

  • Varredura automotiva: Buscas minuciosas em um veículo utilitário Toyota Hilux de propriedade da produtora.

Os desdobramentos da operação estenderam-se a outros pontos estratégicos vinculados à estrutura jurídica da organização. Em um segundo endereço residencial ligado à produtora, localizado no bairro Jardim Maracanã, na zona norte de São Paulo, os policiais civis identificaram e qualificaram um homem de 53 anos. Ele também teve o aparelho celular apreendido por ordem do juízo criminal, embora o teor de sua ligação profissional ou pessoal com Karina da Gama ainda não tenha sido detalhado pela assessoria do DPPC.

A fiscalização policial também se deslocou até a sede oficial onde o Instituto Conhecer Brasil (ICB) constava formalmente registrado perante a Junta Comercial e a Receita Federal: uma sala comercial situada em um complexo de escritórios na Avenida Paulista.

No local, as equipes constataram que a ONG não operava de forma física no espaço. Uma funcionária da recepção do sistema de coworking (escritórios compartilhados) informou aos agentes que o cadastro de locação e prestação de serviços da empresa já havia sido formalmente cancelado pelo ICB antes da chegada da fiscalização, reforçando as suspeitas sobre a inexistência de lastro operacional da entidade no endereço declarado.

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