Halterofilista vira símbolo do paradesporto no Haiti

Por Marina, ContilNet 09/08/2015 às 10:06
Projeto Agitos Foundation tenta atrair deficientes para o paradesporto no Haiti (Foto: Reprodução/Facebook)
Projeto Agitos Foundation tenta atrair deficientes para o paradesporto no Haiti (Foto: Reprodução/Facebook)

Projeto Agitos Foundation tenta atrair deficientes para o paradesporto no Haiti (Foto: Reprodução/Facebook)

Nephtalie JN Louis tentou erguer 69kg no supino. Mas, sobre seus ombros, havia um peso muito maior. Havia a pressão de um país que não a apoia o bastante na preparação, mas que cobrava uma medalha para que o limitado projeto paralímpico tivesse continuidade até os Jogos do Rio. Única atleta a representar o Haiti nos Jogos Parapan-Americanos, a halterofilista é a personificação da luta de um grupo idealista que tenta superar o descaso do governo e desenvolver a cultura do paradesporto em uma nação com imenso potencial humano para tal.

Com histórico de confrontos civis e militares em disputas pelo poder e de tragédias naturais, como o terremoto que matou mais de 100 mil pessoas em 2010, o Haiti é um país com um percentual alto de deficientes em sua população. Segundo estimativas do governo nacional, mais de 800 mil pessoas dentre os pouco mais de 10 milhões de habitantes da ilha possuem alguma limitação física genética ou adquirida. Naphtalie está nestas estatísticas. Aos oito meses de idade ela teve poliomielite e ficou com as pernas atrofiadas.

O esporte a ajudou a driblar as muitas dificuldades. O halterofilismo a levou ao seu primeiro Parapan, no Rio de Janeiro, em 2007. No ano seguinte, viajou à Pequim, onde foi porta-bandeira da cerimônia de abertura, mas não pôde competir por ter excedido o limite de peso da categoria. Para o ciclo de Londres 2012, o que poderia ser mais um capítulo de superação tornou-se frustrante. Por determinação do Comitê Paralímpico do Haiti, Naphtalie migrou para o atletismo.

 Nephtalie durante sua participação no Parapan de Toronto (Foto: Daniel Zappe/MPIX/CPB)

Nephtalie durante sua participação no Parapan de Toronto (Foto: Daniel Zappe/MPIX/CPB)

– Eu preferia o halterofilismo, foi onde comecei e me sentia bem. Mas é um esporte em que é preciso estar muito bem equipado, é difícil. O Comitê achou que seria mais fácil me manter no lançamento de dardo e no arremesso de peso. Mas não deu certo.

Os números frios dão razão a Nephtalie mas, dadas as circunstâncias, ela se revela muito exigente. Apesar de ter tido praticamente apenas dois meses de treinos intensos, conquistou suas melhores marcas da temporada nos dois eventos, disputados com junção das classes F57 e F58. Em ambas as provas a haitiana terminou na penúltima colocação, sendo 16ª no arremesso, tendo alcançado 4,75m, e 17ª no lançamento, tendo 10,69m como melhor marca entre três tentativas.

A atleta renovou seu fôlego esportivo ao retornar ao levantamento de peso e contou com o apoio valioso de um apaixonado pelo esporte paralímpico. Ex-diretor executivo do Ministério dos Esportes do Haiti, Daniel Pierre-Charles assumiu o cargo de secretário geral do Comitê Paralímpico do país. Incansável em seu esforço para promover o paradesporto, o dirigente trabalha tanto no garimpo de possíveis talentos, sobretudo através da Agitos Foundation, quanto buscando melhores condições para atletas como Nephtalie – inclusive bancando do próprio bolso viagens, transporte e alimentação durante competições.

– Infelizmente nosso governo ainda não vê o potencial que nós vemos. Desde os Jogos de Londres recebemos apenas 10 mil dólares para arcar com todas as despesas. Não é suficiente para custear nem o básico – disse Pierre-Charles.

Foram as economias dele que permitiram que Nephtalie competisse no México em abril deste ano. Segundo as regras de classificação do Comitê Paralímpico Internacional (IPC) para os Jogos do Rio, um atleta deve, entre outras exigências, competir em dois eventos internacionais sancionados pela entidade entre abril de 2014 e fevereiro de 2016, um deles obrigatoriamente em 2015.

Mesmo sem índice para os Jogos Parapan-Americanos, a haitiana chegou à disputa em Toronto através de um convite – e desta vez o Ministério das Finanças, na última hora, arcou com as passagens para o Canadá. Na categoria até 50 kg, vencida pela brasileira Maria Rizonaide, a caribenha falhou nas três tentativas. Primeiro tentou erguer 54 kg e, nas duas chances seguintes, arriscou o supino com 69kg, em um esforço para tentar subir ao pódio e ultrapassar o índice paralímpico de 62kg. Foi em vão. Ao deixar a área dos atletas, Nephtalie estava muito abalada e foi econômica nas palavras para segurar o choro.

– Esta foi minha última chance. Eu precisava ganhar uma medalha aqui para poder continuar e ir para o Rio. Eu não tive sucesso..

Oficialmente, as esperanças não terminaram. O levantamento de peso é uma das modalidades do programa paralímpico que permite ao IPC a distribuição de convites. Mas conseguir este wildcard é improvável, e a equipe prefere não alimentar ilusões. Coissi Dogbe, técnico formado em Cuba e que acompanhou a haitiana tanto no atletismo como no halterofilismo, lamenta a situação do paradesporto no país.

– Ela vive numa condição muito difícil, muito miserável, e mesmo com muitos problemas pessoais não deixa de se dedicar nos treinamentos. Ela pratica porque gosta, para fazer parte da sociedade. Pelo governo temos apoio zero, do setor privado menos ainda. Temos uma estrutura muito precária para treinar. O ginásio de treino é ruim, não temos um banco paralímpico, mas sim uma espécie de tábua, e os pesos não são adequados. Estamos aqui por um esforço do secretário. É como se o nosso Comitê Paralímpico não existisse. Não existe a estrutura, não existe investimento, logo não existe interesse das pessoas em virarem atletas. O Comitê não pode oferecer nada aos atletas, então quem vai querer? É muito difícil.

Nephtalie não recebe remuneração para competir. Coissi não ganha salários para treiná-la. Aos 39 anos,  vive com a mãe, e ele se sustenta através do futebol: é técnico, dá aula em uma escolinha e também apita jogos. No Haiti, tentar viver do esporte paralímpico ainda é um sonho, uma escolha pesada a se fazer.

Conteúdo Original / Fonte: Globo Esporte

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