Tarantino dirá adeus ao cinema depois do próximo filme para virar escritor

Por NOTĂŤCIAS AO MINUTO 11/07/2021 Ă s 10:50
© Getty

“Era Uma Vez em Hollywood”, o livro, abre com uma longuĂ­ssima conversa entre o ator Rick Dalton e o agente Marvin Schwarz, em que eles discutem os rumos da carreira do primeiro e a possibilidade de ele ir gravar na Europa.

SĂŁo vários minutos dedicados Ă  conversa, lenta, cheia de detalhes e verborrágica, para a qual grandes estĂşdios certamente torceriam o nariz. Tanto que ela está presente numa versĂŁo simplificada e encolhida em “Era Uma Vez em Hollywood”, o filme.

Os motivos para a existência da romantização do longa de 2019 aparecem logo de cara. Quentin Tarantino, o diretor, parece estar muito mais à vontade na versão de papel e tinta -ou PDF, que seja- para se alongar em aspectos pouco dinâmicos e visuais da trama sobre um antigo astro da televisão que passa por uma crise na carreira.

Tanto que, em conversa com a Folha, ele reafirma o desejo de se aposentar em breve do cinema, dizendo que Ă© Ă  literatura que ele pretende se dedicar depois disso. “Isso Ă© algo que eu gostaria muito de fazer, experimentar com os livros”, diz o cineasta, descontraĂ­do, em conversa por telefone.

Lançado no fim do mĂŞs passado no Brasil, o livro “Era Uma Vez em Hollywood” Ă© uma expansĂŁo da versĂŁo cinematográfica da obra, que acompanhou o ator vivido por Leonardo DiCaprio e tambĂ©m seu dublĂŞ, Cliff Booth, personagem que garantiu um Oscar a Brad Pitt, na Los Angeles dos anos 1960.

Ambientado às vésperas do assassinato da atriz Sharon Tate -esta interpretada por Margot Robbie-, pela seita sanguinária liderada por Charles Manson, o longa versava sobre o fim da Era de Ouro do cinema americano e brincava com a ascensão dos spaghetti western -os filmes de faroeste feitos na Itália.

“As coisas estavam mudando em Hollywood mais rápido do que em qualquer outro momento, e isso pegou todos de surpresa. Esse era um aspecto que me interessava muito e que me motivou a escrever o roteiro e, agora, o livro”, diz Tarantino.

“Há toda uma geração de atores que Ă© fruto dessa transição. E se vocĂŞ dirigisse de uma ponta Ă  outra de Los Angeles, naquela Ă©poca, vocĂŞ notaria que a cidade tambĂ©m estava mudando.”

O período foi reconstituído com imensa atenção aos detalhes nas telas, em 2019 -tanto que o longa abocanhou também o Oscar de direção de arte-, algo que se repete agora no livro, mesmo que este não tenha elementos visuais à disposição.

Podem dizer que este seria um verdadeiro desafio para um cineasta como Tarantino, que pesa a mão nas cenas gráficas de violência e que confia cegamente na trilha sonora para ajudá-lo a cativar e impactar o público. Mas ele diz que o processo foi muito mais fácil do que pensava.

“Provavelmente as coisas mais violentas que eu já vi foram em livros, principalmente em romances de faroeste ou de terror. Quando o autor faz um bom trabalho descrevendo o que acontece, Ă© tipo ‘puta merda’.

Quando vocĂŞ vĂŞ um filme, vocĂŞ se pergunta o tempo inteiro como aquelas coisas sĂŁo feitas. Mas, lendo um livro, seu cĂ©rebro faz todo o trabalho -Ă© o Ăşnico lugar onde os efeitos especiais funcionam perfeitamente”, diz

Este Ă© o primeiro livro de Tarantino, que assinou um contrato para um par de publicações com a americana HarperCollins. O prĂłximo projeto, “Cinema Speculation”, conta, nĂŁo será ficcional. Ele pretende se debruçar sobre o cinema dos anos 1970 e dividir com os leitores reflexões, opiniões e curiosidades sobre a produção do perĂ­odo, tudo pelo olhar de “um dos diretores mais celebrados do cinema e o seu mais devoto fĂŁ”, anunciou a editora.

É no meio literário que Tarantino vai se refugiar em breve, depois que finalizar seu projeto de lançar dez longas e se aposentar da cadeira de direção -“Era Uma Vez em Hollywood” Ă© o seu nono, já que o primeiro e o segundo volumes de “Kill Bill” valem por um Ăşnico filme.

Ele acha pretensioso já se considerar escritor após um único romance, mas confessa que o plano parece bom.

A ideia Ă© sair de cena dentro de alguns anos para se dedicar a outras romantizações -“CĂŁes de Aluguel” se apresenta como uma possibilidade-, histĂłrias originais e atĂ© mesmo ao teatro.

Não que no cinema ele não tenha conquistado um lugar de liberdade artística relativamente alta, mas as expectativas e as obrigações nas páginas são menores do que nas telas, acredita.

“Um filme envolve muitos dĂłlares e muitas pessoas trabalhando. É um investimento artĂ­stico gigantesco. Por outro lado, um livro trabalha com nĂşmeros muito menores, entĂŁo se vocĂŞ ler e gostar, Ăłtimo, se detestar, foda-se.”

Nesta estreia literária de Tarantino, personagens menores no cinema ganham novas e interessantíssimas camadas, como a própria Sharon Tate. À época da estreia, muitos criticaram o filme por dedicar poucas falas à atriz e por diminuí-la ao papel da loira bonitinha em busca da fama.

No livro, entendemos melhor sua trajetĂłria rumo a Hollywood e o casamento com o diretor Roman Polanski.

No final dele, aliás, não espere a catarse cinematográfica protagonizada por Pitt e seu pitbull e DiCaprio e seu lança-chamas, que impedem que o clã de Manson assassine Tate, reescrevendo a história. O desfecho nas páginas é outro, mais comedido -mas um que Tarantino diz ter sido uma alternativa imaginada inicialmente para o próprio longa.

Outro personagem que ganhou mais espaço em “Era Uma Vez em Hollywood” foi Cliff Booth, que agora tem seu passado como veterano da Segunda Guerra explicado, bem como a morte suspeita de sua prĂłpria esposa.

Nas páginas ele é fã de filmes europeus e asiáticos, especialmente de Akira Kurosawa, em oposição a Rick Dalton, que acredita que cinema de verdade é Hollywood.

Mas Tarantino conta que esse novo Cliff nĂŁo Ă© exatamente um cinĂ©filo -ele apenas acredita ser, mas nĂŁo entende tĂŁo bem assim o fazer cinematográfico. Logo ao ser introduzido, ele Ă© rápido ao disparar que “Antonioni Ă© uma fraude”.

“Esse Ă© um personagem que sĂł funciona tĂŁo bem no filme justamente porque ele Ă© um enigma. Muito Ă© apresentado e pouco Ă© explicado. Para o livro, achei que seria interessante conhecĂŞ-lo melhor. Diferentemente dele, eu sou um cinĂ©filo de verdade e posso atĂ© concordar com algumas coisas que ele diz, mas por razões diferentes”, diz, fugindo das crĂ­ticas ao companheiro italiano, diretor de “Blow-Up – Depois Daquele Beijo”.

Na vida real, quem vem recebendo crĂ­ticas Ă© o prĂłprio Tarantino, por causa de sua abordagem para Bruce Lee em “Era Uma Vez em Hollywood”, considerada racista por alguns e ainda mais problematizada com o lançamento do livro. Shannon Lee, filha do ator, disse recentemente estar “cansada de homens brancos”, que nĂŁo sabem quem de fato era seu pai.

O cineasta diz nĂŁo querer falar sobre o assunto, mas reafirma o que já disse em outras ocasiões: “Nunca foi minha intenção antagonizar a famĂ­lia dele ou fazer parecer que eu odeio o Bruce Lee, porque eu nĂŁo o odeio”.

Tarantino sempre concebeu os próprios roteiros, então sua história com a escrita não é tão nova quanto este romance. Suas duas estatuetas do Oscar, afinal, não são pelo seu trabalho como diretor, mas pelo de roteirista. Mas cinema é sua verdadeira paixão e, mesmo se de fato se aposentar, ele pretende manter a intimidade de sua relação com o meio.

Tanto que o cineasta comprou, na semana passada, mais um cinema histĂłrico de Los Angeles. “Ser exibidor Ă© legal”, ele diz, e funciona muito mais como um hobby do que como uma ocupação ou investimento. Ele nĂŁo Ă© fĂŁ das plataformas de streaming -algo que parece Ăłbvio para alguĂ©m que ainda filma em pelĂ­cula- e acredita que há espaço para as salas tradicionais, desde que elas ofereçam algo que motive o pĂşblico a sair de casa.

“Eu nĂŁo acho que nĂłs, cineastas, necessariamente temos uma obrigação em comprar cinemas e mantĂŞ-los abertos. Eu faço isso porque gosto, gosto de proporcionar esse tipo de experiĂŞncia para as pessoas”, afirma. “Eu nĂŁo sei como será o futuro, mas definitivamente ainda há mercado para os cinemas.

ERA UMA VEZ EM HOLLYWOOD
Preço R$ 49,90 (560 págs.); R$ 34,90 (e-book)
Autor Quentin Tarantino
Editora IntrĂ­nseca

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