O avanço da Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) acendeu um alerta em diversos estados. No Acre, foram registradas 7.048 consultas por síndrome gripal nas quatro unidades sentinelas do estado em 2026. Os dados são do Boletim Semanal de Síndromes Respiratórias nº 17/2026, emitido pela Secretaria de Estado de Saúde do Acre (Sesacre).
O perfil epidemiológico das infecções respiratórias no Acre mudou. O Vírus Sincicial Respiratório (VSR), principal causador da bronquiolite, assumiu o topo da curva e se tornou o principal causador de internações por SRAG no estado.
De acordo com o documento, o cenário de 2026 mostra o VSR como o protagonista das internações, seguido pelo Rinovírus e baixa detecção do Sars-Cov-2. “Cenário atípico pós pandemia. Possivelmente influenciado por variações climáticas ou novos padrões de circulação viral Este é um dado crítico, pois o VSR é uma das principais causas de hospitalização em crianças pequenas e idosos, exigindo atenção redobrada das unidades de saúde neste início de ano”, destacou o boletim.
Ao ContilNet, a médica pneumologista Célia Rocha fez uma análise sobre o cenário. Segundo ela, o país vive uma “reação em cascata” onde a negligência estrutural, as mudanças climáticas e o comportamento da população alimentam a força dos vírus.
De acordo com a médica, o cenário agravou-se após a pandemia. “Quem não tinha nenhum problema de saúde passou a ter com o advento da Covid. Pessoas que eram saudáveis e tinham uma imunidade excelente, de repente, tornaram-se diabéticas, hipertensas e portadoras de insuficiência respiratória crônica”, explica.
Esse novo contingente de indivíduos com comorbidades somou-se aos pacientes que sofrem de doenças imunossupressoras. De acordo com a médica, quando essas pessoas entram em contato com os vírus atuais, a resposta imunológica cai drasticamente. O resultado inevitável são internações.
Um dos fatores mais alarmantes apontados pela pneumologista é a velocidade de evolução dos microrganismos.
“Esses vírus e bactérias, a cada tempo que passa, vão sofrendo mutação. Eles vão se tornando cada vez mais fortes e de difícil combate. Tem vírus que sofre 70 mutações”, disse.
Esta evolução biológica encontra o ambiente perfeito nas alterações climáticas globais. O avanço do desmatamento e o aquecimento acelerado dos oceanos têm desregulado o clima, impulsionando fenômenos como o El Niño. A dinâmica de calor extremo e seca severa em determinadas regiões, intercalada com chuvas torrenciais em outras, cria a atmosfera ideal para a multiplicação viral.
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“É uma calamidade pública essa questão da síndrome. A Fiocruz diz que a síndrome respiratória está em todo país. Chegou o El Niño, vamos ter uma zona de seca e de calor imenso, em outras regiões muita chuva. Essa é a condição maravilhosa para os vírus, eles fazem festa nesse cenário, é aí que eles se proliferam. A questão climática é fundamental. Nós estamos tendo desmatamento, o mundo pegando fogo, os oceanos estão se aquecendo cada vez mais, e o resultado não é bom”, explicou.
Além disso, a destruição de habitats naturais estreita o contato da população urbana com vetores e animais silvestres, como morcegos e roedores. Em cenários de enchentes, por exemplo, o risco dispara devido à transmissão da leptospirose pela urina de ratos misturada às águas decorrentes das cheias.
Outro ponto importante da vulnerabilidade das pessoas reside na mudança de hábitos das últimas quatro décadas. A médica relembra que a alimentação do brasileiro costumava ser baseada em alimentos naturais — verduras, legumes e frutas frescas — somada a uma rotina ativa. No passado, as crianças adquiriam imunidade jogando bola, correndo nas ruas e mantendo contato direto com a natureza.
A introdução dos fast-foods, refrigerantes, alimentos embutidos e ultraprocessados gerou uma geração com deficiências nutricionais.
“A alimentação do brasileiro há muitos anos atrás, era uma alimentação saudável, inclusive das crianças, verduras, legumes, e frutas, aquelas coisas bem naturais, boa hidratação, atividade física. Naquela época não existia academia, os meninos brincavam na rua correndo, e em contato com a natureza, adquiriam imunidade. De 38 anos para cá, as pessoas passaram a se alimentar de fast food, de sanduíche, de refrigerantes, de salgados. Deixaram de ter uma alimentação saudável”, explicou.
Consultas por síndrome gripal no Acre
A faixa etária que mais busca consultas médicas por Síndrome Gripal (SG) nas unidades de saúde não é a mesma que lota os leitos de internação.
De acordo com o Boletim da Sesacre, enquanto os leitos hospitalares são ocupados majoritariamente por bebês e crianças com quadros graves, são os jovens adultos, especialmente na faixa de 20 a 29 anos, que lideram a procura por atendimento ambulatorial com sintomas de gripe.
Prevenção
Para enfrentar o atual período de alta transmissão viral, os especialistas recomendam a adoção imediata de quatro medidas práticas:
- Imunização atualizada: manter o calendário de vacinas contra a Influenza, Covid-19 e demais patógenos respiratórios totalmente em dia.
- Uso de máscaras: utilizar a proteção facial em ambientes fechados, transportes públicos e locais de trabalho com grande circulação de pessoas.
- Estilo de vida ativo: praticar atividades físicas regulares para manter o sistema imunológico fortalecido.
- Hidratação: manter o consumo diário de água limpa e natural, evitando sucos industrializados e bebidas açucaradas.
“A saída principal é a vacinação. Não temos outra coisa a fazer se não for a vacinação. É a única medida que nós temos para escapar de uma situação é a vacina e o uso de máscaras. Educação, prevenção, vacinação, boa alimentação, hidratação e praticar atividade física”, afirmou.
Vacinação de gestantes
Em meio à alta dos casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) por vírus sincicial respiratório, o Acre alcançou 80% de cobertura vacinal no estado contra o vírus no grupo de gestantes, de acordo com o Ministério da Saúde. Segundo os dados, entre dezembro de 2025 e maio de 2026 já foram aplicadas 4.735 doses da vacina em gestantes.
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O vírus é o principal causador de bronquiolite em bebês. A vacina é ofertada de forma inédita pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e protege os recém-nascidos desde os primeiros dias de vida, fase em que o risco de complicações respiratórias é maior. No Brasil, 1 milhão de gestantes já foram vacinadas contra o vírus no SUS.



