A política acreana sempre foi um terreno onde alianças se constroem no café da manhã e se desfazem antes do jantar. Quem acompanha os bastidores sabe que os sorrisos públicos nem sempre traduzem fidelidade política. E foi exatamente isso que me veio à cabeça ao ver, dias atrás, uma conhecida liderança ligada ao grupo governista dividindo mesa, conversa e cafezinho com um dos possíveis adversários da governadora Mailza Assis na disputa pelo Palácio Rio Branco.
Não vou revelar o nome. Primeiro, porque política exige responsabilidade. Segundo, porque nem eu tenho certeza se o cidadão ainda faz parte oficialmente da base do governo. Mas, se estiver, o encontro certamente deixaria muita gente de cabelo em pé quando os bastidores resolvessem abrir as cortinas.
Nos meus 44 anos acompanhando a política e o jornalismo acreano, aprendi algumas coisas sobre comportamento político. Só não vi jabuti voar. De resto, já vi adversário virar aliado da noite para o dia, já vi amigo de campanha se transformar em inimigo mortal depois da apuração e já vi gente jurando amor eterno num palanque para, semanas depois, posar abraçada com o concorrente.
A frase clássica do mineiro Magalhães Pinto talvez continue sendo uma das definições mais precisas da política brasileira:
“Política é como nuvem. Você olha e ela está de um jeito. Olha de novo e já mudou.”
E ela nunca fez tanto sentido quanto agora.
O Acre entra em mais um ano eleitoral carregado de movimentos silenciosos, articulações discretas e apostas cruzadas. Hoje, muitos aparecem juntos nas fotos oficiais, mas ninguém sabe exatamente como estarão posicionados daqui a alguns meses. Isso vale para Alan Rick, Tião Bocalom, Theo Dantas, doutor Luizinho e também para a própria governadora Mailza Assis.
Na política, há quem permaneça leal até o fim. Existe gente que honra palavra, compromisso e grupo. Mas também existem aqueles que sobrevivem apenas enquanto a conveniência manda. Quando percebem mudança no vento, trocam rapidamente de lado, retiram a máscara e revelam uma face que muitos fingiam não enxergar.
Talvez esse seja o lado mais decepcionante da política partidária: a facilidade com que certos discursos sobre lealdade evaporam diante da primeira oportunidade de poder.
E o eleitor, mais uma vez, precisará observar com atenção. Porque, no fim das contas, não é o discurso inflamado do palanque que revela o caráter político de alguém. São os movimentos feitos longe dos microfones, nos encontros discretos, nos cafés reservados e nas conversas de bastidor.
