Em meio à floresta, um campo banhado pelo pôr do sol na Reserva Extrativista Cazumbá-Iracema, em Sena Madureira, se transforma no palco de um verdadeiro espetáculo esportivo. É ali que o time feminino da comunidade, protagonista nas competições estaduais, acumula cinco vitórias na principal disputa do município, a Copa da Floresta.
São duas décadas de histórias, com gerações que inspiram outras gerações a representar a comunidade em passes firmes, dribles precisos e, muitas vezes, pés descalços que revelam pura habilidade.
Rayane Maia, 18 anos, carrega no olhar a mistura de orgulho e responsabilidade que acompanha quem veste a camisa do time feminino do Cazumbá. Ela conta que entrou para a equipe em 2022 e, desde então, sente que faz parte de algo maior do que apenas um jogo.
“É um orgulho enorme fazer parte desse grupo, mas principalmente ver o legado que as meninas construíram antes de mim”, diz.

Rayane conta que ama futebol e tem orgulho de representar sua comunidade. Foto: Raylanderson Frota
Ela lembra que o time já chegou a sete finais da Copa da Floresta, a principal competição do município. “Quando alguém fala ‘as meninas do Cazumbá’, todo mundo já sabe da nossa história”, afirma, mesmo reconhecendo que as dificuldades no futebol feminino ainda são muitas.
Rayane não hesita ao falar sobre o preconceito, inclusive, também recorda a frustração do ano passado, quando o prêmio destinado ao feminino sofreu uma redução brusca.
“A gente enfrenta discriminação, sim. Ainda existe muito preconceito, mas seguimos lutando, porque futebol é amor. Quando entro em campo, esqueço tudo que está lá fora e o time virou uma família. Cortaram mais da metade do valor que estávamos acostumadas”, relata.
Enquanto isso, o prêmio do masculino permaneceu maior, apesar de ambos disputarem o mesmo número de partidas e enfrentarem os mesmos deslocamentos. “A gente acredita que deveria haver mais igualdade.”
Mesmo assim, Rayane segue firme. Carregar o legado do time feminino da Cazumbá, afirma, é uma responsabilidade que ela abraça com seriedade. “Quando olho para trás e vejo tudo o que o time já conquistou, sinto que precisamos dar o máximo para manter essa história viva e nunca deixar essa paixão acabar.”

Fim de tarde é marcado por futebol na Reserva Extrativista Cazumbá. Foto: Raylanderson Frota
Legado
Gleiciane dos Santos Silva, 27 anos, fala do futebol como quem revisita a própria infância. Ela calcula que está no time há cerca de 15 anos, tempo suficiente para ver gerações inteiras passarem pelo campo da comunidade.
“Comecei ainda criança, vendo as meninas mais velhas jogarem”, lembra. Aos poucos, foi se aproximando, interagindo, até que, quando percebeu, já estava em campo. “E nunca mais parei.”
Hoje, ela é uma das jogadoras mais experientes do Cazumbá, equipe que se tornou presença constante nas decisões do campeonato de Sena Madureira, o maior da região. “Nosso time é muito respeitado. Já chegamos cinco vezes seguidas à final, fomos tricampeãs e vice nas outras edições”, conta. Quando o Cazumbá chega à final, diz ela, o estádio enche. “É muito gratificante ver tanta gente torcendo pela gente.”
Gleiciane reconhece que o caminho não é simples. “Existe sim discriminação no futebol feminino. Ainda tem muito preconceito, mas a gente segue lutando.”
Para ela, entrar em campo é atravessar uma fronteira. “Quando entro em campo, esqueço tudo. Vou com o pensamento de mostrar que nós, mulheres, também conseguimos chegar onde os homens chegam.”
Com a experiência acumulada, ela sente que carrega outra missão, que é incentivar as mais novas. “Sempre digo para elas: vocês são o nosso futuro”, afirma.

Gleiciane conta como é a rotina de treinos e destaca orgulho em fazer parte do time. Foto: Raylandersom
Ela sabe que o tempo passa, que as veteranas vão se despedindo aos poucos, e que o legado precisa continuar. “Queremos que elas conquistem tudo o que já conquistamos, e mais.”
Representar o Cazumbá, diz Gleiciane, é carregar o nome da comunidade, a história das mulheres que vieram antes e o orgulho de manter viva uma tradição que nasceu na floresta. “Toda vez que entro em campo, penso no nome da nossa comunidade e no orgulho que é levar essa camisa.”
“O nosso time existe há mais de 20 anos. Participamos de todas as competições que acontecem na cidade, inclusive de um torneio muito grande que envolve todo o interior de Sena Madureira. Antes era organizado pelo professor Armando; hoje é a prefeitura que coordena. Todos os anos nós participamos. Só em uma ocasião ficamos na semifinal — foi a primeira vez. Depois disso, chegamos à final sete vezes consecutivas.”

Jair da Silva destaca que o time feminino da Cazumbá precisou lutar pelo seu espaço. Foto: Raylanderson Frota
Tradição e protagonismo feminino
Técnico da equipe há algumas décadas, Jair da Silva lembra que o grupo já ultrapassa os 20 anos de existência e que, desde o início, participa de todas as competições da cidade.
“Inclusive de um torneio muito grande que envolve todo o interior de Sena Madureira. Só em uma ocasião ficamos na semifinal, foi a primeira vez. Depois disso, chegamos à final sete vezes consecutivas. Já fomos campeãs três vezes e vice-campeãs quatro vezes.”
A rotina de treinos é puxada. Terças e quintas são dias certos, e quando o fim de semana permite, o domingo também vira dia de bola. Silva observa o empenho das atletas com admiração. “O que mais me orgulha nessas meninas é que, no Acre, é muito difícil um time chegar sete vezes seguidas a uma final. E nós estamos indo para a oitava.”
Ele fala do campeonato como quem descreve uma festa popular. “É o maior evento esportivo que eu conheço em Sena Madureira, reúne muita gente, e elas estão sempre lá. O mérito é todo delas.”
O técnico reconhece que o futebol feminino ainda enfrenta barreiras, mas que são superadas com determinação e técnica das meninas.

Jovens se inspiram em jogadoras que já fazem história na comunidade. Foto: Raylanderson Frota
“Ele aceitou, e foi um sucesso. A partir daí, a história começou Com 8, 10 anos, as meninas já estão jogando”, diz Jair.
A comunidade inteira abraça o time. Nos dias de jogo, o campo vira ponto de encontro, e a torcida se espalha pela beira do gramado. Para ele, o esporte cumpre um papel que vai além da competição.
“O esporte tira a pessoa de muita coisa ruim.” Por isso, tudo é feito de forma voluntária, com a ajuda de quem pode contribuir. “É muito gratificante trabalhar com elas.”



