Hoje o meu coração levou um susto daqueles que fazem o tempo parar.
Alguém me ligou dizendo que o empresário Narciso Mendes havia morrido. Por alguns minutos, senti um vazio enorme. Uma dor difícil de explicar. A notícia parecia impossível de aceitar.
O alívio só veio quando consegui falar com sua filha, Patrícia, que me tranquilizou dizendo que seu pai estava fora de perigo. Foi como se um peso imenso saísse do peito.
Sempre digo que pessoas extraordinárias, generosas, dessas que fazem o bem sem esperar reconhecimento, não deveriam partir tão cedo. Mesmo quando, por teimosia ou excesso de trabalho, não cuidam da própria saúde como deveriam. Narciso Mendes é uma dessas pessoas.
Ele foi meu patrão durante muitos anos. Quando comprou o meu amado Jornal O Rio Branco, eu já fazia parte daquela casa. A redação funcionava na Avenida Ceará, no prédio onde durante muito tempo esteve a funerária Morada da Paz. Foi ali que passei boa parte da minha vida profissional e conheci, de perto, um homem muito maior do que o empresário que todos admiravam.
Conheci um coração generoso.
Durante anos vi Narciso estender a mão para milhares de pessoas. Amigos, funcionários, políticos derrotados, famílias em dificuldade e até desconhecidos encontravam nele um porto seguro. Era comum ver gente chegando ao jornal em busca de ajuda. E quase nunca saía de mãos vazias.
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Pouca gente sabe, mas Narciso sustentou, durante anos, pessoas que haviam perdido tudo. Políticos sem mandato iam todos os meses buscar dinheiro para fazer a feira de casa. Ele ajudava discretamente, sem fazer propaganda, sem cobrar favores, sem transformar solidariedade em manchete.
Esse era o Narciso que muitos não conheciam.
Naquele tempo, travava embates políticos históricos com os irmãos Viana, que comandavam o Acre. Jorge Viana era, sem dúvida, seu principal adversário. As críticas eram duras e públicas.
Lembro-me de um episódio que nunca esqueci. Um dia lhe disse, com toda sinceridade, que votaria em Jorge Viana.
Sabe o que aconteceu?
Nada.
Ele nunca me perseguiu. Nunca me demitiu. Nunca tentou interferir na minha escolha.
Respeitava profundamente a liberdade de seus funcionários. Cada um votava em quem acreditava ser o melhor. Essa talvez tenha sido uma das maiores demonstrações de democracia que testemunhei dentro de uma empresa de comunicação.
Narciso era firme nas suas convicções, mas nunca confundiu divergência política com perseguição pessoal.
Hoje, olhando para trás, percebo que tive o privilégio de conviver com um homem raro.
Um empresário bem-sucedido, um político apaixonado, um comunicador aguerrido, mas, acima de tudo, um ser humano de uma generosidade difícil de encontrar.
Sei que todos nós temos um encontro marcado com Deus. Sei que a vida é passageira e que ninguém escapa desse destino.
Mas confesso que nunca me conformo quando imagino a partida de alguém que aprendi a amar e admirar.
Por isso, quando recebi aquela ligação hoje, senti como se uma parte importante da história do Acre estivesse indo embora.
Felizmente, não era verdade.
Meu querido Narciso, que Deus continue lhe concedendo saúde e força para vencer mais este desafio.
Saiba que sempre estarei de braços abertos para recebê-lo.
Você continuará sendo, para mim, muito mais que um antigo patrão.
Será para sempre um grande amigo.
E uma das pessoas mais generosas que já conheci em toda a minha vida.
