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Artesã do Acre conquista comércio exterior com biojoias da floresta

Por Karolini Oliveira 07/06/2026 às 14:33
Artesã do Acre conquista comércio exterior com biojoias da floresta

Empreendedora acreana leva peças produzidas com materiais da floresta para mercados internacionais/Foto: Cleiton Lopes

Uma semente coletada na floresta e um pedaço de madeira residual em uma marcenaria de Rio Branco, capital do Acre, são elementos que percorrem milhares de quilômetros para chegar à loja do Museu de Arte de São Paulo (Masp), e à Treasures of Brazil (Tesouros do Brasil, em tradução livre), em Londres, na Inglaterra. O que estes materiais têm em comum para serem enviados para tão longe? Um propósito de vida para a artesã Rodney Paiva Ramos, criadora da Biojoias Cores da Mata.

Artesã do Acre conquista comércio exterior com biojoias da floresta

Peças feitas com sementes da floresta amazônica e resíduos de madeira ganham nova roupagem em peças de design autoral na Cores da Mata. Foto: Cleiton Lopes

Nas mãos de Rodney, referência na criação de biojoias artesanais no Acre, o que seria descartado e deixado de lado é transformado em artigos de luxo com design autoral na Biojoias Cores da Mata, empreendimento da artesã. Para ela, transformação é a palavra que define o seu trabalho hoje: “Seja semente ou um pedaço de madeira que vejo na mata, ou mesmo na rua, já penso em transformar. Ganhar esses materiais de presente é importante porque gera renda e o sustento da minha casa”, explica Rodney.

Artesã do Acre conquista comércio exterior com biojoias da floresta

Rodney Paiva Ramos é proprietária da Biojoias Cores da Mata. Foto: Cleiton Lopes

Artesã premiada e reconhecida pela criação de biojoias da Amazônia com sementes, ouriços de castanha e madeira de reaproveitamento no mercado nacional e internacional, Rodney já tem no currículo exportações para a Europa em países como Portugal e Inglaterra. Mas nem sempre foi assim. Para chegar a este momento, a artesã explica que passou por muitos desafios, falta de oportunidade e aprendizado.

Transformando desafio em oportunidade

Em 2003, Rodney saiu de Borba (AM), sua cidade natal, para morar em Rio Branco (AC) devido à transferência do esposo Valdeci Neves para um novo posto de trabalho na filial de uma multinacional. Ao chegar em Rio Branco, ela viu emergir o sentimento de desconexão, sem familiares próximos e a falta de atividade empregatícia. Isso mudou quando encontrou o artesanato.

Artesã do Acre conquista comércio exterior com biojoias da floresta

Rodney cria biojoias utilizando madeira de reaproveitamento, de árvores já caídas pela ação da natureza, sem a necessidade de fazer derrubadas. Foto: Cleiton Lopes

“Eu comecei a trabalhar com biojoia, em 2003, por falta de oportunidade. Em Manaus eu tinha um salão de beleza, fazia manicure, cortava cabelo, vendia produtos da Natura e bolsas. Sempre fui empreendedora. Chegando em Rio Branco, eu não fazia nada disso e me sentia presa. Foi quando conheci uma entidade [Fundação Bradesco], comecei a participar de capacitações e surgiu o curso de biojoia. Comecei a fazer as peças e vender, mas não tinham a qualidade que têm hoje”, lembra a artesã.

Artesã do Acre conquista comércio exterior com biojoias da floresta

Oficina sustentável: Rodney também reaproveita pedaços e recortes de madeiras vindas de marcenarias, evitando o descarte em aterros. Foto: Cleiton Lopes

Apesar de receber feedbacks negativos quanto às suas peças no início do empreendimento, Rodney persistiu na criação das biojoias. Buscou o Sebrae e encontrou a oportunidade de se especializar em um curso de reaproveitamento de madeira. Da turma que tinha mais de 50 pessoas, apenas três seguiram na área. Rodney é uma delas.

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Rodney aprendeu a trabalhar com reaproveitamento de madeira em cursos do Sebrae no Acre. Foto: Cleiton Lopes

Aldemar Marciel, coordenador do projeto de internacionalização do Sebrae no Acre, detalha que a organização atua com uma rede de parceiros para apoiar artesãos, como o governo federal por meio do Programa do Artesanato Brasileiro (PAB). “O Sebrae investe no artesanato porque o enxerga como uma atividade econômica sustentável, limpa, de baixo carbono e com grande carga cultural, capaz de agregar comunidades inteiras”, enfatiza.

Artesã do Acre conquista comércio exterior com biojoias da floresta

A jarina, considerada o marfim vegetal da Amazônia (na peneira à direita), é um das sementes mais utilizadas nas peças. Para chegar a esse ponto, leva seis meses de beneficiamento. Foto: Cleiton Lopes

Entre as ações, o coordenador destaca três frentes de trabalho: primeiro o incentivo à emissão da Carteira Nacional do Artesão; seguido da realização de diagnósticos e oferta de cursos sobre formação de preço, planejamento da unidade produtiva, gestão da produção e comercialização.

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Sebrae fomenta a regularização, qualificação e o acesso a mercado aos artesãos. Foto: Cleiton Lopes

O acesso a mercado faz parte da terceira etapa de incentivo. Um dos meios de acesso é o Projeto Comprador, que leva empresários de outros estados para o Acre, para negociar diretamente com os artesãos locais, além de viabilizar a participação em feiras locais, como a Expoacre, e nacionais, como o Salão do Artesanato Brasileiro em São Paulo (SP), onde houve superação das metas de vendas este ano, com mais de R$236 mil comercializados.

Empreendedorismo, avanços e desafios

Ao longo dos anos, Rodney participou de capacitações e trabalhou sozinha na criação das biojoias com o que aprendeu nos cursos que fez e ganhou diversos prêmios.

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Colar Cores da Mata recebeu o Certificado de Excelência em Artesanato da Unesco, em Montevidéu, no Uruguai. Foto: Cleiton Lopes

Em 2012, ela recebeu o prêmio de Reconhecimento de Excelência da Unesco para produtos artesanais do Mercosul+, na Escola de Arte Montevidéu, no Uruguai. Ela concorreu com dois produtos. Na primeira fase, ficou em primeiro lugar e, na segunda fase, conquistou o segundo lugar geral entre 62 produtos concorrentes do Brasil nesta 3ª edição do prêmio. A peça premiada, “Cores da Mata”, foi tão importante na trajetória dela que acabou dando nome à sua marca.

Artesã do Acre conquista comércio exterior com biojoias da floresta

Colar Cores da Mata é feito com sementes de açaí, morototó e cascalho de jarina, tulipas em madeira e a técnica empregada é de trama e transpasse manual em fios e fechamento com macramê. Foto: Cleiton Lopes

Rodney também foi vencedora do Prêmio Top 100 Sebrae de Artesanato, em 2016. Ela levou a peça para a Feira Nacional de Negócios do Artesanato (Fenearte), uma das maiores do artesanato na América Latina, e foi tão bem sucedida que, com o lucro, ela conseguiu comprar um carro próprio.

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Colar feito em discos de jarina, tulipas em madeira e fechamento com semente de tucumã, da Cores da Mata, venceu o Prêmio Top 100 Sebrae de Artesanato, em 2016. Foto: Cleiton Lopes

A artesã também foi vencedora, em 2017, da etapa estadual do Prêmio Mulher de Negócio do Sebrae. Ela teve seu trabalho incluído no Guia Homo Faber 2024, catálogo de curadoria da Fundação Michelangelo para a Criatividade e o Artesanato, uma instituição internacional privada e sem fins lucrativos com sede em Genebra, na Suíça.

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Clientes da Cores da Mata têm preferência por peças de beleza e alto valor agregado em sustentabilidade. Foto: Cleiton Lopes

Especialista em peças de madeira, ouriços de castanha e sementes da floresta amazônica, hoje Rodney emprega e contribui para uma cadeia de trabalhadores do artesanato. Entre eles, o esposo Valdeci Neves com quem veio para o Acre, em 2003, e que, hoje, mecânico aposentado após 32 anos de serviço, colabora na oficina que eles têm em casa, fazendo os moldes e acabamentos das peças em madeira.

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Esposo de Rodney, Valdeci Neves, é mecânico aposentado. Ele foi o responsável por adaptar maquinário para o processo de criação das peças. Foto: Cleiton Lopes

Embora prefira os bastidores, Valdeci foi o responsável por adaptar as máquinas da oficina para o trabalho artesanal, desde o corte, lixagem, até a furadeira adaptada para a perfuração por onde passam os fios que unem sementes e madeira.

Artesã do Acre conquista comércio exterior com biojoias da floresta

Rodney conta com a contribuição do esposo Valdeci no processo de criação das peças. Foto: Cleiton Lopes

“Temos uma conexão muito próxima no trabalho e na vida. Eu o chamei para me ajudar e hoje ele faz os cortes de madeira, desenhos e criação das peças”, relata Rodney.

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Artesã faz a montagem item a item dos acessórios e colares de mesa. Na foto, Rodney trabalha na peça inédita “Meandros”, que representa as curvas sinuosas e acentuadas do curso de um rio, para a coleção Rios Amazônicos, feita especialmente para concorrer ao 6º Prêmio Sebrae TOP 100 de Artesanato. Foto: Cleiton Lopes

Geração de emprego e renda

Além de Valdeci, a Cores da Mata mantém negócios com fornecedores que contribuem na coleta e beneficiamento de sementes da floresta amazônica, e amigos da família que colaboram na montagem, penúltima etapa na jornada de produção da marca, antes de chegar às prateleiras.

Artesã do Acre conquista comércio exterior com biojoias da floresta

Da floresta aos acessórios e colares decorativos, criação artesanal integra rede de trabalhadores no Acre. No registro acima, a peça da Cores da Mata na Loja Home Design, especialista em design de interiores, móveis de alto padrão e decoração, em Rio Branco. Foto: Cleiton Lopes

Cadeias de produções como as da Cores da Mata geram impacto econômico positivo para pequenos empreendedores do estado do Acre, apontam dados do governo estadual.

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Em janeiro de 2026, foram registrados 2.356 artesãos ativos no Acre, segundo dados da Secretaria de Estado de Turismo e Empreendedorismo. Foto: Cleiton Lopes

No Acre, em janeiro de 2026, foram registrados 2.356 artesãos ativos no Sistema de Informações Cadastrais do Artesanato Brasileiro (Sicab), do Programa do Artesanato Brasileiro (PAB), informa a Secretaria de Estado de Turismo e Empreendedorismo (Sete). O número representa um avanço com o registro de 420 artesãos, cadastrados em 2025.

Artesã do Acre conquista comércio exterior com biojoias da floresta

Artesanato da Amazônia Acreana tem ganhado mais espaço no mercado nacional e internacional. Na foto, colar de mesa Cores da Mata, com sementes de açaí, paxiuba e madeira de reflorestamento, na Home Design. Foto: Cleiton Lopes

De acordo com a instituição, o registro possibilita o reconhecimento formal da profissão com a emissão da Carteira Nacional do Artesão, além do acesso a microcréditos, participação em feiras nacionais e acesso à políticas públicas voltadas para o setor.

Artesã do Acre conquista comércio exterior com biojoias da floresta

Em 2024, nove artesãos representaram o Acre na 24ª Fenearte, em Olinda (PE). Foto: Cedida

Rodney é uma das artesãs que possuem o registro e mantém participação ativa em capacitações, feiras e eventos, tanto no Acre como em outros estados, como a Feira Nacional de Negócios do Artesanato, em Olinda (PE), com o apoio da Sete e do Sebrae no Acre, por meio do Programa do Artesanato Brasileiro.

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Artesã Rodney é participante ativa em cursos e na exposição em grandes feiras e eventos. Foto: Cleiton Lopes

Segundo a Secretaria de Turismo e Empreendedorismo, a Casa do Artesanato Acreano também é uma proposta para o fortalecimento do setor no estado. Cerca de 140 artesãos expõem variedade de produtos como marchetaria, cestaria, biojoias, arte indígena, além de cachaças e doces regionais, no local.

As mulheres artesãs são a maioria entre os profissionais de economia criativa que expõem na Casa. Cento e dez mulheres, quase 80% dos expositores locais, comercializam peças artesanais no espaço localizado em frente ao Calçadão da Gameleira, importante ponto turístico às margens do Rio Acre, em Rio Branco.

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Casa do Artesanato Acreano, fica localizada em frente ao Calçadão da Gameleira, importante ponto turístico de Rio Branco. Foto: Dhárcules Pinheiro/Secom

O protagonismo delas é expresso nos dados do Sistema de Informação Cadastral do Artesanato Brasileiro, que mostram que as mulheres representam 77% dos mais de 358 mil artesãos registrados no Brasil.

Dados do Agência Sebrae e do governo federal pontuam que as mulheres são as principais responsáveis pela preservação de técnicas ancestrais e que, em alguns casos, assim como Rodney, elas iniciam no artesanato por necessidade e falta de oportunidades no meio empregatício.

Nesse contexto, o artesanato passa a ser visto como uma alternativa para a geração de renda. Daí a relevância da atuação de órgãos públicos e instituições sociais na capacitação e apoio ao desenvolvimento destas empreendedoras.

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Mulheres são maioria na atividade artesanal, aponta Sicab. No Casa do Artesanato Acreano, elas são 78,6% dos expositores. Foto: Cleiton Lopes

Risoleta Queiroz, coordenadora da Casa do Artesanato Acreano e coordenadora estadual do Programa do Artesanato Brasileiro, endossa a participação feminina no local e os resultados satisfatórios alcançados nas vendas.

Em 2025, a comercialização do artesanato na Casa cresceu 154,6%, passando de R$174 mil, em 2024, para mais de R$443 mil, no ano passado.

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Casa do Artesanato Acreano expõe peças de 140 artesãos. Foto: Dhárcules Pinheiro/Secom

“Temos uma infinidade de produtos onde os visitantes chegam e se encantam com a beleza do artesanato, principalmente aqueles feitos pelas mulheres artesãs. Então, a Casa do Artesanato hoje é um ponto turístico bem aceito e as peças são muito valorizadas”, disse.

Reconhecimento e valorização no mercado nacional e internacional

Com reconhecimento e alto valor agregado na produção, as peças de Rodney Paiva Ramos, como o Colar Top 100 Sebrae de Artesanato e o Cores da Mata, são itens essenciais no portfólio da artesã, o que a levou a conquistar novos mercados a exemplo da Loja do Museu de Arte de São Paulo (MASP), na Avenida Paulista, em São Paulo (SP).

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Peças Cores da Mata são comercializadas na Loja Masp, em São Paulo (SP). Foto: Israel Gollino

Adélia Borges, curadora da Loja Masp e curadora de exposições de artesanato e design, conheceu o trabalho de Rodney quando participaram do Prêmio Top 100 Sebrae de Artesanato. Desde então, as peças da artesã passaram a compor a seleção da Loja Masp.

“A Rodney tem um trabalho muito bom com as sementes do Acre, as sementes da Amazônia. Ela foi uma das primeiras a fazer isso e ela faz isso com muita competência combinando as sementes de várias espécies vegetais numa mesma obra”, explica Adélia.

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Propósito da marca Cores da Mata foi ponto de interesse para comercialização das peças no Museu Masp. Foto: Israel Gollino

Ainda segundo Adélia, o consumidor atual tem interesse em saber a origem dos produtos que ele consome e que o uso das sementes de açaí, paxiuba, jarina e tanta outras nos produtos da Cores da Mata, faz a diferença na tomada de decisão dos clientes.

“Essa é uma característica que chama bastante a atenção do público que gosta de saber que esse trabalho é feito por uma empreendedora mulher, que é do Acre, da Amazônia brasileira, e que, com esse trabalho, está contribuindo para manter a floresta em pé”, destaca a curadora.

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Biojoias Cores da Mata utiliza sementes de açaí, paxiuba, jarina, entre outras plantas da Amazônia brasileira. Foto: Cleiton Lopes

Em concordância às observações de Adélia, o coordenador do projeto de internacionalização do Sebrae no Acre, Aldemar Maciel, explica que a atração pelo artesanato acreano advém de várias vantagens competitivas.

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Artesanato acreano reflete biodiversidade da Amazônia. Foto: Cleiton Lopes

“Em boa parte, o artesanato acreano reflete a nossa biodiversidade da Amazônia. Ele se diferencia pela origem da matéria-prima e pelos referenciais da nossa sociobiodiversidade”, afirma.

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Artesanato contribui para a subsistência de famílias e para a manutenção da floresta em pé, aponta coordenador de projeto de internacionalização do Sebrae no Acre. Foto: Cleiton Lopes

“Temos, por exemplo, calçados artesanais feitos de borracha de seringais nativos. É um produto sustentável e moderno que guarda a identidade cultural dos povos amazônicos, ajudando a manter o homem no campo e a floresta em pé. Nesse contexto, o artesão atua como um prestador de serviço ambiental, algo que o mercado valoriza muito no atual momento de mudanças climáticas”, acrescenta o coordenador.

Artesã do Acre conquista comércio exterior com biojoias da floresta

“Artesãos atuam como prestadores de serviço ambiental, algo que o mercado valoriza muito no atual momento de mudanças climáticas”, diz Aldemar Maciel, coordenador do projeto de internacionalização do Sebrae no Acre. Foto: Cleiton Lopes

Na Loja Masp, a aceitação das peças Cores da Mata é boa. “Recebemos muitos turistas estrangeiros, então eles ficam bastante fascinados com essas peças, assim como os turistas brasileiros e o frequentador habitual de museus que se identifica com o propósito dessa marca. Então é um perfil variado e é sempre uma surpresa para as pessoas verem a qualidade, a diversidade, a beleza dessa produção”, enfatiza Adélia.

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Marca aposta em trabalhar com propósito de sustentabilidade e manutenção da floresta em pé. Foto: Cleiton Lopes

Outro aspecto importante da marca, segundo a curadora da Loja Masp, é que ela tem boa precificação. “Ela valoriza as peças, mas ao mesmo tempo permite uma compra maior. Não é só para um público exclusivo, um público da elite, o consumo pode ser mais disseminado, então isso agrada bastante a todos”, ressalta.

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Produtos da Cores do Artesanato atendem a diferentes públicos. Foto: Cleiton Lopes

Na sua trajetória, a Cores da Mata também recebeu visitas de empresárias da Inglaterra, Itália, Irlanda, Equador e Japão, para proposta de negócios, e conquistou o mercado internacional com exportações para Portugal e para a Inglaterra, onde a Treasures of Brazil (Tesouros do Brasil, em tradução livre), comercializa peças da marca.

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Colares de jarina tingidas em verde e em vermelho, da Cores da Mata, na vitrine da Treasures of Brazil, em Londres. Foto: Treasures of Brazil

Daiane Ferry, proprietária da loja em Londres, relata que conheceu o trabalho de Rodney na Expoartesanías, na Colômbia, e que, durante o Exporta Mais Amazônia – organizado no Acre em 2025, pela Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex Brasil), firmou negócios com a artesã. “Eu fui para visitar as artesãs do Acre, e aí eu e a Rodney meio que estreitamos os laços aí”, lembra Ferry.

Artesã do Acre conquista comércio exterior com biojoias da floresta

Daiane Ferry, proprietária da Treasures of Brazil, comercializa biojoias da Cores da Mata em Londres, na Inglaterra. Foto: Treasures of Brazil

“Os produtos que vieram direto da Rodney foram um sucesso em Londres. Hoje a gente tem um colar de modelo exclusivo com ela. Tanto que ela está, no momento, produzindo um novo lote pra gente desse modelo. Lógico que no artesanato você não consegue ter duas peças iguais, mas você consegue replicar alguns tipos de padrões. E isso ajuda a criar referência de qualidade, de design, e conseguimos manter isso com a Rodney”, explica Ferry.

Manter o propósito, reinventar o produto

Entre tantos desafios enfrentados, desde a mudança para um novo estado à busca por um novo propósito de vida, Rodney Paiva Ramos persistiu nas oportunidades que encontrou. Uma delas, durante a pandemia mundial da Covid-19, em 2020, a fez enxergar potencial em um novo produto: os colares decorativos.

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Durante a pandemia da Covid-19, artesã viu oportunidade de trabalhar com um novo produto: colares de mesa. Foto: Cleiton Lopes

O novo produto deu certo e ganhou notoriedade. Hoje, é um dos carro-chefes da artesã, ao lado dos colares premiados Cores da Mata e Top 100, referências da marca. Com o investimento em sustentabilidade, história e identidade dos produtos, a artesã criou uma nova coleção, a Rios Amazônicos.

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Nova coleção Rios da Amazônia é composto por acessórios femininos e colares de mesa. Foto: Cleiton Lopes

O colar de mesa da nova coleção representa os Rios Amazônicos por meio de sementes de espécies comumente encontradas em áreas banhadas pelas águas em diferentes épocas do ano. A peça é feita com sementes de açaí e paxiúba, ouriços da castanha do Brasil, também conhecida como castanha-do-pará, e casca da semente de seringueira, árvore de onde se extrai o látex e elemento importante da história do Acre.

Nomeada “Catraia”, em referência à pequena embarcação comum na região para o transporte rápido de passageiros, a peça é uma das concorrentes ao 6º Prêmio Sebrae TOP 100 de Artesanato. O resultado deve ser divulgado em 29 de junho.

Artesã do Acre conquista comércio exterior com biojoias da floresta

Colar de mesa “Catraia”, da coleção Rios da Amazônia, concorre ao Prêmio Top 100 Sebrae de Artesanato de 2026. Foto: Cleiton Lopes

Embora a tão sonhada conquista do mercado internacional tenha entregue seus primeiros resultados, este objetivo não é tudo para Rodney. Com os caminhos abertos para a comercialização no mercado nacional e o exterior, a artesã revela que mantém sonhos a serem realizados ali, na casa onde ela e o esposo compartilham a vida, em Rio Branco.

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Rodney tem o sonho de transformar a oficina em uma escola de biojoias e ponto de visitação para turistas. Foto: Cleiton Lopes

“Meu sonho é que aqui seja um ponto de referência do artesanato para turistas. Quero que eles vejam o processo, como furamos a semente de açaí manualmente, e que possam montar seu próprio kit de biojoia. Isso valoriza o nosso trabalho, pois muitos não sabem o processo longo até a peça pronta. As pessoas levam a história de quem coletou e produziu”, afirma Rodney.

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Rodney continua a acreditar no artesanato que valoriza a mata, fortalece cadeias locais e celebra o consumo consciente. Foto: Cleiton Lopes

Para quem está em busca de um propósito de vida, Rodney é certeira: “Não desistam. Busquem conhecimento e acreditem em si mesmas, pois sempre haverá alguém para dizer que não vai dar certo. O artesanato não é apenas terapia; é trabalho, força de vontade e empreendedorismo. Através dele, eu, que nunca imaginei, conheci Portugal em uma rodada de negócios. Acreditar é o primeiro passo”.

Veja o vídeo: 

Cores da Mata: Artesã transforma resíduos da floresta em biojoias e conquista comércio exterior

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