Uma nova plataforma de transparĂŞncia lançou luz sobre o volume de recursos movimentados por deputados federais de todo o paĂs por meio das emendas parlamentares. O site De Olho em VocĂŞ, lançado nesta semana, detalha quanto cada parlamentar destinou em emendas individuais em 2025, incluindo a modalidade conhecida como emendas Pix, que tem sido alvo de questionamentos por ĂłrgĂŁos de controle e pelo Supremo Tribunal Federal.

Levantamento de plataforma de transparência aponta concentração de recursos via transferências especiais e reacende debate sobre fiscalização e rastreabilidade das emendas parlamentares/Foto: Reprodução
No Acre, os números chamam atenção. Somados os valores destinados pelos deputados federais do estado apenas por meio das chamadas transferências especiais, o montante chega próximo de R$ 100 milhões em 2025. O valor pode ser ainda maior, já que a plataforma não contabiliza os dados do deputado federal Zé Adriano, do Progressistas, que assumiu o mandato neste ano no lugar de Gerlen Diniz, eleito prefeito de Sena Madureira. Como a posse é recente, as informações sobre suas emendas ainda não aparecem no sistema.
As emendas Pix foram criadas pela Emenda Constitucional 105, de 2019, e permitem que os recursos sejam transferidos diretamente da UniĂŁo para estados ou municĂpios, sem necessidade de convĂŞnio tradicional. O dinheiro passa a pertencer ao ente beneficiário, que define onde será aplicado, desde que respeite algumas restrições legais, como a proibição de uso para pagamento de pessoal ou quitação de dĂvidas e a destinação prioritária para investimentos.
De acordo com a plataforma, o ranking dos deputados acreanos em valores destinados por emendas Pix em 2025 ficou assim:
Antônia Lúcia, do Republicanos, com R$ 18,1 milhões
Roberto Duarte, do Republicanos, também com R$ 18,1 milhões
Socorro Neri, do Progressistas, com R$ 15,8 milhões
Zezinho Barbary, do Progressistas, com R$ 15,3 milhões
Coronel Ulysses, do União Brasil, com R$ 13,7 milhões
Eduardo Velloso, do União Brasil, com R$ 8,5 milhões
Meire Serafim, do União Brasil, com R$ 6,9 milhões

Os recursos foram direcionados principalmente ao Governo do Estado e a prefeituras do interior, estratĂ©gia comum entre parlamentares para manter presença polĂtica nos municĂpios.
Um dos exemplos Ă© o deputado Zezinho Barbary, que destinou R$ 3,4 milhões Ă prefeitura de Porto Walter, municĂpio que ele prĂłprio já administrou por dois mandatos. AntĂ´nia LĂşcia tambĂ©m concentrou parte significativa de suas emendas em um municĂpio com o qual mantĂ©m relação prĂłxima, ao destinar mais de R$ 7 milhões para a prefeitura de Senador Guiomard, onde possui uma clĂnica de reabilitação e mantĂ©m aliança polĂtica com a prefeita Rosana Gomes. Já Roberto Duarte encaminhou quase R$ 5 milhões para FeijĂł, municĂpio governado por Railson Ferreira, prefeito do mesmo partido.
O debate sobre as emendas Pix ganhou novo fĂ´lego nesta semana apĂłs decisĂŁo do ministro do Supremo Tribunal Federal Flávio Dino. Relator da ADPF 854, Dino determinou o envio Ă PolĂcia Federal do 8Âş RelatĂłrio TĂ©cnico da Controladoria-Geral da UniĂŁo, que apontou irregularidades generalizadas na execução dessas transferĂŞncias especiais.
Segundo a CGU, a complementação do relatório analisou 20 entes federativos que mais receberam recursos dessa modalidade em 2024. Nenhum deles cumpriu integralmente as exigências legais dos planos de trabalho. Quatorze já haviam utilizado os recursos e, em 11 casos, foram identificadas irregularidades na contratação de serviços ou na compra de bens. O órgão também apontou falhas graves de transparência e problemas de rastreabilidade orçamentária, com apenas cinco entes atendendo plenamente às regras constitucionais.
Na decisĂŁo, o ministro afirmou que, apesar de avanços normativos e tecnolĂłgicos, ainda persistem práticas inadequadas na execução das emendas, em desacordo com determinações do STF e com os princĂpios constitucionais que regem o orçamento pĂşblico. Dino tambĂ©m determinou que a CGU apresente, em atĂ© 30 dias, um plano de auditorias sobre emendas parlamentares para 2026, abrangendo todas as regiões do paĂs e áreas sensĂveis, como saĂşde e obras de pavimentação. AlĂ©m disso, a Advocacia-Geral da UniĂŁo deverá apresentar, em atĂ© 60 dias, o primeiro relatĂłrio do grupo de trabalho criado para coordenar ações de responsabilização e recuperação de recursos eventualmente desviados.

