Conheça o Portsmouth FC, o maior clube “comprado” pela torcida da Inglaterra

Por MAURO TAVERNARD, PARA CONTILNET 14/06/2021 Ă s 10:13
JĂĄ pensou ver seu time conquistando a Copa do Brasil e em apenas dois anos acompanhar nĂŁo apenas o rebaixamento para a segundona, mas a ameaça de falĂȘncia e fechamento do time? Foi mais ou menos isso que aconteceu com os torcedores do Portsmouth FC, tradicional equipe da Inglaterra, em 2008.
Neste ano o clube ganhou seu Ășltimo grande tĂ­tulo vencendo a FA Cup, equivalente Ă  nossa Copa do Brasil, com direito Ă  vitĂłria sobre o Manchester United de Rooney, Tevez e Cristiano Ronaldo dentro do Old Trafford. Mas, com o perdĂŁo do clichĂȘ “reverso”, depois da bonança veio a tempestade. E que tempestade. Uma verdadeira enchente.
A dĂ­vida acumulada em mais de ÂŁ60 milhĂ”es (R$ 300 milhĂ”es) fez com que a rigorosa Football League Association, entidade que rege o futebol profissional inglĂȘs, chegar a ameaçar o clube em fechar as portas, assim como aconteceu com os britĂąnicos Glasgow Rangers, que mudou a grafia do nome original e começou do zero na Ășltima divisĂŁo escocesa.
VĂĄrios dirigentes foram envolvidos em denuncias de corrupção dentro e fora do clube, resultando inclusive em prisĂ”es, como no caso de ex-dono Vladimir Antonov. A torcida agiu rĂĄpido, e logo no inĂ­cio da temporada 2009-2010, jĂĄ prevendo que a situação iria ficar insustentĂĄvel, resolveu criar um plano de emergĂȘncia com a criação do “Pompey Supporters Trust”, entidade sem fins lucrativos, formada por torcedores descontentes com a situação do clube na Ă©poca.
As conversas para a criação do PST iniciaram em setembro, sendo o dia 23 de dezembro de 2009 a data oficial de inauguração. A partir deste período, doaçÔes cada vez maiores foram feitas ao clube através de seus fãs, que começavam a ganhar espaço internamente, forçando a saída de mandatårios, como o saudita Ali AL-Faraj. O primeiro rebaixamento veio na temporada seguinte, para a Championship (segundona), curiosamente seguida de uma nova final da FA Cup, em Wembley, desta vez perdida para o Chelsea de Drogba e Frank Lampard.
Na temporada 2012-2013, a situação foi ainda mais agravada com um novo rebaixamento, voltando à disputa a League One (terceira divisão) após quase 40 anos. Com o fortalecimento do Pompey Supporters Trust, a torcida jå preparava o momento exato para agir de fato.
A situação era tĂŁo grave que alĂ©m das deduçÔes, iniciando os torneios com atĂ© 20 pontos negativos, ainda foi obrigado hĂĄ ficar vĂĄrios anos sem poder contratar atletas. Insatisfeitos, eles forçaram a saĂ­da do dirigente Balram Chainrai, mega empresĂĄrio chinĂȘs, que recusava vender o clube para a sua prĂłpria torcida. Foi necessĂĄria a intervenção da justiça, atĂ© que em nove de abril de 2014, pontualmente Ă s 10:30 da manhĂŁ, o clube alcançaria uma marca histĂłrica, se tornado um dos principais times comprados pela sua torcida no mundo, sendo o maior do tipo no paĂ­s.
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Exemplos como esse nĂŁo faltam no futebol inglĂȘs, como o caso do Wimbledon FC, que apĂłs entrar em falĂȘncia e deixar de existir, foi retomado por seus torcedores em 2002 com o nome AFC Wimbledon, iniciando sua nova histĂłria na Ășltima divisĂŁo do futebol profissional da Inglaterra. Tive a oportunidade de visitar o clube mĂȘs passado e vi de perto todo o empenho de seus fĂŁs em reerguer o clube do coração. A equipe estĂĄ disputando as semifinais da League Two, com boas chances de conseguir o acesso.
No dia 13 de abril de 2016, formalizei um acordo com o clube para divulgar o Portsmouth FC no Brasil, e o primeiro membro do PST que conheci foi Colin Farmery, porta voz e um dos fundadores do projeto. O PST possui poderes totais dentro do clube, conseguindo em 2014 quitar o débito com credores e ex-jogadores.
Na sala de reuniĂ”es do clube, Colin me dava Ă s boas vindas e mostrava com orgulho a Taça da FA Cup de 2008. “VocĂȘ vĂȘ como Ă© linda (a taça)? Queremos trofĂ©us como esse de volta ao clube”, disse Farmery, mostrando tambĂ©m as duas taças da primeira divisĂŁo de 49 e 50. Ele foi um dos pouco mais de 2.000 torcedores que doaram cerca de ÂŁ1.000 para a compra em definitiva do Portsmouth FC no valor de ÂŁ2,5 milhĂ”es. Quase 20.000 torcedores contribuem ativamente com o plano atualmente.
O empenho para quitar as dĂ­vidas tambĂ©m foi seguido de cautela pelos membros do PST. Como forma de evitar os casos de corrupção e abuso de poder do passado, cada decisĂŁo precisa ser aprovada pelo conselho, formado pela prĂłpria torcida, destituindo qualquer membro de poder absoluto. “O poder pode sempre subir a cabeça do ser humano, mas na nossa administração o egocentrismo e a corrupção nĂŁo tem vez”, afirma categoricamente Farmery.

Depois desse primeiro contato, pude conhecer o estĂĄdio Fratton Park no dia 16 de abril, na derrota para o Plymouth pela League Two. Cheguei ao local com uma hora de antecedĂȘncia para sentir aquela atmosfera Ășnica, de pessoas realmente envolvidas com um time de futebol, que lotam todos os jogos do Pompey na sua casa, seja em qual divisĂŁo ou campeonato o time estiver. Comecei meu passeio na tradicional porta de entrada, na espremida Fratton Road, e dei vĂĄrias voltas ao redor dele para ver de perto as pessoas que contribuĂ­am, em menor ou maior escala, para que o clube nĂŁo fosse extinto. A torcida Ă© uma das mais barulhentas da Inglaterra e vi isso na prĂĄtica.
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Foram oito jogos ao todo seguindo o Portsmouth FC, nos jogos no Fratton e nas outras cidades, com o apoio do clube. Fiz uma série de matérias sobre estes jogos e momentos para meus parceiros de mídia, e algumas dessas reportagens podem ser encontradas no meu blog (http://arquibancadafclube.blogspot.co.uk/). Nas longas viagens que fazia no Înibus junto com os torcedores, que duravam em média cinco horas, ouvi relatos genuínos de amor pelo clube.
Um deles foi Paul Allen, torcedor assĂ­duo do time desde a dĂ©cada de 70. “Acompanho esse clube desde que era um ‘bambino’, e jĂĄ passamos por altos e baixos. Apesar de estarmos na quarta divisĂŁo, todos reconhecem o empenho do Pompey Supporters Trust, e acreditamos num futuro melhor”, diz Allen, que fez a gentileza de trocar comigo a camisa do Pompey por uma do Vasco da Gama que havia trazido para a Inglaterra. Conheci tambĂ©m Paul Banks, que possuĂ­ a casa temĂĄtica do Portsmouth, e Stephen Tovey, que guiava as excursĂ”es nos “away games”, e muitos outros que me inspiraram a acreditar num futuro melhor para o futebol.

Tive a oportunidade de ver jogos em diferentes paĂ­ses nesta temporada, de clubes como PSG, Manchester United, Ajax, Liverpool e Rangers, e posso afirmar que fiquei decepcionado com o que vi. NĂŁo estou falando do que acontece dentro de campo, mas fora dele. Mesmo no mĂ­tico Anfield Road, com atmosfera tĂŁo comentada, nĂŁo fiquei impressionado. ApĂłs o bonito “You’ll never walk alone” antes da bola rolar, o que vi foram longos silĂȘncios durante o jogo contra o Augsburg pela Liga Europa.
Até o treinador Klopp chamava a torcida para apoiar o time em algumas ocasiÔes. A impressão que eu tive desses grandes times foram uma torcida repleta de turistas, clubes feitos para o comércio, visando apenas o lucro. Sempre que vejo os jogos de times ingleses pela TV tomo um susto, pois vejo torcidas cantando à plenos pulmÔes, mas dentro do estådio é totalmente diferente.
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No Fratton Park ou qualquer outro estĂĄdio em que fui nesta League Two, acompanhei uma torcida de verdade, que chegava a soar mais alto que a torcida dos adversĂĄrios fora de casa. Hoje o Pompey Supporters Trust conta com planos a partir de ÂŁ5 libras mensais, e todos os torcedores que entrevistei nos 35 dias em que estive na cidade colaboraram de alguma forma com o programa. Conheci o simpĂĄtico Ian MacInes, designado como presidente do movimento desde 2013, durante a viagem Ă  cidade de Hartlepool, aonde o time jogaria pela quarta divisĂŁo.
O simpático mandatário disse que os planos de retomada das grandes conquistas demandaria tempo, e o planejamento não será interrompido pelo que acontece dentro de campo. “Vamos seguir com nossos planos, sempre com as contas em dia e pagando os funcionários corretamente”, disse McInnes, que individualmente doo mais de £1 milhão para o Portsmouth.
Vender o clube para sheiks do Quatar ou empresårios americanos, como fizeram alguns clubes ingleses, estå fora de cogitação. As metas futuras são à volta da equipe para a Premier League e a construção de um novo estådio.
– Assim como Charles Dickens, Ă© motivo de orgulho da cidade
O escudo do clube também é o mesmo do emblema da cidade, e isso não é por acaso.
ApĂłs cada resultado, positivo ou negativo, Ă© visĂ­vel o impacto do Pompey nos moradores do municĂ­pio, mesmo os que nem gostam de futebol. Ele representa a cidade e tambĂ©m Ă© motivo de orgulho, assim como o escritor Charles Dickens (que nasceu em Portsmouth) e o fato do municĂ­pio ser sede da marinha real inglesa. No Ășltimo domingo (15), o time se despediu da temporada apĂłs perder por 1 a 0 para o Plymouth, nas semifinais dos playoffs da League Two.
Se vencesse, voltaria a disputar um jogo em Wembley apĂłs oito anos, na final do torneio. Mas a derrocada veio no Ășltimo minuto da prorrogação, com o gol de cabeça de Peter Hartley. Fiquei triste por nĂŁo poder cobrir um jogo em Wembley ainda este ano, e pelo desolamento na torcida adversĂĄria. SaĂ­ da cabine de imprensa no segundo tempo para acompanhar de perto, num sol escaldante de primavera, a torcida do Pompey, que lotava os quase dois mil lugares no setor visitante.
 Eles são os donos do time, os que decidem as diretrizes e mudaram sua história. Eles também choram e sorriem, dependendo do momento do Portsmouth, desde 1898, data de fundação do clube, muito antes do Pompey Supporters Trust ser criado. São eles também que verão bravamente a equipe iniciar a temporada 2016-2017 no quarto ano seguido na League Two, lotando o estådio em todos os jogos no Fratton Park e em qualquer espaço destinado para em estådios de times adversårios.
Para mais informaçÔes sobre o PST (http://www.pompeytrust.com/)

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