Samu recebe mil trotes em 6 meses e alerta para risco a atendimentos reais

Central de Regulação contabilizou 40 mil chamadas no primeiro semestre

Por Fhagner Soares, ContilNet 16/06/2026 às 12:43
Foto: Gleilson Miranda/Relatos falsos e convincentes mobilizam ambulâncias de suporte avançado para ocorrências inexistentes

O Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) do Acre enfrenta uma pressão sobressalente em suas linhas operacionais provocada por chamadas fraudulentas. Dados consolidados pela Central de Regulação de Urgências apontam que, entre janeiro e junho de 2026, o canal de emergência 192 recebeu mais de 40 mil ligações em todo o estado. Desse total, cerca de mil chamadas foram formalmente identificadas e catalogadas como trotes.

A prática compromete a logística de socorro médico de urgência. De acordo com a administração do serviço, o acionamento indevido desloca viaturas, equipes de paramédicos e recursos materiais para endereços falsos. A dispersão da frota reduz de forma direta a capacidade de resposta imediata do Samu para o atendimento de pacientes reais em estado crítico, como vítimas de infartos, acidentes de trânsito ou acidentes vasculares cerebrais (AVCs).

A complexidade das falsas comunicações de crime ou acidente tem se tornado um obstáculo para os triadores. O médico regulador do Samu, Junior Pereira, ressalta que o tom de veracidade empregado pelos autores das ligações induz a central ao erro no momento de classificar a gravidade da ocorrência.

“Recebemos chamadas com relatos muito convincentes, o que leva ao envio dos nossos melhores recursos para locais onde não há nenhuma ocorrência. Enquanto isso, uma pessoa em situação real de emergência pode ficar aguardando atendimento”, explica o médico regulador.

O envio de ambulâncias de suporte avançado (UTIs móveis) para locais sem vítimas gera prejuízo ao erário e configura infração prevista no Código Penal Brasileiro. O ato de provocar a ação de autoridade pública, comunicando-lhe a ocorrência de crime ou de bicheira que sabe não se ter verificado, pode acarretar sanções penais aos responsáveis.

O monitoramento estatístico do Samu indica a necessidade de atenção redobrada com o público infantojuvenil diante da proximidade do recesso escolar de meio de ano. Historicamente, o volume de ligações falsas costuma registrar picos de crescimento durante as férias de julho. A coordenação do Samu faz um apelo para que pais e responsáveis orientem os jovens sobre as consequências de utilizar o telefone de emergência como forma de entretenimento.

Como contraofensiva tecnológica, a Central de Regulação utiliza rastreamento informatizado e identificadores de chamadas vinculados ao sistema de telefonia. O histórico de ligações armazena os números de origem de todos os contatos direcionados ao 192. Os dados de terminais fixos ou móveis que realizam chamadas indevidas de forma reiterada podem ser compilados e encaminhados às autoridades policiais para a abertura de investigações formais.

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