É impressionante como o poder consegue transformar algumas pessoas. Não todas, é verdade. Ainda existem homens e mulheres públicos que preservam a humildade, a simplicidade e o respeito por quem os colocou onde estão. Mas há aqueles que parecem sofrer uma espécie de metamorfose assim que sentam na cadeira do poder.
Antes da posse, são acessíveis. Falam a linguagem do povo. Andam pelas ruas sem cerimônia. Tomam café nas padarias, conversam nas esquinas e fazem questão de demonstrar que conhecem a realidade de quem luta diariamente para sobreviver.
Depois que assumem o cargo, muitos parecem ter sido transportados para outra dimensão.
A voz muda. O vocabulário muda. Os gestos mudam. O tratamento dispensado às pessoas muda. De repente, surgem assessores para filtrar quem pode ou não se aproximar. O cidadão comum, que antes era tratado como amigo, passa a ser visto como um incômodo.
E o que dizer da transformação financeira?
Carros de luxo aparecem quase como num passe de mágica. Casas maiores substituem as residências modestas. Viagens se tornam frequentes. Hotéis sofisticados, restaurantes caros e uma rotina incompatível com os rendimentos que muitos possuíam antes de ocupar cargos públicos.
A pergunta que ecoa nas ruas é simples: de onde veio tanto dinheiro?

A pergunta que ecoa nas ruas é simples: de onde veio tanto dinheiro?
Não é uma acusação. É uma pergunta legítima que qualquer cidadão tem o direito de fazer. Afinal, o dinheiro administrado pelos agentes públicos não pertence a eles. Pertence ao povo.
O mais curioso é que, muitas vezes, não é preciso ser investigador, auditor ou delegado para perceber mudanças patrimoniais suspeitas. Os próprios moradores das cidades acompanham tudo. Sabem onde a pessoa morava antes. Sabem qual carro dirigia. Sabem como vivia.
Se a população percebe, por que tantos órgãos de controle parecem não perceber?
A fiscalização da evolução patrimonial dos agentes públicos deveria ser uma das ferramentas mais eficientes no combate à corrupção. Quem entra na vida pública deveria ter a obrigação moral e legal de explicar, com absoluta transparência, a origem de cada bem adquirido durante o exercício do cargo.
Enquanto isso, o trabalhador brasileiro continua pagando impostos sobre praticamente tudo. Paga para abastecer o carro, para comprar comida, para consumir energia, para abrir um negócio e até para morrer. O retorno, porém, muitas vezes é um serviço público precário e uma sensação crescente de impunidade.
O Brasil não precisa de autoridades que se comportem como monarcas. Precisa de servidores que compreendam que o cargo é temporário e que o verdadeiro dono do poder é o povo.
Porque a história já mostrou inúmeras vezes que os que se julgam eternos acabam descobrindo, mais cedo ou mais tarde, que nenhum trono dura para sempre.
O problema é que, até esse dia chegar, a conta quase sempre continua sendo paga pelo cidadão.

