O presidente da CBF, RogĂ©rio Caboclo, foi formalmente acusado de assĂ©dio moral e sexual por uma funcionĂĄria da entidade. A denĂșncia foi protocolada no inĂcio da tarde desta sexta-feira na ComissĂŁo de Ătica da CBF e a Diretoria de Governança e Conformidade. Os abusos teriam ocorrido contra uma funcionĂĄria, autora da denĂșncia, que detalhou episĂłdios vividos por ela desde abril do ano passado. No documento, ela afirma ter provas de todos os fatos narrados e pede que o dirigente seja investigado e punido com o afastamento da entidade e, tambĂ©m, pela Justiça Estadual.
Entre os fatos narrados pela funcionĂĄria estĂŁo constrangimentos sofridos por ela em viagens e reuniĂ”es com o presidente e na presença de diretores da CBF. Na denĂșncia, a funcionĂĄria detalha o dia em que o dirigente, apĂłs sucessivos comportamentos abusivos, perguntou se ela se “masturbava”. Entre outros episĂłdios de extrema gravidade, segundo a funcionĂĄria, Caboclo tentou forçå-la a comer um biscoito de cachorro, chamando-a de “cadela”.
Procurado, RogĂ©rio Caboclo nĂŁo se pronunciou sobre a denĂșncia. Assim que o fizer, a posição serĂĄ acrescentada nesta reportagem.
A funcionĂĄria afirma ainda que ela teve sua vida pessoal exposta diante de outros funcionĂĄrios, com narrativas falsas criadas pelo presidente acerca de supostos relacionamentos que teria tido no Ăąmbito da CBF. Parte destes episĂłdios, de acordo com a manifestação da funcionĂĄria, aconteceu em reuniĂ”es que tinham a presença de todos os diretores da entidade. A denĂșncia diz ainda que os abusos eram de conhecimento de outros diretores.
– Tenho passado por um momento muito difĂcil nos Ășltimos dias. Inclusive com tratamento mĂ©dico. De fato, hoje apresentei uma denĂșncia ao ComitĂȘ de Ătica do Futebol Brasileiro e Ă Diretoria de Governança e Conformidade, para que medidas administrativas sejam tomadas – disse ao ge a funcionĂĄria, que nĂŁo terĂĄ seu nome revelado por proteção Ă vĂtima.
Segundo afirma a funcionĂĄria na denĂșncia, durante todo o perĂodo em que os abusos ocorreram, o presidente estava sob efeito de ĂĄlcool. No documento, ela relata pedidos de Caboclo para que ela escondesse bebidas em lugares previamente combinados, para que o dirigente pudesse beber ao longo do expediente.
O documento foi enviado por e-mail ao presidente da ComissĂŁo de Ătica e ao diretor AndrĂ© Megale, responsĂĄvel pela Governança e Conformidade. Esta diretoria faz parte da estrutura da CBF, enquanto a ComissĂŁo de Ătica Ă© um ĂłrgĂŁo que deve ser independente da entidade.
Crise na entidade
Embora a denĂșncia tenha sido oficializada nesta sexta, o assunto jĂĄ era de conhecimento de todos os diretores e vice-presidentes da CBF hĂĄ pelo menos um mĂȘs e meio, quando a funcionĂĄria, que faz parte do time de cerimonialistas da entidade, relatou para colegas e superiores que vinha sendo assediada pelo presidente. No dia 12 de maio, a ESPN e o ge publicaram que Caboclo enfrentava uma crise interna que podia encerrar seu mandato.
Entretanto, nada foi feito em relação ao tema, uma vez que o relato nĂŁo havia sido formalizado. A reportagem apurou que no mesmo dia em que informou sobre o caso, a funcionĂĄria tambĂ©m mostrou a pessoas prĂłximas algumas das provas que tinha, mas preferiu nĂŁo formalizar a queixa. No mesmo dia em que relatou os abusos, a cerimonialista pediu afastamento de suas atividades por motivos de saĂșde.
Considerada de perfil discreto e reservado, a funcionĂĄria estĂĄ na CBF desde 2012. Foi contratada para trabalhar na recepção e, posteriormente, promovida para o setor de cerimonial. Tida como extremamente profissional, ela Ă© querida entre colegas, presidentes de federação e parceiros da entidade que circulam com frequĂȘncia pelo prĂ©dio. Desde que se licenciou, ela tem ficado reclusa e se limitado a falar com seus advogados e familiares.
Antes da convocação do dia 14 de maio, Caboclo chegou a reunir a comissão técnica de Tite para dar sua versão dos fatos. Mas o clima de desconfiança entre o presidente e a comissão permanece.
Nesta semana, o dirigente conversou com os jogadores da Seleção sobre a decisão de mudança da sede da Copa América para o Brasil. Atletas mais experientes do elenco externaram a insatisfação por terem descoberto pela imprensa e pelas redes sociais que o Brasil sediarå o torneio. Eles também questionaram sobre a possibilidade de a competição não ser realizada.
– Temos uma opiniĂŁo muito clara e fomos lealmente, numa sequĂȘncia cronolĂłgica, eu e Juninho, externando ao presidente a nossa opiniĂŁo. Depois, pedimos aos atletas para focarem apenas no jogo contra o Equador. Na sequĂȘncia, solicitaram uma conversa direta ao presidente. Foi uma conversa muito clara, direta. A partir daĂ, a posição dos atletas tambĂ©m ficou clara. Temos uma posição, mas nĂŁo vamos externar isso agora. Temos uma prioridade agora de jogar bem e ganhar o jogo contra o Equador. Depois desses dois jogos, vou externar a minha posição – disse Tite em coletiva na quinta-feira.
A Seleção enfrenta o Equador, nesta sexta, às 21h30, em Porto Alegre, pelas eliminatórias para a Copa. Na terça, os comandados de Tite vão encarar o Paraguai, em Assunção.
Veja as puniçÔes previstas pelo CĂłdigo de Ătica e Conduta da CBF:
Art. 21 As violaçÔes a este CĂłdigo pelas pessoas a ele submetidas ou as infraçÔes de quaisquer outras regras e regulamentos da CBF, das FederaçÔes, das Ligas e dos Clubes sĂŁo passĂveis de punição, cumulativas ou nĂŁo, das seguintes sançÔes:
- I) AdvertĂȘncia, reservada ou pĂșblica;
- II) Multa, de até R$ 500.000,00 (quinhentos mil reais);
- III) Prestação de trabalho comunitårio;
- IV) DemissĂŁo por justa causa;
- V) Suspensão, por até 10 anos;
- VI) Proibição de acesso aos estådios, por até 10 anos;
- VII) Proibição de participar de qualquer atividade relacionada ao futebol, por até 10 anos;
- VIII) Banimento.
Art. 22 A ComissĂŁo de Ătica poderĂĄ recomendar ao ĂłrgĂŁo apropriado da CBF que proceda notificação Ă s autoridades policiais e judiciais competentes.
PARĂGRAFO ĂNICO A aplicação de sançÔes aos dirigentes eleitos ficarĂĄ sujeita Ă confirmação das Assembleias Gerais Administrativas das respectivas entidades, exigindo-se aprovação de 3/4 (trĂȘs quartos) da totalidade de seus membros.
Art. 35 Em conformidade com o disposto no Estatuto da CBF, a ComissĂŁo de Ătica Ă© definida como instĂąncia independente com poderes para aplicar as sançÔes por infraçÔes Ă©ticas Ă s pessoas submetidas a este CĂłdigo.
Art. 36 Salvo disposição em contrårio, as violaçÔes a este Código estarão sujeitas às sançÔes nele previstas, por conduta dolosa omissiva ou comissiva.
Art. 37 A ComissĂŁo de Ătica serĂĄ composta por um Presidente, uma CĂąmara de Investigação e uma CĂąmara de Julgamento. Art. 38. Cada uma das CĂąmaras serĂĄ composta por 3 (trĂȘs) membros, dentre eles o Presidente da ComissĂŁo de Ătica, designados pela Diretoria da CBF, de acordo com a natureza das demandas.

