Guta Stresser trata esclerose com remédio de R$ 6 mil e maconha

Por IG 21/06/2022 Ă s 17:38
Reprodução/Instagram

Guta Stresser realizou, recentemente, uma ressonância magnética para o acompanhamento da esclerose múltipla, pouco mais de um ano após ser diagnosticada com a doença. O resultado foi satisfatório: as lesões no cérebro da atriz estão estacionadas, sem qualquer sinal de evolução.

A artista de 49 anos realiza o tratamento contra a progressão da doença, ainda sem cura, com o uso de um medicamento caro e de difícil acesso, o imunomodulador Fumarato de Dimetila, que passou a ser oferecido pelo Sistema Único de Saúde (SUS) em 2020. Por mês, a atriz gastaria cerca de R$ 6 mil com o remédio, que precisa ser utilizado diariamente, tanto na parte da manhã quanto à noite.

— Estou super fechada com a farmácia do SUS. Esse mecanismo de acesso a medicamentos funciona muito bem. Isso sem falar que o remédio que uso é bem caro e não dá para encontrar em todo lugar — explica Guta. — Quando se fala de esclerose múltipla, é preciso lembrar que existem vários tipos da doença e vários tipos de medicamento para tratá-la, e nem toda pessoa se adapta ao mesmo remédio. No começo, por exemplo, tive uma reação e fiquei com a pele muito vermelha, sentindo calor. Minha médica falou para insistir e, com o tempo, fui me adaptando.

Por indicação de mĂ©dicos, a artista tambĂ©m tem utilizado o Ăłleo de canabidiol, substância encontrada em pequeno volume no caule e na folha da maconha, como um complemento ao tratamento. Neste ano, pesquisadores da Universidade de SĂŁo Paulo (USP), em RibeirĂŁo Preto, identificaram a ação terapĂŞutica do composto (popularmente conhecido como “maconha medicinal”) na prevenção das consequĂŞncias neurolĂłgicas e mĂ©dicas gerais de doenças como depressĂŁo, dor crĂ´nica e esclerose mĂşltipla.

— O canadibiol entra mais como um amigo. Acredito muito na potência da Cannabis na redução de determinados problemas. Ouço muitos relatos de pessoas que sentem o mesmo com o uso do canadibiol — diz ela.

Emoção com ‘onda de afeto’

Desde a Ăşltima segunda-feira (20), quando revelou publicamente a doença, Guta Stresser tem recebido muitas mensagens no celular. SĂŁo recados de apoio e solidariedade escritos por amigos como LĂşcio Mauro Filho e Natália Lage, colegas no programa “A grande famĂ­lia” (2001-2014), alĂ©m de fĂŁs e pessoas que a atriz nĂŁo conhece.— Quando leio tudo, começo sempre a me debulhar em lágrimas e preciso dar uma desligada — conta Guta, conhecida do grande pĂşblico como a Bebel de “A grande famĂ­lia”. — No momento em que passo por um processo de tristeza, que Ă© esse diagnĂłstico assustador, fico emocionada com a “contra onda” de afeto e carinho, algo que nĂŁo tem preço.

NĂŁo foi fácil o caminho atĂ© ali. Desde que recebeu o resultado de uma ressonância magnĂ©tica, no inĂ­cio de 2021 — o exame apontou, Ă  Ă©poca, lesões no cĂ©rebro, indicando um quadro de “doença desmielinizante” (saiba mais abaixo) —, Guta lida com uma “longa e intensa” jornada para assimilar o fato. De inĂ­cio, compartilhou a notĂ­cia apenas com a famĂ­lia e o companheiro, o mĂşsico AndrĂ© PaixĂŁo. Teve medo de ser vista como “a atriz com esclerose” e, por isso, perder trabalhos.

A primeira pessoa, fora do nĂşcleo familiar, para quem Guta Stresser revelou o diagnĂłstico foi a tambĂ©m atriz Ana Beatriz Nogueira, que lida com o mesmĂ­ssimo tipo da doença, em forma remitente-recorrente (com a ocorrĂŞncia de surtos e melhora apĂłs o tratamento), desde 2009. As duas contracenaram juntas em “Malhação: vidas brasileiras”, em 2018. No ano seguinte Ă  novela, dez anos apĂłs ser diagnosticada com esclerose mĂşltipla, Ana Beatriz assumiu publicamente a condição.

— Ainda existe muito desconhecimento e preconceito com a doença — diz Guta. — E foi muito importante me abrir com a Ana. Na hora em que contei, ela me fez rir tanto no telefone… Foi maravilhoso! Ela pediu para eu ver a sigla da minha doença e confirmou que tĂ­nhamos o mesmo tipo. E aĂ­ falou: “Lembra que eu andava lá nos bastidores de ‘Malhação’ com uma bolsa tĂ©rmica cheia de refrigerante geladinho? EntĂŁo, Ă© porque o calor, para gente, Ă© um negĂłcio horrĂ­vel”.

Com a colega, Guta foi começando a se entender melhor e a ganhar mais calma. Doença crĂ´nica, autoimune e progressiva, a esclerose mĂşltipla afeta o sistema nervoso e piora Ă  medida que o sistema imunolĂłgico danifica uma substância chamada mielina, que protege as fibras nervosas do cĂ©rebro e da medula espinhal — daĂ­ o termo “doença desmielinizante”. Quando aparecem lesões ou cicatrizes, as cĂ©lulas nervosas nĂŁo conseguem se comunicar umas com as outras de forma eficaz.

A descoberta da doença

Os sintomas dessa doença complexa muitas vezes afetam a mobilidade, os sentidos, a fala, a visĂŁo e o equilĂ­brio. Guta reparou que “havia algo errado” pouco antes de participar do “Dança dos famosos”, no extinto “DomingĂŁo do FaustĂŁo”, em 2020. Em casa, levou um tombo, “como se de repente perdesse a força das prĂłprias pernas”, como ela conta.

Ela, que sempre teve facilidade em decorar textos e gravar marcas cênicas, passou a ter dificuldade com coordenação motora ao dançar no palco do programa, aos domingos. Esquecia, vez ou outra, palavras básicas e passou a sentir tonturas e a ouvir um zumbido com frequência. Acreditando estar com labirintite, procurou um otorrinolaringologista e, diante de exames clínicos que não apontavam qualquer problema, solicitou um requerimento para uma ressonância magnética na cabeça, pois estava angustiada com a falta de diagnóstico. Descobriu, então, a doença.

Apesar do mecanismo da esclerose múltipla ser conhecido, a causa ainda é um mistério. Médicos reforçam, porém, que há tratamento, a despeito de a cura ainda não ter sido descoberta. Hoje, Guta toma o medicamento oferecido pelo SUS e realiza exercícios físicos e cognitivos com regularidade para reduzir os efeitos da doença.

— Há horas em que o corpo parece enferrujar e o mĂşsculo endurece. EntĂŁo precisamos estar em movimento. Isso mexe com uma questĂŁo estrutural, já que preciso, sim, fazer ginástica, fisioterapia e uma autoanálise diária. Práticas que precisam ser feitas com o lado direito e esquerdo do corpo, alternadamente, sĂŁo boas, porque exercitam tambĂ©m o cĂ©rebro. Voltei a ler com mais afinco. NĂŁo paro mais um livro na metade, para treinar o foco — conta ela, que tambĂ©m costuma se dedicar a sequĂŞncias de ioga e exercĂ­cios de balĂ©. — Para mim, realmente as dores e todos os sintomas aumentam no verĂŁo, quando está quente. Com a Ana (Beatriz Nogueira), fui aprendendo muita coisa. Ela tem muito conhecimento sobre a doença e me acolheu muito e me fez tranquila quanto Ă  questĂŁo profissional. Ana me dizia, nesse perĂ­odo: “VocĂŞ nĂŁo vĂŞ que estou sempre trabalhando, menina?”.

Festa pelos 50 anos

Hoje, Guta reconhece que revelar publicamente a doença — e falar abertamente sobre ela — ajuda a minimizar os estigmas relacionados Ă  esclerose. E percebe, pouco mais de um ano apĂłs receber o diagnĂłstico, que nĂŁo dá para ficar paralisada diante do medo. Em 2022, ela encenará a peça “O casamento”, de Nelson Rodrigues, com a companhia Os Fodidos Privilegiados, em SĂŁo Paulo. Em breve, iniciará a leitura de “Ana e o tenente”, espetáculo inĂ©dito de Rafael Camargo.

— Passa um medo pela cabeça, do tipo: poxa, será que as pessoas vĂŁo parar de me chamar para trabalhar porque vĂŁo pensar ‘Ih, a Guta está com esclerose mĂşltipla’. Esse Ă© um medo. Meu trabalho Ă© meu prĂłprio corpo. Preciso decorar um texto ou entĂŁo levantar um copo ou dar dez passos sem cair (risos). Fiquei, sim, com medo de as pessoas entrarem num preconceito e nĂŁo me darem mais a oportunidade de trabalhar. Ser atriz Ă© o meu sustento — desabafa. — Tive muito medo em abrir a doença. Mas hoje penso que o que nĂŁo me mata me fortalece. Agora me sinto mais forte, de certa maneira. SĂŁo muitas pessoas que tambĂ©m tĂŞm esclerose mĂşltipla e vieram trocar informações. Vejo que há toda uma rede que se formou ao meu lado.

— Afinal de contas, é meio século. E agora, com a esclerose múltipla, tenho que comemorar muito esse aniversário (risos) — justifica ela, bem-humorada. — Fazer 50 anos assusta pelo lado natural da nossa finitude. Aliás, por acreditar na ciência, é que tenho a certeza dessa finitude. Sei que o relógio está correndo e que uma hora a vela apaga. Mas, vou te falar, estou muito melhor agora do que já estive antes, com relação à questão da idade. Realmente, me sinto melhor. Tem um lado da tranquilidade, sabe? Quero menos euforia.

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