Driblando uma rotina frenética, Sueli Rodrigues Batista encontrou na fotografia não apenas autonomia financeira, mas também tempo de qualidade com a família e um crescimento pessoal que só o empreendedorismo pôde proporcionar.
Hoje, reconhecida como uma das principais referências na cobertura fotográfica de futebol, ela lembra que foi preciso coragem para escolher esse caminho. Sua trajetória profissional segue sendo construída enquanto concilia outras responsabilidades; o papel de esposa, mãe e sua atuação na igreja onde congrega.
Um dos motivos que levaram Sueli a buscar mais autonomia sobre o próprio tempo foi o cuidado com a filha, Helena de Oliveira, de 10 anos, diagnosticada com autismo. Antes disso, ela trabalhou por dez anos em uma empresa de iluminação pública. Com o diagnóstico, Sueli passou a precisar de mais disponibilidade para acompanhar a menina nas terapias, o que reforçou a percepção de que precisava encontrar uma atividade que oferecesse a liberdade e a flexibilidade que a família demandava.
Ainda enquanto trabalhava sob o regime da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), ela deu os primeiros passos na fotografia social. Buscou formação com profissionais renomados, como Marcos Vicentti, e também realizou cursos no Instituto Federal do Acre (Ifac). Além disso, recebeu incentivo e apoio de colegas da área, entre eles Daniel Cruz e Leandro Frota.

No campo, Sueli fotografa, edita e disponibiliza fotos na plataforma. Foto: Clemerson Ribeiro
“Eles me ajudaram muito. O Leandro, inclusive, muitas vezes saiu de casa, até em dias chuvosos, para ir até a Universidade Federal do Acre (Ufac), onde eu fotografava, só para me ajudar a configurar a câmera”, relembra, destacando o papel do amigo no início de sua jornada na fotografia.
Entre trabalhos esporádicos e a rotina no escritório, ela foi ganhando espaço na fotografia até conhecer a plataforma Foco Radical, considerada a maior plataforma de fotografia e vídeos esportivos do Brasil. Criada por Christian Mendes, a ferramenta conecta fotógrafos a atletas para a venda de registros de eventos como corridas e maratonas.
“O Diego Gurgel, que é um fotógrafo muito conhecido, começou a comentar sobre a plataforma. Ele explicava que a gente ia até o evento, fazia as fotos e depois as pessoas podiam comprá-las diretamente no site”, relembra.
Na rotina corrida do dia a dia, ela tentava conciliar o trabalho com outras atividades e, aos poucos, passou a enxergar na fotografia uma forma de organizar melhor o próprio tempo.
“Eu sempre priorizava as terapias da minha filha, mas acabava me atrasando cerca de duas horas nesses dias, porque a empresa não permitia redução de jornada. Quando saí do emprego e decidi me dedicar à fotografia, comecei a usar a plataforma e lembro de ter pensado por que não tinha descoberto isso antes. Agora sou eu quem faz o meu próprio horário”, conta.
A partir daí, ela passou a encaixar as coberturas de eventos nos horários em que não estava acompanhando a filha e deixou para trás as amarras de uma rotina rígida. São muitas Suelis em uma só, e, por isso, ela enxerga esse novo caminho como uma forma de libertação. “Sou mãe, esposa e obreira na casa do Senhor. Hoje, eu consigo ser todas elas”, afirma.

Assim como em outras profissões reconhecidas como majoritariamente masculinas, a fotógrafa conta que já enfrentou alguns preconceitos. Foto: Clemerson Ribeiro
Referência no esporte
Aos poucos, Sueli foi se especializando na cobertura de jogos de futebol no estado. Hoje, é credenciada pela Associação Brasileira de Cronistas Esportivos (Abrace) e autorizada a fotografar em qualquer estádio do país, inclusive acompanhando clubes em viagens para competições.
“Alguns clubes fecharam as portas para mim; outros até permitiram meu acesso, mas impuseram restrições simplesmente por eu ser mulher. Houve situações em que disseram que eu não poderia acompanhar a equipe porque havia homens no elenco e isso ‘poderia causar problemas’. Foi uma barreira difícil. Por outro lado, também encontrei clubes que me acolheram e abriram espaço para o meu trabalho”, destacou.
Ela conta que já viajou mais de seis vezes com a mesma equipe e sempre foi tratada com respeito. “O mesmo respeito que recebo hoje. Inclusive, fui convidada novamente para acompanhá-los agora. É uma rotina intensa, mas sigo firme. Vim de uma realidade difícil e a minha vontade sempre foi vencer.”
Há mais de quatro anos, ela se dedica à fotografia e diz que, financeiramente, nunca imaginou ganhar o que ganha hoje.
“Nunca imaginei que alguma empresa fosse me pagar o que eu ganho hoje. Agora consigo oferecer uma condição melhor para a minha família. É fruto do meu esforço e do nosso trabalho conjunto. Foi assim que conseguimos fazer nossas primeiras viagens de férias, levando todo mundo. Hoje, posso dizer que conquistei mais qualidade de vida.”

Aos poucos, Sueli foi se especializando na cobertura de jogos de futebol no estado. Foto: Clemerson Ribeiro
Posicionamento
Assim como em outras profissões reconhecidas como majoritariamente masculinas, a fotógrafa conta que já enfrentou alguns preconceitos, mas sempre foi acolhida pela maior parte dos colegas de profissão.
“Então, querendo ou não, como em qualquer outra área, sempre existe alguma pessoa, algum colega, que às vezes tenta te menosprezar. Também tem a questão do preconceito, do machismo, que aparece de formas sutis ou diretas, sempre tentando te diminuir, te reduzir, se colocar como superior. Já passei por situações simples, como um colega dizer que eu era amadora, que eu precisava fazer curso de fotografia para poder fotografar, que eu não sabia fotografar — isso ali mesmo, na beira do campo”, recorda.
Pessoas que presenciaram a cena, segundo Sueli, a apoiaram, inclusive a federação da qual faz parte e um advogado, já que o episódio acabou resultando até em ameaças. A situação mexeu com ela, mas não a fez desistir. Afinal, já são dez anos dedicados à arte da fotografia, e a resposta que ela dá a quem não a conhece é simples: ‘Todas essas críticas eu tento responder com o meu trabalho. Às vezes tiro algumas fotos e as pessoas perguntam: ‘Prestou?’ E, quando veem o resultado final, sempre me mandam mensagem dizendo como o trabalho ficou incrível.’

Ter mais tempo com a filha incentivou Sueli a apostar na fotografia. Foto: Arquivo pessoal
Nunca desistir
Dedicada e responsável por alguns dos principais registros fotográficos do futebol acreano, ela revela que sua missão é registrar, e que ama estar nos bastidores. “Costumo dizer que a fotografia é uma terapia para mim. Amo fazer esses registros que se tornam parte da história. Amo a fotografia e o resultado que ela me dá’, reforça.
Para quem sonha em apostar em um nicho específico, a mensagem de Sueli é direta: persistência. Ela relembra a guinada que deu na própria vida ao mudar de profissão e apostar no que realmente gostava de fazer. Cada conquista foi celebrada, desde a compra de equipamentos mais modernos até a possibilidade de ter mais tempo com a família.
“Nunca desista. Você vai encontrar dificuldades, mas o segredo é persistir sempre, com honestidade. Seu caráter vale muito. Então, nunca coloque isso em jogo, nunca tente derrubar ninguém ou se promover às custas de outra pessoa. Seja você, com o seu caráter, e nunca deixe de estudar. Procure sempre fazer o certo e se especializar.”

Foco Radical garante que diversos profissionais disponibilizam a venda de fotos. Foto: Arquivo pessoal
Acesso democrático à fotografia
O fotógrafo Diego Gurgel, operador do Foco Radical no Acre, soma quase 20 anos de experiência na imprensa. Ele entrou para o Foco Radical em 2022, inicialmente como uma forma de complementar a renda aos fins de semana, fotografando eventos esportivos.
Segundo ele, o modelo de trabalho da plataforma funciona na lógica de “inversão de risco”, quando o fotógrafo produz as imagens e depois as disponibiliza para venda por unidade, ao invés de depender da contratação direta pelos organizadores.
“A gente vende as fotos individualmente e, com o grande volume de atletas por evento, consegue fazer uma renda eventual. O que me atrai nesse modelo é a liberdade, porque você escolhe quando quer trabalhar, sem precisar abrir mão de momentos com a família, como acontecia quando eu fotografava casamentos e formaturas, que eram muito mais extenuantes e de grande responsabilidade”, explica.
Ele compara o sistema a um marketplace, ou seja, várias fotos de diferentes fotógrafos ficam disponíveis, e o atleta escolhe quais deseja comprar. “É democrático. A pessoa pode gastar R$ 11,90 em uma foto ou R$ 200 em todas as que gostar. Isso permite que qualquer atleta tenha acesso a uma imagem profissional do seu treino ou competição.”
O Foco Radical, sediado em Florianópolis, funciona como uma plataforma privada que reúne fotógrafos autônomos de todo o país. Não é necessário ser profissional para ingressar, o que, segundo Diego, abriu portas para que muitas pessoas descobrissem a fotografia como carreira.
Ele cita o exemplo de Sueli, hoje referência na fotografia esportiva no Acre. “Ela me procurou para entender como funcionava a plataforma e, a partir daí, trilhou o próprio caminho. Se especializou em fotografia de futebol, investiu em equipamentos, viaja com times locais e hoje vive exclusivamente disso”, completa.
No Acre, Diego é responsável por organizar eventos, fazer a curadoria e intermediar a comunicação entre os fotógrafos e a plataforma. “Não existe hierarquia. Meu papel é facilitar, resolver problemas técnicos e agilizar o contato com o suporte.”
Atualmente, o Foco Radical conta com mais de 45 fotógrafos no estado, a maioria em Rio Branco, mas também com atuação em Cruzeiro do Sul, Senador Guiomard, Sena Madureira e Brasileia.

Para a fotógrafa, qualquer pessoa que queira investir em um sonho tem que persistir. Foto: Clemerson Ribeiro
A força delas
Para incentivar cada vez mais mulheres a empreender, o Programa Plural, do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), é uma estratégia nacional de diversidade e inclusão que destina recursos para impulsionar o empreendedorismo feminino, o afroempreendedorismo e outros grupos sub-representados.
A iniciativa busca promover equidade e fortalecer negócios de diferentes perfis sociais e econômicos por meio de capacitação, crédito e ações de apoio. Para Sueli, esse é o próximo passo: conectar-se a uma rede que fortaleça ainda mais o seu negócio.
A analista do Sebrae, Kethleen Diniz, explica que o incentivo ao empreendedorismo feminino no Acre começa já no primeiro contato da mulher com a instituição.
Segundo ela, o Sebrae oferece apoio desde a fase inicial, mesmo antes da formalização do negócio, com capacitações, consultorias especializadas, acesso ao mercado e conexão com redes de outras empreendedoras.
“A ideia não é oferecer um apoio distante ou apenas teórico, mas um apoio real, capaz de transformar uma ideia em um negócio”, afirma.
Ela destaca que muitas mulheres chegam desacreditadas ou inseguras sobre a própria capacidade de empreender. Nesse ponto, o Sebrae atua para mostrar que o conhecimento pode ser aprendido. “Ninguém precisa nascer pronto para empreender. Uma boa ideia pode se tornar um negócio extraordinário. O primeiro passo é acreditar”, reforça.

Através da fotografia, Sueli conta que realizou sonhos da família, como a primeira viagem. Foto: Arquivo pessoal
Rede de apoio e inspiração
Kethleen explica que dentro do Programa Plural, está o Sebrae Delas, iniciativa totalmente direcionada ao empreendedorismo feminino. O programa trabalha aspectos como liderança, gestão, autoconfiança e posicionamento, além de promover conexões entre mulheres que estão na mesma jornada.
“O Sebrae Delas ajuda a empreendedora a descobrir sua força e usar isso a favor do negócio. Trabalhamos sentimentos comuns no início da trajetória, como insegurança e medo, porque o negócio cresce quando a mulher cresce junto com ele”, explica.
Ela ressalta que o programa não trata a mulher como “mais um negócio”, mas como um negócio de mulheres, valorizando o diferencial que o olhar feminino traz ao ambiente corporativo.
Sobre o impacto do empreendedorismo na vida das mulheres, Kethleen afirma que iniciar um negócio pode transformar completamente a realidade de uma família.
“Muitas começam vendendo algo simples, aquilo que sabem fazer. E logo percebem o crescimento. Grandes empreendedoras que conhecemos começaram pequeno e foram crescendo de forma consistente”, diz.
A analista também destaca o efeito social da independência financeira feminina.
“Quando a mulher conquista protagonismo financeiro, ela passa a participar mais das decisões da família, ganha voz, ocupa mais espaços e se torna referência para outras mulheres. É um efeito em cadeia: uma mulher que cresce puxa outras para crescerem junto”, finaliza.
