Frei Paolino Maria Baldassari dedicou sua vida à missão e ao serviço do povo acreano e desenvolveu uma forma singular de evangelizar ao se fazer presente nas comunidades, percorrendo longas distâncias e chegava até os lugares mais afastados para estar com os fiéis.
Seu propósito era viver em comunhão com o povo, buscando compreender sua realidade e sua maneira de pensar para, com paciência e sensibilidade, adaptar a catequese ao cotidiano de cada comunidade.
Foi um homem que ensinou sobretudo pelo exemplo e deixou um legado profundo, hoje refletido no grupo Frutos do Paolino, que mantém viva a missão iniciada pelo religioso. Mesmo após sua morte, em 2016, aos 90 anos, sua presença permanece na memória e na prática daqueles que seguem seus passos, levando esse legado nos locais mais remotos.
Nascido na cidade italiana de Bolonha, o padre Paolino Baldassari foi pároco de Sena Madureira por aproximadamente 46 anos. Tornou-se um dos maiores símbolos do município, que hoje conta com
41.343 habitantes, graças ao seu trabalho junto às comunidades tradicionais.
Sua atuação o fez ser reconhecido, inclusive, como o “médico da floresta”, apelido que traduz o cuidado e a dedicação com que atendia a população mais distante e vulnerável.

Raimundo Cruz conta que o grupo se fortaleceu após a morte de Frei Paolino. Foto: Raylanderson Frota
Frutos do Paolino
Raimundo Cruz, integrante do grupo Frutos do Paolino, conta que a iniciativa nasceu ainda em vida do frei e se fortaleceu após sua morte.
“Trabalhei dez anos com o frei Paolino, fiz seminário também, e, quando ele faleceu, decidimos continuar a missão”, explica.
A Paróquia de Nossa Senhora da Conceição, em Sena Madureira, cobre uma área extensa, alcança as cabeceiras do Iaco, do Caeté, do Macauã e boa parte do Purus, e o grupo segue visitando todas essas comunidades. As viagens, segundo ele, não têm data fixa.
“Dependemos muito das condições das estradas. A ideia era vir quando tudo estivesse aberto, mas, como isso não aconteceu, viemos agora especialmente para acompanhar o Nezinho, que está passando por dificuldades. Nosso papel é escutar, conversar e animar.”

Mesmo em comunidades mais distantes, grupo de voluntários dá continuidade ao trabalho. Foto: Raylanderson Frota
Cruz também estuda psicologia e, mesmo ainda em formação, leva às comunidades aquilo que considera essencial: presença, palavra e apoio. “Venho com amizade e com o que posso oferecer para fortalecer quem precisa.”
Ao longo do ano, o grupo realiza sete formações na região. “Trazemos uma equipe, arcamos com todos os custos e oferecemos três dias de palestras, atividades sociais, brincadeiras e pequenos cursos que tratam tanto da parte religiosa quanto da parte social”, relata.

População de Sena Madureira tem frei Paolino como uma das figuras mais emblemáticas. Foto: Raylanderson Frota
Compromisso coletivo
Adelson de Queiroz conta que a continuidade do trabalho iniciado por frei Paolino nasceu de um compromisso coletivo. “Nós, da comunidade, nos reunimos com o Raimundo, que trabalhou muitos anos ao lado do frei, e decidimos manter vivo o trabalho social e de evangelização que ele fazia”, explica.
O grupo segue visitando comunidades, animando o povo e atuando também na área cultural, com ações na rádio e nas quadrilhas tradicionais.
O propósito, segundo ele, é simples e profundo: estar presente onde há dor e necessidade. “Nosso objetivo é ajudar as pessoas que passam por momentos difíceis”, afirma.
A missão também envolve a nova geração da família. “Minha filha está prestes a se formar em medicina e já integra o grupo. Ela vai atender as comunidades do Purus, do Iaco, do Macauã, do Caeté e outros locais.”
Morador da comunidade São Miguel, Queiroz conhece bem as distâncias da região. “De lá até Sena Madureira são sete horas de viagem. E, para baixo, atendo comunidades que chegam a um dia inteiro de deslocamento.”
As visitas incluem palestras, leitura da palavra e celebrações aos domingos. Mas, acima de tudo, envolvem escuta e acolhimento. Foi assim na Reserva Extrativista Cazumbá-Iracema, onde o grupo esteve recentemente.
“Viemos dar apoio ao seu Nezinho, que perdeu o filho, que era vereador. Somos grandes amigos e viemos oferecer força”, relata, com a serenidade de quem entende que presença, muitas vezes, é o maior gesto de solidariedade.

Na Cazumbá-Iracema, voluntários fazem visitas, levam palestras e levam outras atividades para a comunidade. Foto: Raylanderson Frota
Acolhimento
Líder comunitário e seringueiro, Aldeci Cerqueira Maia, conhecido como Nenzinho e presidente da Associação dos Seringueiros do Seringal Cazumbá (ASSC), destaca a importância da presença do grupo neste momento de luto.
Ele enfrenta o luto pela morte do filho, o vereador de Sena Madureira, Francisco da Silva Maia (PP), de 40 anos, que faleceu no início de março deste ano na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Santa Juliana, em Rio Branco, vítima de um infarto.
“Essa presença é muito importante, porque nos dá apoio em um momento tão difícil”, afirma.
Nenzinho explica que a escuta e a proximidade oferecidas pelo grupo ajudam a aliviar a dor. “Meu filho era um amigo, e a partida dele pegou todos de surpresa. Essa escuta, essa proximidade com a comunidade, ajuda muito e é fundamental para que a gente consiga superar essas dificuldades.”
Para ele, o mais significativo é saber que ninguém enfrenta o sofrimento sozinho. “O mais importante é que todos da comunidade podem ter esse apoio”, reforça, emocionado.

O grupo segue visitando comunidades, animando o povo e atuando também na área cultural. Foto: Raylanderson Frota
Processo de beatificação
O Vaticano está analisando o processo de beatificação do padre Paolino Baldassari, que pode se tornar o primeiro santo da Amazônia. Ainda em 2024, um representante da Santa Sé visitou o Acre para avançar na avaliação do caso.
A beatificação é uma etapa fundamental no caminho rumo à canonização. Ela exige a comprovação de um milagre atribuído à intercessão do candidato à santidade — exceto no caso dos mártires, cujo sacrifício é considerado prova suficiente. Geralmente, trata-se de uma cura extraordinária, sem explicação científica plausível.
O processo de reconhecimento de um milagre é rigoroso e ocorre em duas fases principais: a científica e a teológica. Primeiro, uma comissão de especialistas analisa detalhadamente exames, prontuários e todo o histórico clínico do caso, para confirmar que o evento não pode ser explicado pelas leis naturais conhecidas.
Somente após essa validação, o material segue para a etapa teológica, que avalia se o suposto milagre pode ser legitimamente atribuído à intercessão do Venerável. Isso inclui verificar a relação entre as orações dirigidas ao candidato e o acontecimento extraordinário.
Se o milagre for reconhecido, o Papa poderá emitir o decreto de beatificação, permitindo o culto público ao novo Beato, geralmente em âmbito local ou regional. A beatificação é, portanto, um passo decisivo para confirmar a santidade do candidato e fortalecer a devoção popular.


