116 anos de Brasiléia: o potencial continua enorme, mas falta acelerar o desenvolvimento

As grandes enchentes do Rio Acre deixaram marcas profundas na memória da população

Por Wania Pinheiro, ContilNet 03/07/2026 às 07:23
As grandes enchentes do Rio Acre deixaram marcas profundas na memória da população | Foto: Eldson Júnior/Rede Amazônica

Poucas cidades do Acre carregam uma história tão marcada pela coragem, pela reconstrução e pela capacidade de se reinventar quanto Brasiléia. Localizado na região do Alto Acre e separada por apenas 150 metros da cidade boliviana de Cobija, o município completa 116 anos nesta quinta-feira (3) consolidado como um dos principais centros econômicos da fronteira entre Brasil e Bolívia.

Antes de se tornar Brasiléia, a cidade recebeu vários nomes ao longo de sua história. Foi conhecida como Seringal Carmem, Alto Acre, Vila Brasília e Brasília, até adotar definitivamente o nome atual em 1943. Ao contrário do que muitos acreditam, a mudança não ocorreu por causa da criação da capital federal, que só aconteceria 17 anos depois. O nome foi alterado para evitar confusão com outra cidade brasileira que já se chamava Brasília.

A história de Brasiléia começou muito antes da fundação oficial. Até o final do século XIX, a região era habitada pelos povos indígenas Catianas e Maitenecas. Com o início do Primeiro Ciclo da Borracha, a partir de 1879, centenas de nordestinos chegaram atraídos pela promessa de riqueza proporcionada pela extração do látex. Muitos sonhavam em juntar dinheiro e retornar às suas terras de origem. Grande parte, porém, acabou construindo definitivamente sua vida na floresta amazônica.

116 anos de Brasiléia: o potencial continua enorme, mas falta acelerar o desenvolvimento

Fundada em 3 de julho de 1910, Brasiléia surgiu durante o ciclo da borracha | Foto: Reprodução

Durante décadas, a região era formada por importantes seringais, entre eles Carmem, Nazaré, Vermont, Canindé e Baturité. Somente em 3 de julho de 1910 foi fundada a então Brasília, instalada em uma área do Seringal Carmem, em frente à cidade de Cobija.

A criação da vila teve um objetivo bastante específico: sediar o 3º Termo Judiciário da Comarca de Xapuri. Até então, documentos da Justiça eram transportados em jamaxis — grandes paneiros carregados nas costas —, uma situação que simbolizava as dificuldades enfrentadas naquela época. Seringalistas e seringueiros participaram diretamente da construção da nova localidade, contribuindo com recursos financeiros e mão de obra.

Inicialmente distrito do antigo Departamento do Alto Acre, a localidade foi incorporada ao município de Xapuri em 1912. Apenas em dezembro de 1938 conquistou sua emancipação política, tornando-se oficialmente município.

Ao longo de seus 116 anos, Brasiléia enfrentou inúmeros desafios. As grandes enchentes do Rio Acre deixaram marcas profundas na memória da população, destruíram casas, comércios e parte da infraestrutura urbana. Em cada tragédia, no entanto, a cidade encontrou forças para recomeçar, reconstruindo bairros, recuperando sua economia e fortalecendo ainda mais o espírito resiliente de seu povo.

Uma das gestões que mais se destacou foi a da ex-prefeita Fernanda Hassem, que ficou marcada por uma série de investimentos que impulsionaram diferentes setores de Brasiléia, tanto na área urbana quanto na zona rural. Em um dos períodos mais difíceis da história do município, ela enfrentou sucessivas enchentes que deixaram a cidade praticamente devastada em um curto espaço de tempo. Mesmo diante desse cenário, conduziu um amplo processo de reconstrução, recuperando infraestrutura, restabelecendo serviços públicos e devolvendo à população as condições para que o município voltasse a crescer. A capacidade de enfrentar as adversidades e reconstruir Brasiléia tornou-se uma das principais marcas de sua administração.

Hoje, a localização geográfica faz de Brasiléia uma das cidades mais estratégicas do Acre. A intensa circulação de pessoas e mercadorias entre Brasil e Bolívia movimenta diariamente o comércio, o setor de serviços e diversas atividades econômicas.

Nos últimos anos, um novo fenômeno transformou ainda mais a economia local. O grande número de brasileiros que cursam Medicina em universidades de Cobija impulsionou fortemente o mercado imobiliário de Brasiléia. Muitos investidores passaram a construir apartamentos e residenciais destinados aos estudantes, que preferem morar do lado brasileiro e atravessar diariamente a fronteira para frequentar as aulas na Bolívia, onde os custos da graduação são significativamente menores do que os praticados pelas instituições particulares brasileiras.

Esse movimento aqueceu a construção civil, ampliou a oferta de imóveis para locação e fortaleceu diversos setores da economia, como alimentação, transporte, comércio e prestação de serviços.

Com uma população formada por diferentes culturas e influências, Brasiléia tornou-se um verdadeiro ponto de encontro entre dois países. A convivência diária entre brasileiros e bolivianos faz da cidade um espaço multicultural, onde a fronteira representa muito mais integração do que separação.

Ao completar 116 anos, Brasiléia celebra uma trajetória construída com trabalho, perseverança e capacidade de superar adversidades. De antigo seringal a importante polo econômico do Alto Acre, o município segue escrevendo sua história como uma das cidades mais dinâmicas e estratégicas da Amazônia acreana.

Esta matéria foi escrita com informações do G1 Acre.

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