Megaempresários são apontados como mandantes de chacina na divisa do Acre com o AM

Executores presos pelo triplo homicídio em área de conflito agrário na região da Amacro disseram à polícia que o crime foi encomendado por integrantes da família Coelho Diniz

Por Redação ContilNet 19/06/2026 às 14:49

A investigação sobre a chacina que deixou três mortos, entre eles um adolescente de 14 anos, na região da Amacro, na divisa entre o Acre e o Amazonas, ganhou novos desdobramentos. Reportagem publicada pela Folha de S.Paulo nesta sexta-feira (19) revela que os dois homens presos pelo crime afirmaram à polícia que os mandantes do ataque seriam integrantes da família Coelho Diniz, grupo empresarial de Minas Gerais que é sócio do Grupo Pão de Açúcar e possui ligação política com o PL.

O crime ocorreu em 25 de abril deste ano, na zona rural de Lábrea (AM), próximo à BR-317, em uma área marcada por conflitos agrários e situada na divisa com Boca do Acre (AM) e o Acre. Na ocasião, morreram Josias Albuquerque de Oliveira, de 45 anos, Antônio Renato Vieira de Souza, de 32 anos, e o sobrinho de Josias, um adolescente de 14 anos.

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Segundo as investigações, os ocupantes de uma caminhonete foram surpreendidos por uma emboscada na cabeceira de uma ponte. Após os disparos, o veículo caiu em um igarapé. Dois homens conseguiram sobreviver.

De acordo com a Folha, Lucas Pessoa dos Santos, de 26 anos, e Edenilson Silva dos Santos, de 34, confessaram participação no triplo homicídio. Em depoimento obtido pelo jornal, Lucas afirmou que agiu a mando de Moisés Diniz, filho do empresário Alex Sandro Coelho Diniz.

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Moisés Diniz foi apontado por funcionário como mandante de crime. É filho do empresário Alex Sandro Coelho Diniz, homenageado pela Câmara Municipal de Belo Horizonte. – Cláudio Rabelo/Divulgaçao CMBH

Lucas trabalhava nas propriedades da família desde 2020 e relatou à polícia que recebeu a missão de proteger as terras e o gado contra supostos invasores. Ao ser questionado sobre quem teria ordenado a execução, respondeu: “O Moisés”, identificando-o como seu patrão.

Posteriormente, durante audiência de custódia, o suspeito mudou a versão e afirmou ter sido pressionado por policiais para apontar o mandante. O advogado que o representa também atua na defesa do administrador de uma das fazendas ligadas à família.

Empresário nega participação

À Folha de S.Paulo, Moisés Diniz negou qualquer envolvimento no caso. Em nota assinada pelo advogado Vinicius Soalheiro, ele afirmou que não é investigado e que não responde a ações relacionadas a conflitos agrários.

Já Alex Diniz, pai de Moisés, não respondeu aos contatos feitos pelo jornal. Empresário do setor supermercadista, ele é filiado ao PL, suplente do senador Cleitinho (Republicanos-MG) e apontado como um dos apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro em Minas Gerais.

A família Coelho Diniz controla uma rede de supermercados com faturamento estimado em R$ 2,3 bilhões por ano e detém 24,9% das ações ordinárias do Grupo Pão de Açúcar. O conglomerado informou à Folha que não comentaria o caso.

Um dos irmãos de Alex Diniz é o deputado federal Hercílio Coelho Diniz (MDB-MG), que também não se manifestou sobre as acusações.

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Empresário Alex Sandro Coelho Diniz durante homenagem na Câmara Municipal de Belo Horizonte. – Cláudio Rabelo/Divulgaçao CMBH

Conflito fundiário e histórico de violência

A área onde ocorreu a chacina integra a Gleba Recreio do Santo Antônio, região federal que possui trechos incorporados ao Projeto de Assentamento Monte e outras áreas ainda sem regularização fundiária.

A Comissão Pastoral da Terra (CPT) acompanha os conflitos na localidade desde 2018 e aponta que mais de 20 pessoas já foram assassinadas na região em disputas por terra.

A família de Josias Albuquerque mantinha litígios fundiários com fazendeiros da região. O agricultor já havia sobrevivido a uma tentativa de assassinato em 2021. Uma decisão judicial favorável aos fazendeiros chegou a ser anulada em 2024, o que, segundo relatos colhidos pela Folha, teria reacendido as tensões.

Parentes das vítimas e lideranças locais temem que a apuração sobre os possíveis mandantes não avance em razão da influência econômica e política da família citada pelos executores.

Armas e ligação com fazendas

Com os suspeitos presos, a polícia apreendeu um fuzil AR-15, duas pistolas e munições. A motocicleta utilizada na ação estava registrada em nome de Paulo Oliveira da Silva, administrador da Agropecuária CD, empresa vinculada a Moisés Diniz.

Segundo os depoimentos, os próprios autores afirmaram aos policiais militares que os prenderam que a execução havia sido feita “a mando dos Diniz” e que armas e munições teriam sido fornecidas pelo grupo. Na delegacia, Lucas alterou novamente a versão e declarou ser o proprietário do armamento, afirmando que o fuzil teria chegado da Bolívia.

A Secretaria de Segurança Pública do Amazonas informou que abriu um inquérito específico para apurar a possível existência de mandantes no caso.

Adolescente pediu para não morrer

Um dos sobreviventes relatou à polícia que o adolescente de 14 anos tentou fugir nadando após a caminhonete cair no igarapé. Conforme o depoimento, o jovem chegou a pedir socorro antes de ser atingido por disparos.

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Pai e filho são mortos em emboscada/Foto: Reprodução

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À Folha, a mãe do adolescente, Maressa Ferreira, lamentou a morte do filho.

“Ele era a coisa mais importante que eu tinha na minha vida. Por que fizeram essa crueldade com meu filho? Ele não tinha culpa e pediu para sobreviver”, disse.

As acusações envolvendo a família Coelho Diniz têm como base os depoimentos dos autores confessos do crime e seguem sob investigação das autoridades do Amazonas. Até o momento, nenhum integrante da família foi formalmente denunciado ou indiciado no inquérito sobre os possíveis mandantes da chacina.

Conteúdo Original / Fonte: Redação ContilNet

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