O artista plástico Rodolfo Bader Filho, falecido em 1984, é um dos nomes indicados para compor o quadro de patronos das cadeiras de 41 a 60 da Academia Acreana de Letras (AAL). A indicação, proposta pela acadêmica Edir Figueira Marques de Oliveira, ocupante da cadeira 11, foi formalizada por meio do Edital AAL nº 04/2026 e pode eternizar o nome de um dos primeiros artistas a retratar a Amazônia acreana em telas pintadas a óleo.
A ligação do pioneiro Rodolfo Bader com a Academia Acreana de Letras não foi apenas artística e sua atuação se estendeu para seu ambiente familiar. Sua filha, Clara Elizabeth Simão Bader, é membro fundadora da instituição e ocupa a cadeira 9, dando continuidade ao legado do pai no campo das letras e da cultura acreana.
Indicação ao patronato da AAL amplia o reconhecimento à trajetória de Rodolfo Bader Filho /Foto: Ascom
Nascido em Sena Madureira, em 14 de março de 1925, Rodolfo Bader Filho carregava em sua história uma dupla herança cultural. Era filho do libanês Rodolfo Bader e da peruana Letícia Bader, descendente dos povos originários do Peru e filha de um pajé indígena. Essa ancestralidade, árabe pelo pai e indígena pela mãe, marcou profundamente sua identidade e suas obras, que buscavam representar o “sonho amazônico” em cores e formas.
Casou-se com a professora Joana Alice Simão Bader, com quem teve quatro filhos: Clara Elizabeth, Tufi, Teresa e Simone. Seus primeiros passos na pintura e na arte foram dados no Colégio Dom Bosco, em Manaus, onde se destacou a ponto de se tornar monitor da turma.

Clara Elizabeth Simão Bader, filha de Rodolfo Bader, é membro fundadora da Academia Acreana de Letras /Foto: Ascom
Seus trabalhos foram pioneiros na documentação visual da Amazônia. Ainda jovem, o artista retornou ao Acre para cuidar dos seringais da família, e em suas viagens pelo interior, a bordo de um batelão, ele registrava as paisagens, os animais, a flora e as atividades produtivas da região. Além disso, foi também o criador da balsa para Manacapuru (que ganhou fama nas charges pós-eleições), e nutria um sonho integracionista de conectar o Acre ao Oceano Pacífico e ao restante do país. Um sonho que chegou a ser pintado em suas telas.
Autodidata, Bader também cultivava interesse por filosofia, história da arte e música. Um traço singular de seu trabalho era que sempre pintava inspirado por um fundo musical, em geral bolero e valsa, com os quais deslizava seus pinceis sobre as telas. Todas as suas obras foram marcadas pela tentativa de capturar a alma da região, como explicou sua filha, Clara Elizabeth Simão Bader. “Ele pintava com a frequência da música do bolero e valsa. Ele precisava dessa frequência para registrar a alma amazônica, tanto do seu povo quanto das suas histórias”, afirmou Clara.

Artista percorreu o interior do Acre e registrou paisagens, animais, flora e atividades da região /Foto: Ascom
Um de seus quadros mais significativos foi o mapa do Acre, que registrou as fronteiras, os rios e as tribos indígenas, e foi oferecido à Secretária de Educação Florentina Esteves, no início da década de 70. Além de cartunista, o artista se propunha a retratar povos originários, seringueiros, Ernesto Geisel e as mitologias da floresta amazônica, como a Mãe da Mata, o Mapinguari, o Curupira e a Caipora.
Visionário e percursor das artes plásticas no Acre, ele também foi um dos primeiros a realizar as primeiras exposições de pintura a óleo. Sua atuação foi impulsionada em 1972, no ano em que apresentou 32 obras em preto e branco durante a Feira dos Municípios e, posteriormente, expôs outras 50 telas em celebração ao centenário da Independência e da emancipação do estado.
Segundo a filha, o reconhecimento de Rodolfo Bader veio em vida e se estende mesmo após sua morte. “Ele foi o primeiro precursor da arte, o primeiro a fazer exposições de quadros artísticos pintados a óleo. Foi homenageado pela Academia de Letras, pela Presidência da República, ganhou reconhecimento e prêmios internacionais”, destacou.
A herança indígena, recebida pela sua mãe, ajuda a explicar a sensibilidade de Bader para representar a floresta e seus habitantes. Sua arte não apenas retratava a paisagem amazônica, mas buscava compreender e traduzir a cultura e a história das populações que ali vivem.
Reconhecido também por seus retratos monumentais, geralmente com três metros de altura, o pintor também imortalizou figuras históricas e políticas de destaque. Entre suas obras notáveis estão grandes telas de José Plácido de Castro, Santos Dumont, Dom Pedro I, Rodrigues Alves e do bispo Dom Giocondo Maria Grotti. Ele também retratou líderes como Jorge Kalume, Geraldo Mesquita, Wanderley Dantas, o senador José Guiomard dos Santos e os presidentes Emílio Garrastazu Médici e Ernesto Geisel.

Obras de Rodolfo Bader foram cedidas pela família para exposição durante fórum nacional de cultura /Foto: Ascom
Ao longo de sua trajetória, Rodolfo Bader também foi nomeado pelo governador José Augusto de Araújo para ser o primeiro prefeito do município de Santa Rosa, antigo seringal de sua família. Foi homenageado e premiado pelos governos federal e estadual, pelo Instituto Histórico e Geográfico do Acre, pela Academia Acreana de Letras, pela Casa do Poeta Acreano e pela Fundação Cultural.
Em 1986, por ocasião do 12º Fórum Nacional de Secretários de Cultura, a família cedeu alguns quadros do artista para a Coletiva de Artes Plásticas, organizada pela Fundação Cultural, que reuniu 16 artistas acreanos. Em 1990, durante a Semana da Cultura, a Prefeitura de Rio Branco o homenageou ao criar o Prêmio Rodolfo Bader Filho, para o vencedor da bandeira da Casa do Poeta Acreano.
Dois anos depois, em 3 de setembro de 1992, foi criado o Museu Pro Arte e Salão de Belas Artes, nas dependências da Biblioteca Pública Adonay Santos, e seu nome foi escolhido para denominar o espaço, que se tornou referência para a arte local.

Artista retratou povos originários, seringueiros, personalidades e personagens das mitologias amazônicas /Foto: Ascom
Embora parte de sua produção artística não possa ser listada tecnicamente, devido à desativação do Salão de Belas Artes, outros trabalhos ainda permanecem. Eles estão expostos em espaços como o Museu dos Povos Acreanos, a Catedral Nossa Senhora de Nazaré e a 4ª Companhia de Fronteira, onde continuam a ser apreciados por visitantes e pesquisadores.
A indicação ao patronato da Academia Acreana de Letras representa mais um reconhecimento à trajetória de Rodolfo Bader Filho e à sua contribuição na arte regional. Suas produções artísticas, que transcenderam fronteiras e documentaram a história da Amazônia, continuam dialogando com novas gerações e mantendo viva a cultura e identidade do povo acreano.


