O câncer de pulmão continua entre os principais desafios de saúde pública no Brasil e no mundo, especialmente pela forte relação com o tabagismo e pela dificuldade de identificar a doença em seus estágios iniciais. No Acre, um levantamento do Radar do Câncer aponta um cenário preocupante: 97,56% dos pacientes diagnosticados com câncer de pulmão chegaram ao atendimento já em estágio avançado da doença.
Os dados consideram atendimentos realizados nos últimos três anos, de 2024 até julho de 2026, no Sistema Único de Saúde (SUS), segundo cálculo apresentado pelo Radar do Câncer. O percentual coloca o Acre entre os estados brasileiros com os maiores índices de diagnósticos tardios. Rondônia aparece com 98,97%, enquanto Acre e Piauí registram 97,56%.

O percentual coloca o Acre entre os estados brasileiros com os maiores índices de diagnósticos tardios./Foto: reprodução
Em entrevista ao ContilNet, a médica pneumologista Dra. Célia Rocha, que atua há 45 anos no Acre, destacou que o câncer de pulmão está diretamente relacionado, em grande parte dos casos, ao consumo de cigarros. Segundo ela, apesar dos avanços da medicina, a doença ainda representa um grave problema justamente porque muitos pacientes procuram atendimento quando o tumor já está em uma fase mais avançada.
“Em relação ao câncer de pulmão, são tumores muito frequentes no Brasil e no mundo. É um problema de saúde pública e tem relação direta com o tabagismo. Normalmente, quem tem câncer de pulmão são pessoas que costumam fumar ou que já fumaram há muito tempo”, explicou.
Célia chama atenção para a quantidade de substâncias químicas presentes na fumaça do cigarro. Segundo a pneumologista, são milhares de compostos aos quais o organismo é exposto durante o consumo, muitos deles altamente agressivos.
“Na fumaça do cigarro nós temos cerca de 4.700 elementos químicos, altamente agressivos. Temos a nicotina, que é uma substância que causa dependência, mas também temos o benzo[a]pireno, que é um agente cancerígeno potente, além de outras substâncias tóxicas”, explicou.

Segundo ela, conhecer o histórico do paciente e de seus familiares pode ajudar a direcionar a investigação e identificar. | Foto: Reprodução
A médica ressalta que o cigarro não provoca danos apenas nos pulmões. A exposição contínua à fumaça coloca diferentes órgãos em contato com substâncias capazes de provocar alterações no organismo e aumentar o risco de diversas doenças.
Ela também alerta para uma situação muitas vezes ignorada: o impacto do tabagismo sobre pessoas que não fumam, mas convivem com fumantes.
“Essas pessoas também podem desenvolver câncer de pulmão com muita frequência. Não é raro. Quem fuma prejudica não só a si mesmo, mas pode causar doenças e até mortes de pessoas da própria família que nunca fumaram, mas que inalam aquela fumaça e todas aquelas substâncias químicas”, afirmou.
Segundo Célia, a exposição à fumaça ambiental do cigarro também pode contribuir para a dependência e para o desenvolvimento de doenças relacionadas ao tabagismo. Por isso, ela considera que abandonar o cigarro representa uma atitude de proteção não apenas individual, mas também familiar.
Um dos principais obstáculos para o diagnóstico precoce é que o câncer de pulmão pode permanecer durante muito tempo sem provocar sintomas claros. Quando eles aparecem, podem ser confundidos com problemas respiratórios comuns, como gripe ou infecções.
“Um tumor de pulmão pode migrar por anos dentro do corpo sem nenhuma sintomatologia ou, às vezes, dando uma pequena sintomatologia que o indivíduo entende como se fosse uma gripe”, afirmou Célia.
Entre os sinais que merecem atenção estão tosse persistente, produção de secreção e presença de sangue no escarro. Outros sintomas respiratórios também podem surgir e precisam ser avaliados por um profissional de saúde.
A investigação normalmente começa, conforme a avaliação médica, por exames de imagem, como o raio-X do tórax e principalmente a tomografia computadorizada.
Para Célia, entretanto, o diagnóstico não começa apenas diante de um aparelho. A conversa entre médico e paciente é fundamental para identificar fatores de risco.
“É uma coisa muito importante: a anamnese do paciente. É conversar com o paciente e saber se fuma, se fumou, se nasceu de parto normal, quais doenças existem na família, se alguém tinha asma, rinite, sinusite e quais eram as doenças mais comuns”, explicou.
Segundo ela, conhecer o histórico do paciente e de seus familiares pode ajudar a direcionar a investigação e identificar situações que merecem atenção.
Existem diferentes tipos de câncer de pulmão
A pneumologista explica que o câncer de pulmão não é uma doença única. Entre os principais grupos está o câncer de pulmão de pequenas células, considerado mais agressivo e que, em determinadas situações, é tratado principalmente com quimioterapia e radioterapia.
Já o grupo dos chamados cânceres de pulmão de não pequenas células inclui tipos como o adenocarcinoma e o carcinoma espinocelular. Nesses casos, a definição do tratamento depende de uma série de informações obtidas durante a investigação.
Quando uma alteração é identificada no pulmão, exames como tomografia computadorizada do tórax, PET scan e, em determinadas situações, ressonância magnética do crânio podem ser utilizados para avaliar a extensão da doença.
A confirmação do diagnóstico, entretanto, depende da análise do material da lesão. Um dos procedimentos utilizados é a broncoscopia. Por meio de um aparelho introduzido pelas vias respiratórias, o médico consegue chegar até a região que precisa ser investigada e retirar fragmentos do tecido com uma pequena pinça.
Esse material é encaminhado para análise anatomopatológica, ou biópsia, permitindo identificar o tipo histológico do tumor.
“Isso é muito importante porque, dependendo do tipo histológico do tumor, a gente vê qual é o estadiamento, em que ponto ele já está, se está inicial ou se já está de uma forma mais avançada, se já tem metástase, se já atingiu outros órgãos, como cérebro, fígado ou ossos”, explicou.
A partir dessas informações, a equipe médica consegue definir a estratégia terapêutica mais adequada para cada paciente.
Tratamento muda conforme o tipo e o estágio da doença
Célia destaca que os avanços no tratamento do câncer de pulmão ampliaram as possibilidades de controle da doença e contribuíram para aumentar a sobrevida e melhorar a qualidade de vida de alguns pacientes.
Ela explica que existem diferenças importantes entre as principais modalidades de tratamento.
Na quimioterapia, medicamentos atuam principalmente sobre células que apresentam rápida divisão, característica das células tumorais. Como outras células saudáveis do organismo também se multiplicam rapidamente, o tratamento pode provocar efeitos colaterais gerais.
A imunoterapia, por sua vez, utiliza medicamentos que ajudam a estimular ou direcionar o próprio sistema imunológico para reconhecer e combater as células cancerígenas.
Já a terapia-alvo é uma modalidade mais específica. O tratamento busca atuar sobre determinadas alterações moleculares ou mutações presentes nas células do tumor. Para que esse tipo de terapia seja utilizado, é necessário identificar características específicas da doença por meio de exames.
Segundo Célia, essas estratégias representam avanços importantes, principalmente para pacientes que apresentam determinadas características tumorais.
“Temos tido grandes avanços no tratamento do câncer de pulmão nos seus vários estadiamentos. Temos a cirurgia robótica, a imunoterapia, a quimioterapia e vamos tentando sempre buscar para a população a melhor assistência”, afirmou.
A médica ressalta, entretanto, que os resultados são diferentes quando a doença já está muito avançada.
“É um tratamento inovador do câncer de pulmão e que está dando bons resultados. A gente percebe não só naqueles quadros muito adiantados, mas também que tem aumentado um pouco mais o tempo de vida do paciente e proporcionado uma melhor qualidade de vida”, explicou.
Cirurgia pode retirar todo o lobo pulmonar
Quando o tumor apresenta características que permitem uma abordagem cirúrgica, a extensão da operação depende da localização e do estágio da doença.
Célia explica que o pulmão direito possui três lobos — superior, médio e inferior — enquanto o pulmão esquerdo possui dois, superior e inferior.
Em casos mais complexos, especialmente diante de tumores mais agressivos, a cirurgia pode não se limitar à retirada apenas da área onde está localizada a lesão. Dependendo da situação, pode ser necessária a retirada de todo um lobo pulmonar, procedimento conhecido como lobectomia, além da avaliação e retirada de linfonodos da região para verificar se houve disseminação da doença.
“Quando a gente vê casos mais complicados, de tumores mais agressivos, não tira só aquela área do tumor. A gente faz uma coisa de forma mais abrangente, tira o lobo pulmonar inteiro e faz o esvaziamento ganglionar”, explicou.
A avaliação dos linfonodos é importante porque o câncer pode se disseminar pelo sistema linfático e atingir outras partes do organismo.
Para a pneumologista, quanto mais cedo o problema for identificado, maiores são as possibilidades de intervenção.
“Uma coisa que a gente procura resolver rápido é uma coisa. O resultado é um. Aquilo que a gente posterga, deixa para depois, complica”, alertou.
Histórico familiar também precisa ser levado em consideração
Embora o cigarro seja o principal fator de risco associado ao câncer de pulmão, Célia destaca que outros elementos também precisam ser considerados. Exposição ambiental, poluição, radônio e fatores genéticos podem contribuir para o desenvolvimento da doença.
A médica chama atenção para famílias nas quais diferentes tipos de câncer aparecem com frequência.
“Existem famílias realmente que, se você perceber bem, têm um alto índice de câncer. Não só pulmão: câncer de próstata, reto, estômago, pâncreas. Existe transmissão genética”, explicou.
Por isso, informações sobre pais, irmãos, avós e outros parentes podem ser relevantes durante a consulta médica.
O desafio do diagnóstico precoce
Para Célia, o diagnóstico precoce do câncer de pulmão continua sendo um dos maiores desafios. Além da ausência de sintomas nos estágios iniciais, ela acredita que fatores culturais e a falta de informação também influenciam a procura por atendimento.
A médica lembra que o cigarro chegou a ser associado durante décadas a uma imagem de charme e status, inclusive entre mulheres, o que ajudou a naturalizar o hábito.
“Quando se instituiu a questão do cigarro no Brasil, foi ocupando aquele modelo americano. Inclusive, quando as mulheres também começaram a fumar, naquela época fumar era até um charme. Quem fumava tinha um certo charme”, comentou.
Para ela, a compreensão dos riscos mudou ao longo do tempo, mas ainda é necessário ampliar o acesso à informação para que as pessoas entendam os danos provocados pelo tabagismo.
“Não somos juízes de ninguém”, diz médica
Célia também defende que o paciente com câncer não deve ser tratado com julgamento, especialmente quando existe histórico de tabagismo. Para ela, o papel do profissional de saúde é oferecer assistência durante todas as etapas da doença.
“Lutar sempre em benefício do paciente e da família. Nós, profissionais da pneumologia, estamos sempre prontos para nos alinhar a essa luta, ajudar em todos os aspectos, não só no tratamento físico, mas também no emocional e psicológico”, afirmou.
A médica reforça que medo, tristeza e ansiedade são sentimentos que podem acompanhar um diagnóstico de câncer e que o paciente precisa receber acolhimento.
“Nós não somos donos da verdade. Se alguém tem que julgar, só Deus mesmo. Não somos juízes de absolutamente ninguém”, declarou.
Agosto Branco reforça alerta para prevenção
A entrevista ocorre durante o Agosto Branco, mês dedicado à conscientização sobre o câncer de pulmão, com foco na prevenção, na redução do tabagismo e na identificação dos sinais da doença.
Para Célia, a principal mensagem é que ninguém deve esperar os sintomas se agravarem para procurar assistência.
“Num percentual altíssimo, a causa principal é exatamente o ato de fumar, o que seria evitado se as pessoas tivessem criado um pouquinho mais de juízo e parado de fumar em tempo hábil”, afirmou.
A pneumologista também reforça que o câncer de pulmão não deve ser encarado automaticamente como uma sentença de morte. Os avanços na medicina ampliaram as possibilidades de tratamento, controle da doença e aumento da sobrevida em determinados casos.
“Não entregar os pontos. Lutar sempre”, resumiu.
Médica reforça importância de hábitos saudáveis
Ao falar sobre prevenção, Célia defende uma mudança mais ampla no estilo de vida. Para ela, parar de fumar é uma das principais medidas que podem ser adotadas para reduzir os riscos, mas a preocupação com a saúde deve envolver também atividade física, alimentação equilibrada e acompanhamento médico.
“Vamos parar de fumar, vamos primar por uma vida de qualidade, vamos primar por algo tão importante que é a nossa saúde, o nosso bem-estar e o da nossa família. Vamos fazer atividade física, vamos ter uma alimentação natural e não os fast-food da vida, os refrigerantes, os enlatados, os embutidos”, afirmou.
A médica também defende atenção à hidratação e ao acompanhamento de outras doenças ou condições respiratórias.
Ela ressalta que pessoas que apresentam asma, rinite, sinusite ou outros problemas precisam procurar avaliação especializada e seguir corretamente as orientações recebidas.
“Não existe tratamento unilateral e sim bilateral. O paciente procura o médico, o médico examina, solicita os exames radiológicos, tomografia, raio-X de tórax, exames laboratoriais, enfim, faz a análise do paciente e institui o tratamento. E a obrigação do paciente é tomar sua medicação corretamente, conforme foi orientado, e obedecer todas aquelas orientações”, explicou.
Segundo Célia, quando existe acompanhamento adequado e adesão ao tratamento, mesmo pacientes que convivem com outras doenças podem manter suas atividades e buscar melhor qualidade de vida.
“O câncer de pulmão mata pra valer mesmo”, afirma pneumologista
Na avaliação da médica, o câncer de pulmão está entre as formas mais letais da doença no mundo e pode atingir pessoas de diferentes idades e perfis.
“O câncer de pulmão é o que mais mata no mundo. Se levarmos em consideração todas as formas de câncer existentes, é o que mais mata”, afirmou.
Célia compara a dimensão do câncer de pulmão com outras formas da doença e reforça que o problema não deve ser minimizado.
“O câncer de mama mata muitas mulheres, mas o câncer de pulmão é a forma que mais mata. Ele mata pra valer mesmo. A coisa não é brincadeira”, declarou.
Para a pneumologista, o ponto central da discussão é justamente a possibilidade de prevenção relacionada ao tabagismo.
“É uma coisa perfeitamente evitável. É simples: vamos parar de fumar. Vamos primar por uma vida de qualidade, pela nossa saúde, pelo nosso bem-estar e pelo da nossa família”, disse.
Com quase 98% dos pacientes chegando ao atendimento em estágio avançado no Acre, o cenário reforça a necessidade de ampliar a conscientização sobre fatores de risco, sinais de alerta e importância da investigação médica.
Para Célia Rocha, abandonar o cigarro, evitar a exposição à fumaça, manter hábitos saudáveis e procurar atendimento diante de sintomas persistentes são atitudes fundamentais para mudar essa realidade.
“Deus ajuda a quem se ajuda”, resumiu a médica, ao defender uma postura mais consciente e responsável diante da própria saúde.
A mensagem deixada pela pneumologista durante o Agosto Branco é direta: quanto antes houver consciência, prevenção, investigação e tratamento adequado, maiores são as possibilidades de enfrentar a doença e preservar qualidade de vida.
