Cientistas descobrem rede de 350 km de estradas pré-colombianas no Acre

Trabalho conjunto de pesquisadores do Brasil e da Finlândia localizou quase mil estradas e caminhos de terra

Por Fhagner Soares, ContilNet 14/06/2026 às 12:24
Estudo internacional mapeia caminhos abertos por indígenas séculos antes da colonização/ Foto: Reprodução

O mapeamento de uma complexa rede de estradas antigas na Amazônia está mudando a compreensão sobre a ocupação humana na região antes da chegada dos colonizadores europeus. Uma equipe internacional de cientistas brasileiros e finlandeses identificou aproximadamente 350 quilômetros de vias pré-colombianas no território do Acre. As estruturas demonstram técnicas avançadas de planejamento e engenharia executadas por povos indígenas.

O estudo foi publicado na revista científica Antiquity. De acordo com a pesquisa, as estradas desempenhavam múltiplas funções logísticas e sociais, servindo tanto para interligar aldeias aos cursos dos rios regionais quanto para ornamentar e conectar os geóglifos, grandes estruturas geométricas escavadas diretamente na terra, configuradas em formatos de círculos, quadrados e losangos.

O avanço dos recursos tecnológicos foi apontado como fator determinante para a localização das rotas. Segundo Alceu Ranzi, pesquisador do Laboratório de Pesquisas Paleontológicas da Universidade Federal do Acre (Ufac) e coautor do trabalho, o refinamento dos métodos de análise amplia a percepção sobre a infraestrutura antiga. “Quanto mais a tecnologia e as observações avançam, mais vamos percependo a presença de estradas e caminhos e a conexão entre eles e os monumentos”, explicou o especialista.

O levantamento cartográfico abrangeu uma extensão de 135 mil quilômetros quadrados do território acreano. Para consolidar os dados, o grupo de especialistas, composto também por Antonia Damasceno Barbosa, do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), Risto Kalliola, da Universidade de Turku, e Martti Pärssinen, da Universidade de Helsinque— cruzou imagens de satélite de diferentes plataformas com validações coletadas diretamente em trabalhos de campo.

Os vestígios cronológicos apontam que as construções tiveram início séculos antes da Era Cristã e se estenderam até o ano 1.000 d.C. Diante das evidências e da distribuição geográfica, os cientistas batizaram a antiga cultura de civilização Aquiry. O termo possui origem linguística apurinã e era utilizado historicamente para denominar o rio Acre, palavra que posteriormente deu nome ao estado.

Diferente de sítios de habitação tradicional, as áreas internas dos geóglifos não apresentaram vestígios de cerâmicas domésticas. O dado indica que as estruturas geométricas funcionavam como terreiros cerimoniais voltados a festividades e ritos coletivos. Os pesquisadores apontam que a região era originalmente coberta por densos bambuzais, e os povos locais aproveitavam os ciclos naturais de secagem do ecossistema para realizar queimas controladas, abrindo clareiras para as obras.

Ao todo, os pesquisadores catalogaram 634 estradas largas, que possuem mais de 15 metros de largura, além de outras 321 vias mais estreitas. A maioria dos trajetos identificados se estende em linhas retas alinhadas com exatidão aos pontos cardeais, indício que sugere o emprego de conhecimentos astronômicos consolidados para orientar o desenho das rotas na floresta.

A análise do traçado revelou que cerca de 40% das vias mapeadas terminam nas margens de rios, apresentando uma concentração expressiva no município de Boca do Acre, considerado um ponto estratégico de conexão fluvial na bacia amazônica. Outros 10% das estradas conectam-se de forma direta aos geóglifos, expandindo-se em um formato geométrico de leque ao se aproximarem das entradas, recurso estético possivelmente usado para ressaltar a imponência dos espaços de cerimônia.

O destino de quase metade da rede viária mapeada permanece desconhecido, e os cientistas cogitam que os caminhos remanescentes pudessem conduzir a zonas de exploração agrícola ou a depósitos de recursos naturais estratégicos. Embora a supressão da vegetação nativa tenha exposto parte das linhas no solo, a equipe aposta na tecnologia Lidar (Light Detection and Ranging) para os próximos passos da investigação. O sistema emite pulsos de laser capazes de transpor a copa das árvores e registrar modificações topográficas ocultas pela mata densa, buscando revelar novas conexões da civilização que, conforme descreveu Ranzi, “desapareceu na bruma do tempo”.

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