Vendas de discos de vinil dispararam; mas essa volta Ă© real ou modinha?

Por UOL 19/08/2021 Ă s 09:40
Imagem: Reshot

Que o ressurgimento do vinil e da mídia física musical existe você já sabe ou deveria saber. Esta coluna, por exemplo, nem sequer existiria se esse processo não estivesse em curso desde a última década.

Mas até que ponto tal volta é uma realidade concreta e não uma marolinha?

Afinal, entramos no apogeu digital, com o domĂ­nio do streaming e de uma cultura de massa que nĂŁo dá indĂ­cios de arrefecimento —atĂ© a eclosĂŁo da revolta das máquinas prevista em “O Exterminador do Futuro”, pelo menos.

Antes de responder à pergunta acima, precisamos passar por sete números. Sete indicadores de que estamos testemunhando uma silenciosa revolução.

1.

O novo disco da apontadora de tendĂŞncias Billie Eilish, “Happier Than Ever”, lançado no Ăşltimo dia 30 de julho, vendeu 129 mil cĂłpias fĂ­sicas nos EUA em sua primeira semana. 73 mil discos de vinil (duplos), 46 mil CDs e quase 10 mil fitas cassete (!).

E o que mais impressiona: a soma —números de pré-venda inclusos— representou a maioria nas vendas totais que colocaram a californiana no número 1 da parada de álbuns da Billboard. 54% vendas físicas contra 46% digitais.

2.

Ainda falando de Estados Unidos, maior consumidor do planeta, o vinil por lá cresceu pelo 15º ano consecutivo, atingindo 27,5 milhões de cópias comercializadas em 2020, segundo a MRC Data (antiga Nielsen SoundScan).

Parece pouco diante de outras décadas, quando um só grande artista conseguia arrebatar tudo isso em cinco anos? Certamente. Mas perceba a curva: a alta em relação a 2019 foi de significativos 46%. Comparando com 2006, pouco antes do boom do vinil, temos crescimento de 3.000%.

3.

E a maré continua a subir na América do Norte. A procura por LPs mais que dobrou nos primeiros seis meses de 2021, em relação ao mesmo período do ano passado —metade dele sem pandemia. O aumento foi de surreais 108%, ou 19,2 milhões de discos vendidos.

Difícil encontrar segmento mais próspero. Mesmo com sérias restrições de circulação e economia estagnada, o norte-americano (e não só ele, diga-se) está comprando cada vez mais discos.

4.

Só para mensurar melhor, a marca de 19,2 milhões já é maior que a de CDs vendidos, que chegaram à casa de 18,9 milhões. Não por acidente, em 2020 o vinil superou seu sucessor pela primeira vez nos EUA desde 1986.

5.

Isso significa que o consumo do formato cresceu dez vezes mais que o de streaming (Spotify, Apple Music, YouTube etc), que saltou 10,8% no período. Obviamente, o faturamento do segmento digital é muito maior, mas trata-se de uma expansão monumental.

6.

Quer mais dado? E se eu te disser que os LPs foram responsáveis por simplesmente 27% das vendas de álbuns completos nos Estados Unidos em 2020, de acordo com a MRC?

Mas aqui é preciso ressalvar: essa fatia despenca para 3,6% quando computados streamings individuais de músicas e downloads de faixas individuais.

7.

E no Brasil, você deve estar se perguntando? Aqui embaixo, como diria o glorioso Biquini Cavadão, as leis são diferentes. Nosso mercado é baseado em discos usados, não temos um levantamento oficial de vendas e contamos com apenas duas fábricas de LPs como porte industrial.

Assim assim, segundo lojistas de São Paulo, a demanda durante a pandemia apresenta forte viés de alta, de 20% a 30%. Novas lojas estão pipocando em grandes cidades a todo momento. Nunca se vendeu tanto vinil na internet brasileira.

 

Mas o que isso tudo quer dizer?

Primeiro: não, não é uma modinha. Os discos realmente voltaram e não param de crescer. Voltou a ser um produto rentável para artistas e gravadoras, que está movimento milhões de dólares no mundo com lançamentos e relançamentos.

Segundo: o LP não crescerá a ponto de destronar as plataformas de streaming, se é isso que você está pensando. Em breve, esse movimento que atende basicamente a nichos baterá em um teto.

Mas não deixa de ser interessante testemunhar o brilhante renascimento de uma tecnologia centenária que voltou a conquistar espaço após praticamente ser dada como morta.

Como já datilografei nesta coluna, a origem desse resgate é sociológica. Vai além da nostalgia e deriva de uma gama de fatores. E um deles é justamente o fator digital dos hábitos modernos.

Em tempos de demandas, multitarefas e playlists como trilhas incidentais da vida de home office, há quem encontre no suporte físico e sua materialidade um antídoto contra o stress e a superficialidade cotidianos.

Eu sou um deles. E espero que você, por ter chegado até o fim deste texto, também seja (ou um dia venha a ser).

De resto, vida longa e prĂłspera ao “deep listening” e à mĂşsica como terapia e experiĂŞncia, independentemente da tecnologia envolvida.

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