O avanço acelerado das ferramentas de inteligência artificial, as dinâmicas de distribuição de conteúdo por algoritmos e os reflexos institucionais da desinformação estrutural centralizaram os debates sobre cidadania e transformação digital nesta quinta-feira (18), na capital acreana. Especialistas, magistrados e a comunidade acadêmica reuniram-se para analisar os desafios de se resguardar a confiabilidade do debate público em um ecossistema hiperconectado.
As discussões integraram o painel “Democracia na Era Digital e a importância da busca da informação correta e o papel dos organismos de fiscalização”, promovido pela Fundação Rede Amazônica. O evento, sediado no auditório do Instituto Federal do Acre (Ifac), em Rio Branco, faz parte do cronograma oficial de interiorização do projeto Amazônia Que Eu Quero.
O encontro buscou diagnosticar o papel das plataformas de tecnologia e a responsabilidade civil compartilhada na mitigação de riscos à soberania informacional. Participaram da mesa de debates o professor Pablo Mendes, especialista em tecnologia e modernização da gestão pública da Universidade Federal do Acre (Ufac); Thales Quintão, doutor em ciência política e docente da Ufac; e o juiz titular do Tribunal Regional Eleitoral do Acre (TRE-AC), Thalles Sales, sob a mediação do jornalista Murilo Lima.
O redesenho das relações econômicas e políticas a partir da automação digital foi o ponto focal da intervenção de Pablo Mendes. O pesquisador pontuou que o emprego da inteligência artificial já não se restringe a nichos técnicos, operando diretamente na modelagem de processos eleitorais e na formação de opinião de massas, o que exige letramento digital por parte dos usuários.
“A inteligência artificial já influencia a economia, a política e as relações sociais. Por isso, é fundamental discutir o uso responsável dessas ferramentas e seus impactos na sociedade”, assinalou Mendes.
Complementando a perspectiva analítica, o cientista político Thales Quintão ponderou sobre a ambivalência do ambiente virtual. Se por um lado a internet horizontalizou o acesso à informação e descentralizou os canais de mobilização cívica, por outro, os mecanismos opacos de distribuição de dados geram distorções no fluxo de conhecimento. Para o cientista, monitorar como o conteúdo é filtrado e direcionado ao cidadão é pressuposto para compreender as novas configurações do ativismo social.
No campo da higidez do sistema de votação, o juiz eleitoral Thalles Sales detalhou os mecanismos de controle e auditoria que conferem robustez às eleições brasileiras. O magistrado ressaltou que a implementação de barreiras tecnológicas, como a identificação biométrica generalizada, reduziu de forma drástica as vulnerabilidades do processo de identificação dos eleitores.
Sales direcionou sua análise também à responsabilidade jurídica das corporações que gerenciam redes sociais e aplicativos de mensageria no combate a campanhas coordenadas de difamação ou mentiras.
“Quando uma plataforma é alertada sobre conteúdos potencialmente falsos ou desinformativos, ela precisa agir. Essa responsabilidade é fundamental para um ambiente digital mais seguro e transparente”, defendeu o juiz do TRE-AC.
A coordenação do evento informou que os diagnósticos e as soluções apresentadas durante as sabatinas em Rio Branco — que englobaram temas como educação midiática e cidadania digital — serão formalmente tabulados. Os apontamentos farão parte do chamado Caderno de Soluções do Amazônia Que Eu Quero, um documento plurianual que compila propostas formuladas pela sociedade civil para subsidiar políticas públicas voltadas ao desenvolvimento sustentável da Amazônia Legal.
“A tecnologia amplia o acesso à informação e à participação cidadã, mas também traz desafios importantes. Promover esse debate com os jovens contribui para fortalecer a cultura democrática”, afirmou Dênis Carvalho, especialista em projetos da Fundação Rede Amazônica.
A etapa acreana encerra mais um ciclo itinerante do projeto, que já promoveu painéis semelhantes nas capitais Boa Vista (RR), Macapá (AP), Belém (PA) e Porto Velho (RO). O encerramento definitivo desta temporada de debates está previsto para ocorrer no mês de julho, em Manaus (AM).


