O Instituto de Defesa Agropecuária e Florestal do Acre (Idaf) desencadeou uma operação de monitoramento e vigilância sanitária em propriedades rurais localizadas no interior do município de Tarauacá. A intervenção técnica foi motivada por notificações recentes de produtores locais a respeito de uma taxa atípica de mortalidade de bovinos na região, o que acendeu o alerta para possíveis surtos de patologias infecciosas ou intoxicações alimentares no rebanho.
Durante as inspeções de campo, as equipes técnicas da Unidade Local do Idaf concentraram as vistorias em um ramal situado às margens da rodovia no sentido Tarauacá–Cruzeiro do Sul. Em uma das fazendas inspecionadas, os veterinários localizaram espécimes vivos que apresentavam severos sinais neurológicos, caracterizados por dificuldade acentuada de locomoção e andar cambaleante.
Diante do quadro clínico, os profissionais do instituto realizaram procedimentos de eutanásia técnica e necropsia para isolar amostras biológicas do sistema nervoso central dos animais afetados.
“Identificamos um animal com sintomas neurológicos. Coletamos uma amostra de encéfalo, que está sendo encaminhada para análise laboratorial de raiva dos herbívoros, e encontramos ervas tóxicas e ossadas no pasto, fatores que também seguem sendo investigados”, informou o médico veterinário Vander Melo, responsável direto pela condução metodológica do caso.
Segundo o especialista, a hipótese epidemiológica de um surto de raiva perde força inicial devido a dois fatores de manejo identificados na propriedade: todo o rebanho local encontrava-se com o calendário de vacinação anti-rábica rigorosamente em dia e os pecuaristas da localidade não relataram incidentes recentes de ataques ou espoliações por morcegos hematófagos (Desmodus rotundus), que são os principais vetores de transmissão do vírus na zona rural.

Amostra de encéfalo de bovino foi enviada para exames laboratoriais de raiva/ Foto: Reprodução
As ações preventivas do Idaf são balizadas pelas diretrizes do Programa Nacional de Controle da Raiva dos Herbívoros (PNCRH), uma política pública coordenada pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa). O protocolo impõe o cadastramento preventivo de cavernas e abrigos naturais de morcegos, educação sanitária com os produtores e o monitoramento sistemático de microrregiões consideradas de alto risco para o desenvolvimento da zoonose.
Paralelamente à investigação laboratorial sobre a raiva, os técnicos do Idaf trabalham com outras duas linhas de apuração para desvendar as mortes em Tarauacá: a ingestão acidental de plantas nativas venenosas presentes na pastagem e a ocorrência de clostridioses. As clostridioses compreendem um grupo de infecções bacterianas agudas (como o carbúnculo sintomático e o botulismo) conhecidas pela evolução fulminante e elevados índices de letalidade nos pastos.
O cenário ganha contornos complexos devido a um gargalo logístico de mercado. O Idaf emitiu um alerta formal aos pecuaristas acreanos a respeito do atual desabastecimento nacional de vacinas contra clostridioses, um apagão de estoque que limita a capacidade de imunização preventiva por parte dos criadores e exige atenção redobrada no manejo diário.
O órgão estadual informou que o status de vigilância ativa permanecerá mantido na região do Vale do Juruá até que os laudos dos exames de encéfalo fiquem prontos. As autoridades sanitárias reforçaram a orientação para que qualquer pecuarista que identifique gado com salivação excessiva, paralisia ou óbito repentino evite manipular os cadáveres e formalize a notificação imediata junto às instâncias do Idaf.

