Vamos falar sobre finanças? Como ensinar planejamento financeiro desde a infância

Tratada como um tema transversal, que passa pelo cotidiano do aluno, a educação financeira está presente na sala de aula desde cedo

Por Correio Braziliense 15/09/2024 Ă s 17:21

Engana-se quem pensa ser necessário trabalhar com números econômicos — como taxas de juros simples e compostos — para ensinar educação financeira na escola. A professora Suzy Wilik, coordenadora pedagógica do colégio Ciman, em Brasília, garante que seus alunos aprendem o assunto desde o ensino infantil até o nível médio, de forma lúdica, sem o uso da matemática financeira.

A professora Amanda Paixão com o aluno Bento Batista: lições sobre finanças começa desde cedo/Foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press

“No ensino fundamental, a educação financeira Ă© conduzida nas aulas de Ă©tica e cidadania. Nesses encontros, aspectos da formação integral do ser humano, alĂ©m de desenvolvimentos socioemocionais e de vida em sociedade sĂŁo trabalhados. A educação financeira, a estabilidade e noções de empreendedorismo entram nessas aulas”, detalha Suzy.

As noções de educação financeira abrangem o cotidiano das famĂ­lias. Como exemplo, a coordenadora comenta sobre a formação de consciĂŞncia no momento de pedir dinheiro ou um brinquedo aos pais. “Enquanto antigamente as crianças pediam dinheiro, hoje pedem para fazer um pix. As aulas de educação financeira no ensino fundamental fomentam na criança a reflexĂŁo sobre os gastos da famĂ­lia”, explica. “NĂŁo Ă© sĂł quando eu compro algo que gasto dinheiro. Quando eu saio do meu quarto e deixo a luz acesa, eu estou gastando dinheiro”, completa Suzy.

A educação financeira, de acordo com a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), determina que o tema deve ser tratado como transversal. Isso significa que, ao falar de finanças com alunos, deve-se abordar justamente assuntos contemporâneos que tenham relação direta com a sociedade.

Na prática

A execução das ideias expressas pela coordenadora pedagógica do Ciman perpassa as aulas da professora Amanda Paixão. Ao lado de Bento Batista, seu aluno do 1º ano do ensino fundamental 1, ela conta como conversa sobre educação financeira com os pequenos.

“Falamos, por exemplo, sobre os impostos e a importância de cobrar que o governo cumpra seu papel. Afinal, tributos sĂŁo gastos e esses gastos precisam ser bem geridos pelo poder pĂşblico”, explica. “A gente paga imposto para ter bons hospitais”, exemplifica Bento, que aprendeu bem a lição.

Entre os alunos do ensino mĂ©dio, a educação financeira Ă© trabalhada por meio de itinerários formativos. Alunos do 3Âş ano do Ciman, Claudio Medrado e Lucas França trabalham o tema na perspectiva de refletir suas ações enquanto futuros adultos. “Aprendemos, desde o 1Âş ano, sobre como gerenciar o nosso dinheiro, tanto hoje quanto daqui a alguns anos, num orçamento familiar. Vemos temas como investimentos, financiamento de veĂ­culos”, detalha a dupla.

“TambĂ©m aprendemos um pouco sobre mercado financeiro. Sabemos que, nessa área, há uma briga de interesses grande. EntĂŁo, Ă© importante se atentar a isso e saber como enxergar o que seria mais vantajoso economicamente”, completa os amigos.

Necessidade e vontade

No colĂ©gio Ciman, segundo a coordenadora Suzy Willy, a problemática do desperdĂ­cio de comida tambĂ©m Ă© trabalhada com os estudantes nos encontros de Ă©tica e cidadania, com foco em educação financeira. “Quando colocamos nossa comida, por que encher o prato se nĂŁo vamos comer tudo? Mostramos que isso Ă© jogar tanto comida quanto dinheiro fora”, exemplifica.

Nesse raciocĂ­nio, Suzy conta que a escola trabalha com os alunos a ideia de que dinheiro pode ser escasso. “O dinheiro Ă© finito, Ă© preciso usá-lo da melhor forma priorizando o que Ă© necessário”, completa.

Diferenças sobre o que Ă© necessário comprar ou o que poderia ser definido como uma “vontade” tambĂ©m sĂŁo passadas aos alunos do ensino fundamental. Como exemplo, Suzy classifica como “necessidade” a prática de lanchar na escola, mas como “vontade” o desejo de “ter de” comer o alimento mais gostoso.

“Necessidade sou eu (aluno) lanchar no meu horário de intervalo, por exemplo. Agora, vontade seria falar que o meu lanche precisaria ser um croissant de Nutella. Existem coisas que sĂŁo necessárias e outras, vontades”, compara, ponderando que as “vontades” podem ser feitas, mas com consciĂŞncia.

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