13/09/2026

Enquanto Estado acumula rombo, previdência de Rio Branco tem patrimônio bilionário

Diretor-presidente do RBPrev explica que instituto tem superávit financeiro, embora ainda possua déficit atuarial

Por Anne Nascimento, ContilNetAtualizado
Patrimônio da previdência municipal cresceu de aproximadamente R$ 400 milhões no início da gestão do ex-prefeito Tião Bocalom para o patamar atual. —Foto: ContilNet

Enquanto a Previdência do Acre enfrenta um cenário de déficit, o regime próprio dos servidores de Rio Branco acumula atualmente cerca de R$ 1,6 bilhão em patrimônio líquido, segundo dados apresentados pelo diretor-presidente do RBPrev, Felipe Moura Sales. O valor também foi citado pelo prefeito Alysson Bestene, que afirmou que o patrimônio da previdência municipal cresceu de aproximadamente R$ 400 milhões no início da gestão do ex-prefeito Tião Bocalom para o patamar atual.

Alysson classificou o instituto como superavitário e destacou que a situação financeira do RBPrev desperta o interesse de instituições financeiras interessadas na administração de recursos previdenciários.

“É uma previdência cortejada por muitos, né? Porque os bancos têm aquela questão de administrar e querem essas superavitárias, né? E a nossa hoje, ela tá superavitária”, afirmou o prefeito.

Segundo Alysson, apesar do cenário atual, a Prefeitura precisa considerar as projeções para as próximas décadas e adotar medidas para evitar dificuldades futuras.

“A gente olha pra 20 anos, né? Porque tem as depreciações todas, e a gente tá cuidando pra… inclusive pra trabalhar a reforma pra evitar isso daqui a 30 anos”, disse.

Diferenças entre estado e município

A Previdência do Estado do Acre e o regime próprio dos servidores de Rio Branco atravessam momentos financeiros distintos. Enquanto o Acreprevidência enfrenta déficit financeiro e precisa de aportes do Tesouro Estadual para cobrir as despesas, o RBPrev apresenta superávit financeiro, com receitas superiores aos gastos com aposentadorias e pensões.

A diferença também aparece na quantidade de beneficiários. Em julho de 2026, o Acre Previdência tinha 18.368 pessoas, sendo 14.587 aposentados e 3.781 pensionistas. Já o RBPREV contabilizava 1.450 beneficiários, dos quais 1.219 eram aposentados e 231, pensionistas.

Com isso, a Previdência estadual atende uma quantidade de beneficiários mais de 12 vezes maior que o regime próprio do município.

Estado pagou R$970,9 milhões em sete meses

A maior escala do sistema estadual se reflete também no volume de recursos movimentados. Entre janeiro e julho de 2026, o Acreprevidência pagou R$970,9 milhões em benefícios.

Em julho, a folha mensal chegou a R$147,6 milhões. O custo mensal aumentou R$15,9 milhões nos primeiros sete meses do ano, ampliando a pressão sobre as contas estaduais e a necessidade de aportes do Tesouro para cobrir a diferença entre receitas e despesas.

No RBPREV, o cenário de curto prazo é inverso. Em agosto, o instituto registrou R$46 milhões em receitas e R$12 milhões em despesas com benefícios.

A diferença significa que, naquele mês, a receita foi aproximadamente 3,8 vezes maior que a despesa.

Patrimônio saiu de cerca de R$ 400 milhões para R$ 1,6 bilhão

Ao falar sobre a evolução dos recursos, Alysson afirmou que o patrimônio do instituto teria passado de pouco mais de R$ 300 milhões ou cerca de R$ 400 milhões no início da gestão Bocalom para R$ 1,6 bilhão atualmente.

“Nossa previdência hoje saltou… era pouco mais de R$ 300 milhões quando o [Tião] Bocalom assumiu; hoje é de R$ 1,6 bilhão”, declarou.

O número foi confirmado por Felipe Moura Sales, que explicou que os R$ 1,6 bilhão correspondem ao patrimônio líquido do fundo.

“Esses 1,6 bilhão seriam hoje o patrimônio líquido do fundo, certo? Ele é o patrimônio líquido do fundo”, explicou.

O diretor-presidente também apresentou dados sobre os beneficiários do instituto. Segundo ele, o RBPrev tinha, na ocasião da entrevista, 1.450 benefícios concedidos, sendo 1.219 aposentados e 231 pensionistas. Além disso, havia cerca de 5.500 servidores efetivos que ainda poderão gerar benefícios previdenciários no futuro.

Superávit financeiro não significa fim do déficit atuarial

Felipe fez uma ressalva importante sobre a situação da previdência municipal. Segundo ele, o RBPrev possui atualmente superávit financeiro, mas ainda apresenta déficit atuarial, que corresponde a uma projeção das obrigações futuras do regime.

“O que que é muito bom ficar claro e de forma transparente: a gente hoje tem um superávit financeiro. O que que é o superávit financeiro? Eu arrecado mais do que eu pago, né? Minha receita é maior do que minha despesa”, explicou.

Na sequência, ele diferenciou o resultado financeiro do cálculo atuarial.

“Entretanto, como todas as previdências, sejam elas próprias, né, RPPS ou não, todas elas têm um déficit atuarial. O que que seria esse déficit? É uma projeção futura a valor presente”, afirmou.

De acordo com Felipe, o cálculo considera também os servidores que ainda estão na ativa e que poderão se aposentar no futuro.

“Quando eu pego todos esses outros 5.500 e trago, faço uma projeção do que que eu tenho de dinheiro pra arcar com esse compromisso, eh, digamos que o meu dinheiro ainda não seria o suficiente”, explicou.

Por isso, segundo ele, o instituto vive atualmente uma situação de superávit financeiro, ao mesmo tempo em que trabalha para reduzir o déficit atuarial projetado.

“Então assim, a gente tem o superávit financeiro, né, eh, mas o déficit… o déficit atuarial, que é um déficit a longo prazo”, resumiu.

Sede do Acreprevidência em Rio Branco/Foto: Reprodução

Receita chega a quase quatro vezes a despesa

Felipe também apresentou como exemplo os números registrados pelo instituto em agosto. Segundo ele, naquele mês o RBPrev teve R$ 46 milhões em receitas e R$ 12 milhões em despesas.

“Só pra se ter uma ideia, tendo como referência o mês… o mês de agosto, a gente teve de receita R$ 46 milhões e R$ 12 milhões de despesa. Ou seja, digamos que a gente arrecade eh 3, 4 vezes a despesa”, afirmou.

Para o diretor-presidente, essa diferença entre o que entra e o que sai permite ao instituto formar uma reserva e, ao mesmo tempo, trabalhar na redução do déficit atuarial.

“Então esse é o grande… eu acho que é o ponto alto dessa questão da saúde financeira, é essa, porque a gente tá tendo condição de… de… de formar uma reserva à medida que a gente vai diminuindo esse déficit”, disse.

Mercado financeiro ajudou a formar patrimônio

Outro dado apresentado por Felipe é que uma parcela significativa dos R$ 1,6 bilhão acumulados pelo RBPrev teria sido formada a partir da gestão dos recursos no mercado financeiro.

“Eu acho que ela é muito relevante pra tudo o que eu tô te falando, é a questão da importância do mercado financeiro, né? De uma boa gestão de mercado financeiro”, afirmou.

Segundo ele, 47% do patrimônio atual de R$ 1,6 bilhão teria sido captado no mercado financeiro. “De todo esse 1,6 bilhão que a gente tem hoje, 47% a gente captou ele no mercado financeiro”, declarou.

Felipe explicou que a estratégia permite multiplicar recursos que têm origem nas contribuições previdenciárias.

“A gente, quando fala de previdência, a gente enxerga muito a contribuição do segurado, né? Que é aquela coisa bastante onerosa, de bastante responsabilidade. Entretanto, no caso desse montante, desse 1 bi e 600, 47% foi oriundo do mercado financeiro”, afirmou.

Segundo ele, o resultado é fruto da aplicação dos recursos acumulados pelo próprio instituto. “Ou seja, a gente, com o próprio dinheiro do segurado, a gente faz uma boa, né? Tem feito uma boa gestão, e com isso, eh, tem multiplicado, né, o recurso. E o resultado tá, tá aparecendo”, disse.

Déficit atuarial pode ser zerado antes do previsto

Outro ponto destacado pelo diretor-presidente é a evolução do plano de amortização do déficit atuarial do RBPrev.

Segundo Felipe, o instituto tinha inicialmente até 2053 para quitar o plano de amortização vigente. Após o último estudo atuarial, porém, a projeção foi antecipada para 2041.

“E nós tínhamos até por lei, nós tínhamos até 2053 pra zerar esse plano de amortização que já existe hoje, né? Hoje já temos um plano de amortização vigente e nós teríamos até 2053 pra liquidá-lo”, explicou.

Ele afirmou que o novo estudo permitiu reduzir o prazo em 12 anos.

“Após o estudo, o último estudo atuarial nosso da previdência de Rio Branco, nós já conseguimos reduzir esse déficit de modo que a gente iria sanar ele em 2041, ou seja, a gente conseguiu amortizar 12 anos já desse déficit”, declarou.

Previdência estadual

Durante a entrevista, Alysson também comparou o cenário municipal com a previdência dos servidores estaduais. Segundo ele, o sistema do Estado já apresentava um déficit elevado quando Gladson Cameli assumiu o governo.

“Porque no caso do Estado houve muito atropelo ao longo de algumas gestões”, afirmou.

O prefeito também citou administrações anteriores. “Não só lá desde a época do Orleir, né? Porque foi acho que foi criado um pouco antes, mas passou pelo Jorge, passou por todas essas gestões, né? E quando o Gladson assumiu já tinha um déficit alto”, declarou.

A comparação, segundo Alysson, reforça a necessidade de planejamento para evitar que o sistema municipal enfrente problemas semelhantes no futuro.

“Mas a nossa previdência hoje é uma previdência que tá superavitária, né? Previdência que é referência até a nível nacional”, afirmou.

Para o prefeito, o objetivo é manter a situação atual e antecipar eventuais problemas por meio de mudanças no regime. “A gente tá cuidando pra inclusive pra trabalhar a reforma pra evitar isso daqui a 30 anos”, disse.

O RBPrev é responsável pela gestão do regime próprio de previdência dos servidores municipais de Rio Branco. Segundo Felipe, o trabalho atual envolve tanto a preservação do patrimônio acumulado quanto a redução gradual do déficit atuarial projetado para as próximas décadas.

Bloqueador de anuncios detectado

Por favor, considere apoiar nosso trabalho desativando a extensão de AdBlock em seu navegador ao acessar nosso site. Isso nos ajuda a continuar oferecendo conteúdo de qualidade gratuitamente.