“Demorou muito tempo pra cair a ficha que eu tinha conseguido passar”, esse foi o sentimento que consumiu, Morgana Café, que aos 23 anos celebra a conquista de uma vaga efetiva como docente na rede pública de ensino do Acre, resultado de um caminho marcado por dedicação, inseguranças e resistência.
Formada em Ciências Biológicas pela Universidade Federal do Acre (Ufac), Morgana conta que o desejo de ser professora nasceu ainda durante a graduação. “Sempre foi meu sonho, poder ter a oportunidade de fazer com que meus alunos tenham mais oportunidades na vida, seja nos estudos ou mercado de trabalho, mas que eles possam ser o que quiserem”, afirma.
Desafios pelo caminho
A rotina de estudos, no entanto, não foi simples, a jovem relata que o período de preparação foi exaustivo, especialmente por conciliar a reta final da graduação com a busca por emprego. Ela admite que não conseguiu se dedicar integralmente aos estudos, o que aumentava a sensação de insegurança.
Entre os principais desafios enfrentados, Morgana destaca o medo constante de não conseguir alcançar o objetivo. “A sensação de que eu não iria conseguir, pensar que foram quatro anos de graduação e que eu poderia acabar não trabalhar na área que eu queria, disse, era fim da faculdade, concurso, emprego, foi desesperador, mas percebi que sempre acabava me subestimando”, relembra.
A dúvida sobre continuar ou desistir também esteve presente em sua trajetória, a professora revela que pensou diversas vezes em abandonar o sonho, mas encontrou na família a força necessária para seguir.
Realização de um sonho
O momento da tão sonhada aprovação foi marcado por grande surpresa e emoção. “Demorou muito tempo pra cair a ficha que eu tinha conseguido passar que eu finalmente poderia conquistar as minhas coisas, ainda hoje sendo sincera, a ficha às vezes não caiu, é tanta expectativa que quando alcançamos é entorpecedor”, relata emocionada.
Para Café, a aprovação representa mais do que estabilidade financeira, é o início de um processo de construção pessoal e profissional. Em suas palavras, trata-se do começo de uma fase de “autocuidado e carinho” consigo mesma, além do aperfeiçoamento como educadora e da oportunidade de acompanhar seus alunos de forma contínua, agora como professora efetiva.
Representatividade
A vivência como mulher travesti também teve papel central em sua trajetória. Morgana relata que enfrentou dificuldades em diversos espaços, desde o ambiente familiar até a universidade e o trabalho. “Não é fácil ser uma mulher travesti, ainda mais em Rio Branco, a gente constantemente é vítima de algum tipo de violência, seja emocional ou física, o preconceito sempre foi e sempre será o maior câncer que o mundo já viu, este que nos proíbe de existir livremente na rua”, afirmou.

Morgana Café é referência de conquista e representatividade na Educação. Foto: cedida
Nesse contexto, a aprovação no concurso ganha também um significado coletivo e de pertencimento, Morgana acredita que sua presença no serviço público contribui para ampliar a representatividade. “Eu estar ali presente acaba sendo uma outra perspectiva de vida, que apesar da violência, do medo constante e o menosprezo, a gente consegue estar nesses lugares, é uma prova de que podemos e somos muito mais do que carne nesse sistema açougueiro”, declarou.
Fonte de esperança e inspiração
Agora, como professora efetiva da rede pública, na escola Lindaura Martins Leitão Morgana leciona a disciplina de Ciências para alunos do ensino fundamental anos finais e ela deixa claro que projeta uma atuação voltada à transformação social por meio da educação e que deseja incentivar seus alunos a seguirem diferentes caminhos e a se reconhecerem como protagonistas de suas próprias histórias. Além disso, pretende continuar se especializando para tornar suas aulas mais atrativas e significativas.

Professoa leciona e inova nas aulas de Ciências no Ensino Fundamental Anos Finais. Foto: cedida
Por fim, Morgana deixa uma mensagem para quem também sonha com o serviço público. Ela reconhece que o processo pode ser difícil, mas acredita que vale a pena insistir. “É uma oportunidade que vale a pena tentar, por mais que não tenha expectativa, a gente acaba se surpreendendo, quando chega o momento que você passa em um concurso, a gente sente uma paz muito grande é um sonho que muda a vida e a rotina para melhor”, finaliza.
