Quem faz do ódio e do preconceito uma manchete não faz jornalismo

Se esse tipo de conduta continuar sendo recebido com silêncio, a mensagem será clara: vale tudo

Por Wania Pinheiro, ContilNet 25/07/2026 às 16:46
Reduzir pessoas a rótulos ofensivos, explorar preconceitos e publicar manchetes destinadas apenas a provocar linchamento moral não é jornalismo. — Foto: Reprodução

Há uma diferença enorme entre fazer jornalismo e transformar a comunicação em instrumento de humilhação. Criticar agentes públicos, fiscalizar governos, denunciar irregularidades e cobrar transparência fazem parte da missão da imprensa. Mas reduzir pessoas a rótulos ofensivos, explorar preconceitos e publicar manchetes destinadas apenas a provocar linchamento moral não é jornalismo. É a degradação dele.

Foi exatamente isso que aconteceu ao se anunciar uma possível composição política entre Mailza Assis e Jéssica Sales utilizando rótulos depreciativos para identificar as duas. Independentemente de quem sejam, da ideologia que defendam ou do projeto político que representem, nenhuma mulher merece ser tratada dessa forma.

A divergência política jamais pode servir de justificativa para o preconceito ou para a desumanização.

O mais preocupante é que esse tipo de prática vem se repetindo há muito tempo. Manchetes agressivas, linguagem chula, ataques pessoais e uma sucessão de ofensas que pouco têm a ver com informação. O objetivo parece ser um só: humilhar, viralizar e destruir reputações.

Conheço bem esse tipo de violência. Durante muitos anos fui alvo de ataques semelhantes. Vivi o suficiente para saber que há pessoas que fazem da agressão um modelo de negócio e da ofensa um instrumento político. Também sei o quanto isso machuca famílias e destrói o debate público.

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Houve um tempo em que eu sonhava permanecer na política. Gostava daquele ambiente e tinha o desejo de conquistar um mandato de deputada estadual. A vida mudou meus planos. Hoje, olhando para trás, percebo que uma das maiores violências contra quem exerce a atividade política é justamente a obrigação quase permanente de suportar ofensas em silêncio.

Graças a Deus, hoje não preciso mais aceitar esse papel. Continuo defendendo minhas ideias, mas não levo desaforo para casa. Como costumo dizer: dou um boi para não entrar numa briga, mas dou uma boiada para não sair dela.

Por isso acredito que Mailza Assis e Jéssica Sales não deveriam tratar esse episódio como algo corriqueiro. A reação não interessa apenas às duas. Interessa a todas as mulheres que ocupam espaços públicos, a todos que fazem política com respeito e à própria sociedade acreana.

Se esse tipo de conduta continuar sendo recebido com silêncio, a mensagem será clara: vale tudo. Hoje são elas. Amanhã será qualquer outra pessoa.

Liberdade de imprensa é um dos pilares da democracia. Mas ela não pode ser confundida com licença para humilhar, disseminar preconceitos ou incentivar a violência verbal. O jornalismo existe para informar, não para degradar seres humanos.

O Acre merece uma imprensa forte, crítica e independente. Mas merece, acima de tudo, uma imprensa que respeite a dignidade das pessoas. Quando o ódio ocupa o lugar da notícia, todos perdem: a política, a democracia e a sociedade.

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