ViolĂȘncia contra a mulher: Acre registra pelo menos trĂȘs casos por dia, diz pesquisa

Por Everton Damasceno, ContilNet 17/07/2021 Ă s 08:20

A pandemia do coronavĂ­rus, instalada no paĂ­s desde março de 2020, nĂŁo trouxe apenas o risco da infecção que caminha para a morte de 540 mil brasileiros em mais de um ano de convivĂȘncia com a doença. AlĂ©m da doença em si, o coronavĂ­rus trouxe consigo tambĂ©m uma sĂ©rie de outros males: desemprego, instabilidade financeira, obrigatoriedade das famĂ­lias passarem mais tempo juntas, em casa e, com isso, o aumento de casos de violĂȘncia contra a mulher, inclusive com o registro de mortes, o chamado crime de feminicĂ­dio.

É neste sentido que a pandemias tambĂ©m trouxe um problema tĂŁo grave quanto o prĂłprio vĂ­rus: a violĂȘncia contra a mulher, por questĂ”es de gĂȘnero. No Acre, estado com o maior Ă­ndice de registros de violĂȘncia contra a mulher e de feminicĂ­dio, chegaram a sete mortes por cada grupo de 100 mil, o que Ă© considerado muito acima da mĂ©dia nacional. Em sete meses de 2021, por exemplo, foram lavrados 540 procedimentos de casos envolvendo crimes contra mulheres. O total de casos (540) comparados com o total de dias dos setes meses, 210 dias, informa um total de ocorrĂȘncias de mais de trĂȘs casos por dia.

É o que mostram nĂșmeros de uma pesquisa realizada pelo Ipec (InteligĂȘncia em Pesquisa e Consultoria), uma empresa privada brasileira de pesquisas de mercado, opiniĂŁo e polĂ­tica, com sede em SĂŁo Paulo, fundada em fevereiro de 2021 por executivos oriundos do antigo Ibope logo apĂłs o encerramento das atividades deste Instituto. Dentre seus sĂłcios-fundadores estĂĄ Carlos Augusto Montenegro, antigo presidente do Ibope, e, alĂ©m de uma primeira pesquisa na ĂĄrea polĂ­tica sobre a eleição presidencial brasileira de 2022, o Ipec pesquisou a violĂȘncia contra a mulher no paĂ­s, principalmente apĂłs a pandemia.

Os nĂșmeros sĂŁo horrorosos e revelaram que 15% das brasileiras com 16 anos ou mais relataram ter experimentado algum tipo de violĂȘncia psicolĂłgica, fĂ­sica ou sexual perpetrada por parentes ou companheiro/ex-companheiro Ă­ntimo durante a pandemia. Isso equivale a 13,4 milhĂ”es de brasileiras. Significa dizer, com base nos nĂșmeros, que, a cada minuto do Ășltimo ano, 25 mulheres foram ofendidas, agredidas fĂ­sica e/ou sexualmente ou ameaçadas no Brasil.

O Acre, diminuto em uma população estimada em 1 milhĂŁo de pessoas, participa dos nĂșmeros, sĂł com levantamentos de procedimentos instaurados na Delegacia Especializada em Apoio Ă  Mulher (Deam), mostram que, em menos de sete meses do ano de 2021, foram registrados 540 ocorrĂȘncias de casos de violĂȘncia contra a mulher. Isso, sem levar em conta que, em 2020, o Acre foi mais uma vez o estado mais violento para o pĂșblico feminino. Os nĂșmeros fizeram com que a taxa de homicĂ­dios dolosos de mulheres do Acre seja a maior do paĂ­s, com sete mortes a cada 100 mil mulheres. Em todo o paĂ­s, em 2020, inĂ­cio da pandemia, houve uma leve redução de crimes contra mulheres em relação ao ano de 2018, que registrou taxas recordes. Mesmo assim, os Ășltimos nĂșmeros aferidos ainda sĂŁo assustadores: 230.160 mulheres brasileiras denunciaram um caso de violĂȘncia domĂ©stica em 26 unidades da federação, sendo o CearĂĄ o Ășnico estado que nĂŁo informa os nĂșmeros.

Para chegar a este nĂșmero, o Ipec entrevistou 2002 pessoas no perĂ­odo de 19 a 23 de fevereiro, que responderam perguntas sobre saĂșde, alimentação, emprego, atividades domĂ©sticas e violĂȘncia no perĂ­odo da pandemia. AlĂ©m dos elevados nĂșmeros de violĂȘncia, a pesquisa mostra ainda que a pandemia alterou mais a rotina das mulheres comparativamente Ă  dos homens, e que elas tiveram sua saĂșde mental mais impactada.

O levantamento mostra que 6% das mulheres brasileiras relataram ter sofrido agressĂŁo fĂ­sica por parte de seu namorado, companheiro ou ex, o que equivale a 5,3 milhĂ”es de mulheres de 16 anos ou mais. Essa vulnerabilidade se torna ainda mais acentuada quando verificamos que o percentual Ă© maior entre mulheres de 35 a 44 anos (8%), pretas e pardas (7%) e com ensino fundamental (11%). Os nĂșmeros sĂŁo compatĂ­veis com o perfil das vĂ­timas de feminicĂ­dio no paĂ­s, que atinge majoritariamente mulheres entre 30 e 44 anos (41,4% das vĂ­timas) e com baixa escolaridade, conforme dados do FĂłrum Brasileiro de Segurança PĂșblica.

Os nĂșmeros de assĂ©dio, por sua vez, sĂŁo igualmente preocupantes. Cerca de 3% das mulheres brasileiras relatou ter vivenciado assĂ©dio sexual por parte de parente, companheiro ou ex-companheiro, percentual que chega a 5% entre as mulheres de 16 a 24 anos.

Ameaças tambĂ©m foram uma constante na vida de muitas mulheres durante a pandemia. A pesquisa Ipec indicou que 3% das entrevistadas foram ameaçadas com arma de fogo ou faca, indicando um agravamento da violĂȘncia fĂ­sica que pode, em muitos casos, se desdobrar em feminicĂ­dio. Esse dado se torna especialmente preocupante com o atual desmonte da legislação de controle de armas, em que o agressor poderĂĄ fabricar munição em casa e adquirir atĂ© seis armas.

A pesquisa Ipec mostra que 33% das entrevistadas passaram a ter alteraçÔes no sono no Ășltimo ano, 29% começaram a sofrer sinais ou sintomas de ansiedade e 30% disseram ter mudanças repentinas de humor e/ou irritabilidade. AlĂ©m dessas alteraçÔes, 13% relataram aumento do consumo de ĂĄlcool, e 19%, no uso de medicamentos. Entre as mulheres, quase 65% concordam totalmente ou em parte que se sentem sobrecarregadas com as tarefas do dia a dia.

Esses dados se somam a uma inserção cada vez mais precĂĄria da mulher no mercado de trabalho, comprometendo sua autonomia econĂŽmica e colocando-as em situação de ainda maior vulnerabilidade. Reportagem da Folha de S.Paulo mostrou que o percentual de mulheres brasileiras que trabalhavam ou buscavam trabalho no segundo trimestre de 2020 caiu ao mesmo nĂ­vel dos anos 1980 (45,8%). Com a paralisação de escolas e creches, e pressionadas pelas demandas domĂ©sticas e a crise econĂŽmica, as dificuldades para se manter no mercado de trabalho se multiplicaram. Retrocedemos trĂȘs dĂ©cadas, o que nĂŁo foi igualmente verificado entre os homens. Na pesquisa divulgada pelo IPEC, quase 30% das mulheres concorda totalmente ou em parte que, durante a pandemia, precisou abrir mĂŁo do trabalho para cuidar da casa e da famĂ­lia. A desigualdade de gĂȘnero impera no paĂ­s em que o presidente da RepĂșblica se refere Ă  filha mulher como “uma fraquejada”.

Esse caldeirĂŁo mistura a tensĂŁo inerente ao momento de crise sanitĂĄria, o aprofundamento das desigualdades e o agravamento da violĂȘncia em suas mĂșltiplas formas. Demanda, por isso mesmo, o fortalecimento de açÔes de acesso Ă  justiça e acolhimento das mulheres em situação de violĂȘncia, sem renunciar ao necessĂĄrio esforço em prevenção, o que sĂł Ă© possĂ­vel com investimento em recursos humanos e financeiros.

É preciso reconhecer que, ao longo desse um ano de pandemia, algumas medidas importantes foram tomadas para fortalecer a atenção Ă s mulheres vĂ­timas de violĂȘncia. A Lei 14.022/20, sancionada em julho de 2020, regulamenta o registro de boletins de ocorrĂȘncia online e por telefone de violĂȘncia domĂ©stica e intrafamiliar. AlĂ©m disso, buscou priorizar os atendimentos Ă s vĂ­timas, tornando-os mais ĂĄgeis, e definiu a prorrogação automĂĄtica das medidas protetivas de urgĂȘncia jĂĄ existentes enquanto houver estado de emergĂȘncia em territĂłrio nacional.

A pesquisa do Ipec reforça o retrato das desigualdades de gĂȘnero no paĂ­s. A pandemia e a necessidade de isolamento social tĂȘm se mostrado fatores agravantes de um cenĂĄrio que jĂĄ era trĂĄgico. As desigualdades se aprofundam no mercado de trabalho, no acesso Ă  saĂșde e no Ăąmbito domĂ©stico. A violĂȘncia contra mulheres Ă©, ao mesmo tempo, uma das consequĂȘncias de uma estrutura patriarcal, mas tambĂ©m um de seus pilares fundamentais, num ciclo perverso que se retroalimenta.

ConteĂșdo Original / Fonte: TIÃO MAIA, PARA O CONTILNET

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