O corpo do cantor e compositor cearense Belchior, que morreu em casa neste domingo (30), aos 70 anos, foi retirado pela funerária por volta das 14h30, e segue para o Instituto Médico-Legal (IML) de Cachoeira do Sul, cidade cerca de 100 km distante de Santa Cruz do Sul, onde ele morava.
A polĂcia acredita que Belchior tenha tido uma morte natural. “Em princĂpio, morte natural, porque nĂŁo havia sinais de violĂŞncia, nada indicou qualquer outra coisa. Segundo a esposa, Edna, ele nĂŁo usava medicação, nĂŁo apresentava problemas de saĂşde. Eles disseram que sequer tinham remĂ©dios em casa”, afirmou a delegada Raquel Schneider, da PolĂcia Civil de Santa Cruz do Sul.

Cantor e compositor Belchior em retrato de 1987 (Foto: Silvio Ricardo Ribeiro/EstadĂŁo ConteĂşdo)
À TV Globo, Angela Margareth, ex-mulher do músico, disse que a causa da morte foi um infarto. Segundo a delegada, o corpo foi levado para o exame de necropsia, pelo qual poderá ser determinada pelo IML o que levou o cantor ao óbito.
De acordo com amigos, o artista vivia há quatro anos no municĂpio localizado na regiĂŁo do Vale do Rio Pardo, no Rio Grande do Sul. Há um ano e meio ele morava na casa onde morreu, com a esposa. A residĂŞncia foi cedida a ele por um amigo.
O corpo deve ser levado para o Ceará, onde ocorrerá o sepultamento na cidade de Sobral, terra natal do cantor, segundo a Secretaria de Cultura do Estado.
O Governo do Estado do Ceará confirmou a morte e decretou luto oficial de trĂŞs dias. “Recebi com profundo pesar a notĂcia da morte do cantor e compositor cearense Belchior”, diz em nota o governador Camilo Santana. “O povo cearense enaltece sua histĂłria, agradece imensamente por tudo que fez e pelo legado que deixa para a arte do nosso Ceará e do Brasil” (veja Ăntegra da nota abaixo).
O traslado do corpo será feito pelo Governo do Ceará, que aguarda liberação das autoridades gaúchas. O horário ainda não foi confirmado, mas a expectativa é que o corpo seja levado ainda neste domingo (30).
A assessoria do governo disse tambĂ©m que o chefe da Casa Militar do Ceará, coronel da PolĂcia Militar TĂşlio Studart, entrou em contato com o chefe da Casa Militar do RS, e que eles aguardam o resultado do laudo oficial.
Veja a Ăntegra da nota oficial do Governo do Ceará:
“O Governo do Ceará lamenta profundamente o falecimento do cantor e compositor cearense, Belchior, aos 70 anos, na noite deste sábado, 29, na cidade de Santa Cruz, no Rio Grande do Sul. E informa que está prestando todo o apoio Ă famĂlia, inclusive providenciando o traslado do corpo para Sobral, sua cidade natal. O governador Camilo Santana está decretando luto oficial de trĂŞs dias. Belchior Ă© dono de uma trajetĂłria artĂstica da mais absoluta importância para a cultura do Estado. Sua carreira o levou ao patamar de um dos maiores Ăcones da MĂşsica Popular Brasileira, promovendo o nome do Ceará em todo o Brasil e no mundo”.
Nascido em 26 de outubro de 1946, Belchior foi um dos Ăcones mais enigmáticos da mĂşsica popular no Brasil, com mais de 40 anos de carreira.
Teve o primeiro sucesso nos anos 70 ao lado do tambĂ©m cearense Fagner, com a faixa “Mucuripe”. Com o disco “Alucinação” (1976), lançou clássicos como as faixas “Apenas um rapaz latino-americano”, “Velha roupa colorida” e “Como nossos pais”, essa Ăşltima que se tornou conhecida na voz da cantora Elis Regina.
Paradeiro
Segundo o colunista do G1, Mauro Ferreira, o cantor nĂŁo tinha paradeiro certo desde 2008. Em 2007, a famĂlia reclamou do sumiço do artista, que abandonou a carreira; e nem mesmo seu produtor musical conseguia contato. A partir daĂ, foram surgindo boatos a respeito do paradeiro do cantor.
Segundo reportagem do Fantástico, Belchior abandonou ao menos dois carros, sem explicação. Um deles, deixado no Aeroporto de Congonhas, em SĂŁo Paulo, acumulando milhares de reais em dĂvidas de estacionamento. Outro veĂculo, uma Mercedes Benz do cantor, foi largado em um estacionamento tambĂ©m em SĂŁo Paulo, onde ele morava antes de ir para o Uruguai.
Belchior chegou a ser procurado pela polĂcia em 2012 devido a uma dĂvida, Ă Ă©poca, de US$ 15 mil em um hotel na cidade de Artigas, no Uruguai, por seis meses de diárias. No fim daquele ano, em meio Ă polĂŞmica, foi visto em Porto Alegre, mas nĂŁo quis gravar entrevista.
TrajetĂłria
Na infância no Ceará, Belchior estudou piano e música coral e trabalhou no rádio em sua cidade natal. Seu pai tocava flauta e saxofone e sua mãe cantava em coro de igreja. Mudou-se em 1962 para Fortaleza, onde estudou Filosofia e Humanidades. Também chegou a estudar medicina, mas abandonou o curso em 1971 para se dedicar à música.
Começou apresentando-se em festivais pelo Nordeste. Depois do sucesso de “Mucuripe”, mudou-se para SĂŁo Paulo, onde compĂ´s trilhas sonoras para filmes e passou a fazer shows maiores e aparições em programas de televisĂŁo. Em 1974, lançou seu primeiro disco, “A palo seco”, cuja mĂşsica tĂtulo se tornou sucesso nacional e ganhou versões ao longo da histĂłria, como a de Oswaldo Montenegro e da banda Los Hermanos.
Outros artistas tambĂ©m regravaram sucessos de Belchior, entre eles Roberto Carlos (“Mucuripe”) e Erasmo Carlos (“Paralelas”), Engenheiros do Hawaii (“Alucinação”), WanderlĂ©a (“Paralelas”) e Jair Rodrigues (“Galos, noites e quintais”). Elis Regina foi uma de suas maiores intĂ©rpretes: alĂ©m de “Como nossos pais”, gravou “Mucuripe”, “Apenas um rapaz latino-americano” e “Velha roupa colorida”.
Em 1982, o cantor lançou “ParaĂso”, que tem participações dos Ă quela Ă©poca ainda jovens artistas Guilherme Arantes, Ednardo Nunes, Jorge Mautner e Arnaldo Antunes. Fundou sua prĂłpria gravadora e produtora, a ParaĂso Discos, em 1983. Ao longo da carreira, Belchior teve mais de 20 discos lançados.



