A história de Edmirk Herculano e da rede Compre de Uma Mamãe é, antes de tudo, uma história de resistência. O que começou em 2014 como um grupo de WhatsApp chamado “Mama Business”, criado para trocar dicas sobre como abrir um negócio no Instagram, transformou-se em uma rede que ajuda mais de 1.500 mulheres no Acre.
Neste domingo, 10 de maio, data em que é celebrado o Dia das Mães, o ContilNet preparou uma série de reportagens. Assim como muitas outras mães, a engenheira agrônoma e influenciadora Edmirk também precisou se reinventar com a chegada da maternidade.
“O Compre de Uma Mamãe é a Rede de Empreendedorismo Materno do Acre criada em 2014 para fortalecer, incentivar e dar visibilidade às mulheres que, após se tornarem mães, na maioria das vezes, são expelidas do mercado de trabalho”, contou.
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Em maio, o Compre de Uma Mamãe completa 12 anos. Edmirk destaca que começou a empreender após o nascimento do primeiro filho.
“Após eu me tornar mãe, eu enxerguei uma oportunidade de negócio quando eu procurei um produto para o meu filho recém nascido, e cheguei a encontrar no Acre, paguei R$ 100 no produto, e eu pensei por que não vender aquilo”, disse.
Edmirk lembra que começou a venda com roupas infantis personalizadas.
“Hoje em dia a gente encontra em todas as esquinas, mas naquela época realmente não tinha, e quando eu montei a empresa foi tudo muito rápido. Eu procurei o produto no comecinho de fevereiro, quando não encontrei, no mesmo dia tive a ideia de montar a empresa, e no dia seguinte fiz contato com o fornecedor e fiquei aguardando os produtos chegarem. Ali eu já enxerguei uma outra oportunidade e já comecei a vender coisas também para as mães. Eram coisas de mesversário e tudo mais”, lembra.
A empreendedora conta que as mães procuraram pelas redes sociais.
“Foi bem naquele ‘boom’ dos grupos do Facebook, mas eu fui pro Instagram, que só quem tava no Instagram naquela época era eu e a Júlia, da ‘Quero Pra Mim’, que inclusive eu acho um super case de sucesso”, . Ela já deu palestras para gente e eu acho ela incrível. Eu via muitas mulheres no meu direct do Instagram mandando mensagem perguntando como que eu tinha montado a empresa. Foi quando criei um grupo de WhatsApp, que chamava ‘Mama Business’ e daí nasceu a rede. Nesse grupo a gente trocava muitas ideias e dúvidas”, conta.
Edmirk explica que identificou três perfis de mulheres dentro da rede:
“O primeiro é o das mães que começam a empreender após serem demitidas depois da gestação e veem no empreendedorismo uma única saída. Infelizmente a maioria são desligadas do mercado de trabalho em até nove meses após terem filhos, e aqui dentro da nossa rede, mais da metade das mulheres que começaram a empreender passaram exatamente por essa realidade.
Os dados apresentados por Edmirk são em âmbito nacional. “Infelizmente, mais de 50% das mulheres brasileiras são demitidas após a gestação, segundo a Fundação Getúlio Vargas”, disse.
“Dentro da rede nós temos esses três viés: as que foram expelidas e elas enxergam no empreendedores uma única saída, e começa a lembrar que sabia fazer um pudim, um bolo, uma unha. Começam a enxergar serviços e oportunidades”, disse.
O segundo grupo, onde Edmirk se encaixa, são das mães que enxergam oportunidade de negócios relacionado a primeira infância.
“Elas enxergam essa oportunidade porque começam a procurar produtos na gravidez, produtos para o bebê, e quando nasce, elas começam a empreender também ali nesse intervalo de tempo. Foi o que aconteceu comigo”, explicou.
“E a gente tem um terceiro viés, que são as mulheres que começam a empreender para ter flexibilidade de tempo. Ela desejou muito ser mãe. Ela quer ter flexibilidade de tempo, quer ficar mais tempo com o filho. Então ela larga o trabalho tradicional para empreender”, afirmou.
A empreendedora explica que a rede funciona para dar oportunidade, capacitar, formalizar e amparar essas mulheres que iniciam seus próprios negócios.
“O empreendedorismo feminino e o materno é algo muito solitário. Quando você tem esse ‘terceiro lugar’, que é até um termo americano que a gente sempre fala nos nossos encontros, esses nossos encontros é o nosso terceiro lugar para a gente se encontrar, para a gente ter esse contato físico realmente com o nosso cliente”, disse.
”Então as nossas exposições, eventos, capacitações, treinamentos e as viagens acontecem para que a gente tenha realmente esse momento de conexão com outras mulheres, com outras mães e, principalmente, com os nossos clientes nas exposições, porque a maioria dos negócios são online e não tem loja física. Então esse é um momento para sair solidão que é o empreendedorismo feminino e materno. Esse nosso terceiro lugar que são os nossos encontros”, continuou.
Atualmente, a rede conta com mais de 1.500 mães cadastradas. ”As ativas, que participam de eventos, a gente soma 40 mulheres por evento. É mais ou menos isso que a gente consegue levar, até porque os espaços são pequenos, e a gente faz essa curadoria”, conta.
‘Empreendedorismo salva vidas’
Edmirk é engenheira agrônoma, mas inicialmente decidiu deixar o trabalho em sua área para se dedicar ao empreendedorismo.
Ao relembrar o início dessa jornada, Edmirk afirma que ‘o empreendedorismo salva vidas’.
“É muito importante falar sobre a questão das mulheres que decidem conciliar carreira e maternidade. Atualmente eu me enquadro nesse quadro. Lá atrás eu me enquadrava em outro dado, mas depois que eu perdi minha empresa, que foi alagada, e hoje eu concilio a carreira com a maternidade”, disse.
“Eu acredito que o empreendedorismo transforma vidas. O empreendedorismo é fundamental para a independência das mulheres, principalmente financeira, para a independência emocional das mulheres. A gente trata muito essa questão da violência, porque muitas mulheres começam a empreender e são reprimidas por seus maridos”, disse.
”Então a gente tem todo esse trabalho também nessa questão, porque empreender é realmente libertador em todos os sentidos. O mais importante é que através do empreendedorismo a gente consegue realmente transformar a vida dessas mulheres, levar o sustento para dentro da casa delas. Isso é para mim é muito gratificante. Quando recebo um depoimento de uma mulher falando que em um evento ela conseguiu o dinheiro para o mês inteiro, é incrível”, continuou.
“O empreendedorismo nos ajuda a ocupar espaços, nos ajuda a nos tornarmos independentes, realizar nossos sonhos, gerar um impacto na economia. É uma ferramenta de empoderamento. Uma ponte para sua liberdade financeira. Eu sempre falo que o Compre de Uma Mamãe não é um grupo de mulheres que decidiram empreender após ser mãe, que decidiram conciliar a carreira maternidade, é uma causa.
‘Tive que me reinventar a minha vida inteira’
Assim como muitas outras mulheres, Edmirk também precisou se reinventar diversas vezes, antes e depois da maternidade.
Antes atuando como servidora pública, Edmirk agora concilia o empreendedorismo com uma outra área de trabalho.
“Antes de fundar o Compre de Uma Mamãe, eu era uma engenheira agrônoma que trabalhava como servidora pública. Eu tive que me reinventar na minha vida inteira durante muitas vezes. E agora, depois que eu perdi a minha empresa, eu tive que me reinventar de verdade. Porque eu não tô trabalhando na minha área. Eu me viro nos 30 durante o dia inteiro para poder trazer o sustento para casa. Eu já fui de tudo na vida.
“Mas eu empreendia desde criança. Eu vendia meus livros. Quando eu cheguei aqui em Rio Branco com 14 anos, eu vendia sabonete em estabelecimentos. Já fui muitos coisas e continuo sendo e me reinventando todos os dias”, concluiu.



