Quem cobre as agendas políticas da governadora Mailza Assis, assim como este colunista, está acostumado a ver eventos discretos, sem muito alarde, e isso acaba, de certa forma, diminuindo um pouco a força da imagem dela, que pretende disputar uma reeleição difícil neste ano.
Mas parece que o cenário mudou e Mailza finalmente entendeu como funciona o jogo. A prova foi o evento desta segunda-feira, que marcou a retomada das obras da Orla do 15 e a assinatura de quase R$ 200 milhões em novas obras iniciadas neste verão amazônico.
Ainda na sexta-feira, Mailza deu o recado a todos os membros do alto escalão do governo convocando para o evento. E não há nada de errado nisso. O evento foi às 7h da manhã, antes mesmo de começar o expediente nas secretarias. E mesmo se fosse durante esse horário, a justificativa veio da própria governadora, em um discurso direcionado aos auxiliares: “Nada mais justo que vocês participarem desse evento, já que essas obras só acontecem por conta de vocês, do trabalho e dedicação de vocês”.
Resultado: um evento que ocupou quase toda a avenida principal do Bairro do 15.
Mailza entendeu que tem a máquina na mão e precisa usá-la da melhor forma. Isso é estratégia política, principalmente para quem vai disputar uma eleição dificílima.
Durante muito tempo, aliados reclamavam, nos corredores do governo, que faltava justamente isso: presença, demonstração de força, ocupação de espaço político e construção de imagem pública. Enquanto outros grupos políticos sempre entenderam a importância da liturgia do poder, Mailza parecia apostar apenas na entrega administrativa.
Na política, raramente isso basta.
Obra sem plateia vira apenas obra. E um governo sem mobilização passa sensação de fragilidade, ainda que tenha entregas concretas para mostrar.
E talvez o momento mais emblemático tenha sido justamente quando apoiadores começaram a gritar “É ela”. Em política, esses gestos dificilmente são espontâneos por completo, mas também nunca acontecem quando uma liderança não consegue mais empolgar sua própria base.
O recado foi dado. Mailza começa a compreender algo que políticos experientes aprenderam há décadas: eleição não se vence apenas com planilha de obras.
Mudança de postura
Outra coisa chamou atenção no evento desta manhã no Bairro do 15: a postura de Mailza.
A governadora apareceu mais leve, fez brincadeiras durante o discurso e demonstrou uma espontaneidade pouco comum nas agendas anteriores. Nada exagerado, mas suficiente para passar uma imagem mais próxima das pessoas.
Até o horário do evento virou parte da narrativa. Mailza brincou com o fato de a agenda começar às 7h da manhã, transmitindo exatamente a imagem que todo político gosta de construir: a de quem acorda cedo para trabalhar.
Pode parecer detalhe, mas não é.
Muito difícil
Mailza enfrenta um desafio que talvez seja um dos mais difíceis da política acreana hoje: suceder Gladson.
E aí existe um ponto que muitos já entenderam. É praticamente impossível reproduzir o carisma espontâneo de Gladson, algo que sempre foi natural nele, desde muito antes do governo.
Mailza tem outro perfil. Mais contida, mais técnica, menos expansiva. E ninguém consegue sustentar por muito tempo um personagem na política. Ou a conexão com o público é verdadeira, ou ela não se mantém.
Por isso chama atenção o esforço recente da governadora em se aproximar mais das pessoas, falar de forma mais leve e ocupar mais espaço político. Não parece algo artificial. Parece construção.
Talvez os eventos das últimas semanas já sejam os primeiros sinais de como Mailza pretende entrar na campanha quando o processo eleitoral começar de vez. É uma estratégia que pode fazer com que a governadora tenha tudo para despontar. E as últimas pesquisas não mentem: ela começa a crescer de forma mais expressiva.
