O estado do Acre ocupa a posição mais alarmante do paĂs em um levantamento inĂ©dito que mapeia a chamada “dupla vulnerabilidade” a combinação entre o alto risco de desastres climáticos e a incapacidade financeira de resposta dos cofres pĂşblicos. Segundo dados consolidados pelo ObservatĂłrio do Clima, 77% dos municĂpios acreanos enfrentam, simultaneamente, fragilidade fiscal e exposição a eventos extremos, liderando o ranking nacional de estados em situação crĂtica.
O estudo nacional revela que 1.594 municĂpios brasileiros (29% de uma amostra de 5.568 localidades) encontram-se nessa faixa classificada como “ruim”. SĂŁo cidades que necessitam urgentemente de investimentos estruturais para se adaptar aos efeitos do colapso climático, mas que, devido Ă baixa Capacidade de Pagamento (Capag), estĂŁo impedidas de contrair emprĂ©stimos ou financiamentos para obras de mitigação de desastres ambientais.
Por outro lado, 71% das cidades do paĂs (3.974 municĂpios) foram enquadradas em situação “regular ou boa”. O Distrito Federal e o arquipĂ©lago de Fernando de Noronha (PE) nĂŁo foram incluĂdos por ausĂŞncia de dados fiscais disponĂveis.
O levantamento, coordenado por Adriana Pinheiro, assessora de incidĂŞncia polĂtica do ObservatĂłrio do Clima, foi estruturado a partir do cruzamento de duas grandes bases de dados pĂşblicas. O nĂvel de ameaça ambiental foi extraĂdo da plataforma AdaptaBrasil, do MinistĂ©rio da CiĂŞncia, Tecnologia e Inovação (MCTI), que afere a probabilidade de deslizamentos de terra, enxurradas e inundações. Esses indicadores foram cruzados com a Capag, Ăndice do Tesouro Nacional que mede a saĂşde fiscal e o endividamento de estados e municĂpios.
A análise geográfica evidencia uma profunda desigualdade regional. Entre as cinco unidades da federação com os piores Ăndices de vulnerabilidade, trĂŞs pertencem Ă regiĂŁo Norte, reforçando o isolamento econĂ´mico da AmazĂ´nia Ocidental frente Ă crise climática global.
O Acre encabeça a lista (77%), seguido de perto pelo MaranhĂŁo (75%), Amapá (69%), Goiás (65%) e Tocantins (60%). Estados nordestinos como ParaĂba, Alagoas e PiauĂ tambĂ©m apresentam mais da metade de suas prefeituras em colapso socioambiental e financeiro. No extremo oposto, as melhores colocações concentram-se no Centro-Sul, com destaque para o EspĂrito Santo (apenas 1% dos municĂpios em situação ruim), SĂŁo Paulo (3%) e Santa Catarina (5%).
Para o Acre, o Ăndice de 77% traduz a rotina de eventos extremos que tĂŞm assolado as calhas dos rios Acre, Juruá e Purus nos Ăşltimos anos, alternando episĂłdios de inundações histĂłricas com secas severas prolongadas. O grande entrave apontado pelo ObservatĂłrio do Clima Ă© o ciclo de inviabilidade administrativa: as prefeituras acreanas, dependentes majoritariamente de repasses do Fundo de Participação dos MunicĂpios (FPM), nĂŁo possuem receita prĂłpria suficiente para custear grandes obras de engenharia — como macrodrenagem, contenção de encostas e reassentamento de populações ribeirinhas.
Como a nota fiscal de grande parte das prefeituras do estado perante o Tesouro Nacional é baixa, o governo federal veda o aval para empréstimos internacionais ou junto a bancos públicos de fomento (como o BNDES). Sem crédito e sem caixa, os gestores locais ficam restritos a ações emergenciais pós-desastre, inviabilizando planos de longo prazo para tornar as cidades acreanas resilientes.


