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Senadora do Paraguai acusa Mbappé de violência de gênero após ser chamada de ‘desprezível’

Por Fhagner Soares, ContilNet 07/07/2026 às 05:54
Senadora do Paraguai acusa Mbappé de violência de gênero após ser chamada de ‘desprezível’

Mbappé chamou senadora de incompetente após ler posts que questionavam sua ascendência africana/ Foto: Reprodução

A crise diplomática e desportiva disparada após a partida entre França e Paraguai pelas oitavas de final da Copa do Mundo de 2026 ganhou um novo capítulo jurídico e político. A senadora paraguaia Celeste Amarilla notificou publicamente, na noite desta segunda-feira (6), o atacante francês Kylian Mbappé, acusando o atleta de praticar “violência de gênero flagrante” e “violência política”. A manifestação ocorre após o jogador reagir a insultos racistas proferidos pela parlamentar e classificá-la como uma “mulher desprezível”.

Por meio de uma carta aberta veiculada na plataforma digital X (antigo Twitter), Amarilla exigiu que o camisa 10 da seleção francesa formalize um pedido de desculpas e se retrate publicamente. Caso o jogador do Real Madrid não adote a medida, a senadora afirmou que adotará providências legais e acionará o atleta no Judiciário por crimes de gênero.

A reação de Mbappé ao racismo escancarado

O estopim do embate institucional ocorreu poucas horas após o encerramento da partida em que a França eliminou o Paraguai do Mundial da Fifa pelo placar de 1 a 0. Inconformada com o resultado de campo, a senadora Celeste Amarilla utilizou suas redes sociais para disparar uma série de postagens de teor estritamente racista direcionadas a Mbappé. Nas publicações, a congressista atacou a aparência física do desportista e questionou sua legitimidade identitária. Mbappé nasceu em Paris, mas é filho de pai camaronês e mãe argelina.

Nesta segunda-feira, o atacante francês utilizou seus canais oficiais para confrontar diretamente a autoridade paraguaia. Em nota reativa, o jogador lamentou que a postura preconceituosa da senadora tenha obscurecido a campanha histórica feita pela seleção de futebol do país sul-americano.

“Madame Celeste Amarilla, você é uma mulher desprezível e indigna de sua função. Você não representa o Paraguai, esse país que transpirou paixão e honra ao longo de toda a competição”, rebateu Mbappé. “Por sua inconsciência e seu racismo escancarado, o mundo inteiro já esqueceu a trajetória e o esforço histórico realizados por seus jogadores nesta Copa do Mundo para dar lugar a uma senhora incompetente que oferece a pior imagem possível de seu país”. O atleta enfatizou que não tolerará a propagação livre de discursos de ódio.

Em sua tréplica, divulgada em formato de manifesto, Celeste Amarilla justificou que redigiu as mensagens discriminatórias originais “no calor do momento, com o sangue fervendo” ao testemunhar o que classificou como soberba e deboche do francês perante os atletas paraguaios. Ela admitiu o teor ofensivo, alegou arrependimento por ter descido ao mesmo nível de agressão que costuma receber e informou ter deletado as mensagens.

Contudo, a senadora paraguaia mudou o foco da discussão para o campo dos direitos políticos das mulheres ao rebater o rótulo de “desprezível” aplicado por Mbappé.

“Você não me conhece. Você não tem ideia de quem eu sou, e você não tem o direito de dizer que eu sou uma mulher desprezível, indigna do cargo que ocupa. Eu sou uma senadora da Nação Paraguaia, eleita pelo povo”, posicionou-se Amarilla na carta. “Isso é violência de gênero flagrante. Isso é violência política contra uma mulher que conquistou sua posição pelo voto democrático de seu povo. Você me insulta porque sou mulher. Você ataca minha dignidade como mulher e como representante política”.

No texto, Amarilla também fez questão de separar sua admiração cultural pela França — citando que estudou em colégios de matriz francesa e que costuma passar férias de inverno e veraneio em balneários de luxo do país europeu, como Courchevel e Saint-Tropez — de suas desavenças com a conduta de Mbappé, a quem acusou de desrespeitar o goleiro do Paraguai e proferir palavrões de baixo calão em espanhol durante a partida.

Até o fechamento desta edição, a assessoria jurídica e os representantes da Federação Francesa de Futebol não emitiram comunicados em resposta às ameaças de processo da parlamentar.

Confira a íntegra do pronunciamento da senadora Celeste Amarilla:

“O problema é entre você e eu. Eu nunca disse nada contra a França. Pelo contrário, eu me posiciono ao lado da França. Estudei em uma escola francesa desde os 2 anos até os 17, onde completei minha educação. Eu sou quem sou graças ao Collège de l’Immaculée Conception e à educação que ele me proporcionou. Nós cantávamos La Marseillaise e honrávamos a bandeira francesa ao lado da nossa. Eu falo francês e amo visitar a França. No último Natal, passei as férias com minha família em Courchevel, e nós celebramos o Ano Novo em Saint-Tropez. Isso não tem nada a ver com a França. O problema é com você.

Sua arrogância e desprezo me irritaram muito antes da partida, quando você disse: ‘Se tivermos que colocar as mãos na sujeira, então vamos fazer isso.’ Nós não somos estúpidos. Entendemos perfeitamente que, com ‘a sujeira’, você se referia à equipe paraguaia, e a equipe paraguaia representa todos nós. Depois, você disse que ia remover nossa maquiagem. Nós entendemos isso também. Todo o Paraguai ficou em silêncio, inclusive eu. Nós aguentamos.

Durante a partida, sua arrogância foi óbvia. Seu desprezo por cada jogador paraguaio era claro, como se eles estivessem abaixo de você. Sem nem cobrir a boca, você gritou: ‘La concha de tu madre’, um insulto extremamente ofensivo na América Latina, e você sabe disso.

Finalmente, você demonstrou total desrespeito pela saúde do nosso goleiro. Isso é algo que simplesmente não se faz. O respeito entre rivals após uma partida é quase sagrado, na guerra e na paz, na derrota e na vitória. No entanto, você se recusou a apertar a mão dele e gritou sua vitória na cara dele. Em um único momento, você exibiu desprezo, arrogância e falta de maneiras. Isso me machucou, machucou todo o meu país e machucou profundamente. A França deve responsabilizá-lo porque é uma nação de honra, com séculos de história e savoir faire (saber fazer).

Meus posts foram escritos no calor do momento, com meu sangue fervendo, o sangue de uma herança mista, uma bela mistura de ancestralidade indígena e espanhola que corre em minhas veias. Eu os escrevi enquanto via você zombar daqueles extraordinários jogadores paraguaios que lutaram como iguais até o apito final. No entanto, eu me arrependi imediatamente de responder a você com os mesmos insultos que eu mesma recebo. Percebi que estava repetindo exatamente o comportamento que desprezo, então deletei o post. Eu entendo que minhas palavras o ofenderam porque a humilhação dói.

Agora eu exijo que você também retrate suas declarações e se desculpe comigo. Eu não tolerarei sua violência também. Você não me conhece. Você não tem ideia de quem eu sou, e você não tem o direito de dizer que EU SOU UMA MULHER DESPREZÍVEL, INDIGNA DO CARGO QUE OCUPA.

Eu sou uma Senadora da Nação Paraguaia, eleita pelo povo. Antes disso, eu fui uma Deputada Nacional, também eleita pelo povo. Milhares de homens e mulheres paraguaios votaram em mim e me consideram sua voz. Meu dever primordial é falar pelo povo paraguaio, dizer o que eles não podem dizer e defender meu país com minha vida, se necessário.

Eu represento meu país porque fui livremente eleita. Fui escolhida em eleições democráticas para ajudar a fazer suas leis e ser sua voz. Você não tem ideia do que significa ser eleito para defender sua nação e representar seu povo.

Quem é você para me chamar de indigna ou desprezível quando nem me conhece? Isso é violência de gênero flagrante. Isso é violência política contra uma mulher que conquistou sua posição pelo voto democrático de seu povo. Você me insulta porque sou mulher. Você ataca minha dignidade como mulher e como representante política.

Retrate suas declarações, honre sua cidadania francesa e peça desculpas. Caso contrário, eu posso buscar ação legal por violência de gênero.”

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