Com o número de famílias endividadas no Brasil atingindo o maior patamar da série histórica, o Governo Federal lançou o Novo Desenrola Brasil, programa voltado à renegociação de dívidas com descontos que podem chegar a 90%. No Acre, onde mais de 109 mil famílias têm algum tipo de compromisso financeiro, a iniciativa pode beneficiar consumidores que enfrentam dificuldades para reorganizar a vida financeira.
Segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC), em maio de 2026, 81,6% das famílias brasileiras declararam possuir algum tipo de dívida. Desse total, 29,9% possuem contas em atraso e 12,3% afirmam não ter condições de quitar seus débitos, caracterizando um cenário de superendividamento para uma parcela significativa da população.
De acordo com a presidente do PROCON Acre, Alana Albuquerque, as reclamações mais frequentes recebidas pelo órgão estão relacionadas ao endividamento dos consumidores acreanos em demandas como cartões de crédito, empréstimos pessoais e consignados, financiamentos, contas de energia elétrica, serviços de telefonia e internet, débitos bancários, compras parceladas no comércio, renegociação de contratos e cobranças indevidas.

Presidente do Procon, Alana Alburqueque fala sobre endividamento de famílias no Acre. Foto: Letícia Machado/Procon
“O cartão de crédito continua sendo uma das principais fontes de endividamento, pelas famílias brasileiras, atingindo a porcentagem de 85%, isso decorre devido aos juros elevados do crédito rotativo”, conta a presidente.
No Acre, dados da PEIC analisados pela Fecomércio/AC indicam que, em maio de 2026, 109.204 famílias possuíam algum tipo de dívida, o maior número registrado nos últimos 12 meses. O indicador considera tanto quem paga as contas em dia quanto quem está com parcelas em atraso.
Alana afirma que esse cenário reflete a realidade de famílias de renda média e baixa que vivem em situação de vulnerabilidade econômica, com o orçamento comprometido por empréstimos, financiamentos e cartões de crédito.
“Esse contexto reforça a importância das políticas públicas de educação financeira, prevenção ao superendividamento e incentivo à renegociação de dívidas, desenvolvidas pelos órgãos de defesa do consumidor, como forma de promover o consumo responsável e assegurar condições dignas de subsistência às famílias”, declarou.
Para o economista Marcos Vinicius, um dos principais fatores do endividamento dos acreanos está relacionado ao alto custo de vida, à informalidade e ao orçamento escasso. Com isso, muitas pessoas acabam recorrendo ao cartão de crédito, a empréstimos ou ao crediário para conseguir fechar as contas no fim do mês.

Economista fala sobre endividamento envolvendo jogos digitais e reforça educação financeira. Foto: Reprodução
O economista também alerta para outro fator que preocupa: o avanço das bets.
“As apostas online cresceram muito e acabam atraindo pessoas que já estão endividadas, com a promessa de dinheiro rápido. Na prática, muitas vezes piora a situação financeira das famílias.”
Segundo Marcos, o Novo Desenrola Brasil pode representar uma oportunidade para quem enfrenta dificuldades financeiras. O programa foi criado justamente para ampliar as possibilidades de renegociação de dívidas e facilitar a recuperação do crédito pelos consumidores.
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“O Novo Desenrola Brasil representa uma chance de reorganizar a vida financeira, visto que quando uma dívida está atrasada, ela cresce rápido, esse programa pode ajudar a negociar com descontos, prazos melhores e condições que cabem mais no bolso, permitindo que muitas pessoas limpem o nome e voltem a ter acesso ao crédito, mas de forma mais consciente.”, conta.
Quem pode aderir ao Novo Desenrola?
Para participar do programa, o consumidor deve atender aos seguintes critérios:
- Ter renda mensal de até cinco salários mínimos (R$ 8.105);
- Possuir contratos firmados até 31 de janeiro de 2026;
- Ter dívidas com atraso entre 91 e 720 dias.
Podem ser renegociados:
- Cartão de crédito;
- Cheque especial;
- Crédito pessoal (CDC);
- Dívidas do Fies;
- Dívida Ativa da União;
- Fundos constitucionais;
- Crédito do Incra.
No entanto, Alana alerta para os cuidados que a população deve ter antes de aderir à renegociação no Desenrola. Segundo ela, o consumidor deve verificar se a parcela cabe no orçamento, conferir o valor total da dívida após os descontos e juros, ler atentamente todas as condições do acordo e evitar assumir novos compromissos financeiros que possam comprometer o pagamento das parcelas.
“É importante também que o consumidor guarde todos os comprovantes da negociação. A nossa orientação que sempre damos é que a renegociação seja uma oportunidade de recuperação da saúde financeira, permitindo ao consumidor retomar o equilíbrio do orçamento e prevenir situações de superendividamento”, reforça.
Acre tem menor índice de inadimplência da Região Norte
Embora o número de famílias com dívidas tenha aumentado, o Acre apresenta um cenário relativamente mais favorável quando se observa a inadimplência. Segundo o Mapa da Inadimplência da Serasa, o estado ocupa a última posição entre os estados da Região Norte no percentual de inadimplentes. Em abril, 47,84% dos acreanos estavam com contas em atraso.
O percentual registrado no estado ficou abaixo da média nacional, que atingiu 50,81%. Em todo o país, ainda segundo o relatório, mais de 83 milhões de pessoas estão inadimplentes, um aumento de 8,75% em comparação com o mesmo período do ano passado.
Na avaliação de Marcos Vinicius, programas de renegociação como o Novo Desenrola costumam reduzir os índices de inadimplência, principalmente no curto prazo, porque facilitam o pagamento de dívidas antigas. No entanto, ele ressalta que a medida, sozinha, não resolve o problema.
“É preciso investir também em educação financeira, para que as pessoas entendam melhor os juros, o uso do crédito e os riscos das apostas online. O objetivo não é culpar quem se endividou, mas ajudar as famílias a sair das dívidas e não voltar para o mesmo problema”, concluiu.



