Durante quase toda a minha infância e parte da juventude, havia um ritual que até hoje guardo com carinho na memória. Minha mãe comprava os antigos folhetos de cordel, e eu mergulhava naquelas páginas simples, mas repletas de sabedoria popular. Foi em um desses folhetos que encontrei uma frase que nunca mais saiu da minha cabeça:
“Matos têm olhos e paredes têm ouvidos; os crimes são descobertos por mais que sejam escondidos.”
Carrego essas palavras como uma espécie de ensinamento sobre a vida. Porque a verdade pode até demorar, mas ela costuma encontrar um caminho para aparecer.
É justamente por acreditar nisso que me recuso a aceitar o silêncio que começa a tomar conta do brutal espancamento sofrido pelo jornalista e radialista Francisco Melo, o nosso querido Chico Melo, em Cruzeiro do Sul.
Já se passaram dias desde aquela noite de violência. Vieram as notas oficiais de solidariedade, as manifestações de amigos, o repúdio da sociedade, o compromisso das autoridades e até o deslocamento de policiais de Rio Branco para reforçar as investigações. Tudo isso é importante. Mas ainda falta o essencial: descobrir quem fez isso e levá-los à Justiça.
O tempo não pode transformar um crime tão bárbaro em apenas mais um caso arquivado na memória coletiva.
Não podemos normalizar a violência. Não podemos aceitar que um profissional seja espancado, quase assassinado, e que, com o passar dos dias, a indignação vá sendo substituída pelo esquecimento.
Conheço Chico Melo há muitos anos. Sei da sua dedicação ao jornalismo, da sua paixão pelo rádio e, principalmente, do homem que ele é. Chico é daqueles seres humanos raros, incapazes de cultivar o ódio. Um profissional respeitado, um amigo leal, um cidadão que construiu sua história com trabalho, honestidade e respeito às pessoas.
Quem conhece Chico sabe que ele merece apenas uma coisa da vida: continuar trabalhando, convivendo com a família, exercendo sua profissão e vivendo em paz.
Por isso, este não é apenas um apelo em favor de um amigo. É uma defesa da justiça.
Quem agride brutalmente um jornalista agride também o direito da sociedade de viver em um ambiente onde as diferenças sejam resolvidas pela palavra, nunca pela violência.
Tenho absoluta confiança na Polícia Civil e acredito que as investigações chegarão aos responsáveis. Crimes dessa natureza deixam rastros. Alguém viu, alguém ouviu, alguém sabe. Como ensinava aquele velho cordel da minha infância, por mais que tentem esconder, a verdade encontra um jeito de aparecer.
Que esse dia chegue logo.
Que os responsáveis sejam identificados, processados e punidos na forma da lei.
Não por vingança, mas porque um Estado democrático não pode conviver com a impunidade.
Meu querido Chico Melo merece justiça.
Sua família merece respostas.
E o Acre inteiro merece saber que ninguém pode tentar tirar a vida de um cidadão de bem sem responder pelos seus atos. Afinal, enquanto esse crime permanecer sem solução, todos nós continuaremos sendo vítimas dele.
