Filme acreano ‘Mercado de Histórias’ é premiado em festival de Roraima

Documentário sobre mulheres, meio ambiente e agricultura familiar virou registro histórico após demolição de espaço público

Por Fhagner Soares, ContilNet 14/06/2026 às 19:51

O cenário do audiovisual acreano celebra o reconhecimento nacional do documentário  Mercado de Histórias, dirigido pela realizadora local Alcinethe Damasceno. A obra foi premiada na edição de estreia do FestCine Saberes Amazônicos, o primeiro festival de cinema do estado de Roraima focado exclusivamente na valorização e difusão de produções que abordam as realidades, identidades e desafios do ecossistema e das populações amazônicas.

A mostra competitiva dividiu as atenções com outras obras de relevância regional, a exemplo do longa-metragem A Pele do Ouro, que discute a dinâmica do garimpo sob a perspectiva das mulheres. No caso do filme acreano, o foco central recai sobre o debate socioambiental e o protagonismo feminino na cadeia da agricultura familiar, um setor que a diretora aponta como historicamente invisibilizado pela sociedade.

O documentário acompanha a trajetória de três mulheres acreanas que herdaram de suas famílias o ofício de cultivar a terra e utilizar a rede de rios e varadouros nativos para a colheita e subsistência. A narrativa conecta o cotidiano das trabalhadoras rurais aos impactos diretos causados pelas mudanças climáticas no bioma, evidenciados na região por meio dos ciclos extremos de cheias e secas severas que afetam diretamente o calendário de produção de alimentos da floresta.

Filme acreano 'Mercado de Histórias' é premiado em festival de Roraima

Dirigido por Alcinethe Damasceno, documentário destaca o papel invisibilizado de trabalhadoras rurais na agricultura familiar/ Foto: Reprodução

Além do valor etnográfico e ambiental, Mercado de Histórias converteu-se em um documento de memória urbana. A estrutura física do mercado público que serve de cenário e dá título ao documentário foi completamente demolida pelas autoridades locais exatamente uma semana após o encerramento das gravações das cenas. O espaço foi derrubado para dar lugar a um novo projeto arquitetônico voltado ao turismo de massa.

“Ainda que o mercado precisasse de reforma e de ser melhorado, quando ele foi derrubado perdeu-se a memória e a identidade que se relacionavam muito com a cidade. O filme já nasceu histórico por conta disso”, avaliou Alcinethe Damasceno em entrevista.

A recepção do filme tem garantido uma trajetória de alcance nacional para o cinema produzido no Acre. A obra já foi selecionada e exibida em mais de 20 festivais de cinema distribuídos por quase todos os estados da Amazônia Legal, além de circuitos de exibição no Rio de Janeiro, São Paulo e Pernambuco. O documentário também passou a integrar o catálogo da plataforma de streaming Planet Doc, um canal de distribuição focado em educação ambiental que disponibiliza o acervo audiovisual para pesquisas e exibições em universidades e escolas públicas de todo o Brasil.

Paralelamente ao circuito comercial e competitivo, a realizadora mantém uma política de circulação popular das obras no Acre, com foco no público que não possui acesso regular a salas de cinema. Recentemente, a equipe encerrou o projeto Cinebeira Rio, que percorreu as calhas fluviais do Rio Acre em embarcações locais, exibindo Mercado de Histórias e o filme Ponte de Memórias —obra anterior da cineasta sobre a história da ponte metálica— para um público estimado em mais de 400 espectadores ribeirinhos.

Filme acreano 'Mercado de Histórias' é premiado em festival de Roraima

: Filme de cineasta acreana vira patrimônio histórico da identidade local/ Foto: Reprodução

Novas frentes de exibição descentralizada já estão confirmadas pela produção para os próximos meses através de projetos aprovados por editais de fomento à cultura:

  • Projeto Cine Memória (junho): Sessões agendadas para os dias 18 e 23 de junho, voltadas aos usuários do Restaurante Popular do bairro Sobral e dos Centros de Referência de Assistência Social (CRAS) das regiões Santa Helena e Sobral, com expectativa de atingir 150 pessoas por sessão.

  • Projeto Polo de Cinema (julho e agosto): Mostra que levará os dois documentários de Alcinethe e mais três produções de cineastas acreanos para as comunidades dos polos Geraldo Mesquita e Geraldo Fleming. Os eventos contarão com a presença física de uma das personagens do filme premiado, a agricultora Dona Deja, para debates sobre produção rural e meio ambiente com a comunidade.

A cineasta revelou ainda que já iniciou as tratativas e entrevistas preliminares para uma nova produção documental de porte nacional. O projeto inédito, mantido sob sigilo técnico, abordará a biografia de uma personalidade acreana com forte relevância histórica para o país, dependendo apenas da abertura de novas janelas de editais públicos para o início da captação de recursos financeiros.

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