Times LGBTs se espalham pelo Brasil: conheça as equipes inclusivas

Por Marina, ContilNet 28/06/2022 Ă s 09:53
Angels Volley Ciara Pitima vôlei — Foto: Gustavo Dantas/Mavo

As cores do arco-Ă­ris fazem parte do uniforme do Angels. O time de vĂ´lei estampa o orgulho de abrir as portas para as pessoas LGBTQIAP+.

É um dos 59 coletivos inclusivos que se espalharam pelo Brasil nos últimos anos e acolheram centenas de atletas amadores, segundo um estudo da organização não governamental Nix Diversidade

. São polos de resistência e acolhimento para a comunidade no esporte. A partir desta terça-feira, Dia Internacional do Orgulho LGBTQIAP+, o GE SP estreia uma série especial que mostra a história de alguns dos times pioneiros do movimento.

Os coletivos inclusivos sĂŁo um fenĂ´meno recente no Brasil. O Real Centro, time de futebol de SĂŁo Paulo para homens gays, foi a primeira equipe LGBT do paĂ­s, com 33 anos nos campos. No entanto, a maioria das equipes mapeadas pela Nix Diversidade tem menos de 15 anos de existĂŞncia. Esses times atuam em 21 modalidades – sete delas olĂ­mpicas – e estĂŁo espalhados por nove estados brasileiros – BA, CE, DF, GO, MG, PR, RJ, RS e SP.

– Os times LGBTs começaram a sair do escuro e mostrar que tĂŞm o seu lugar. Seja homem, seja mulher, seja trans, seja gay, seja lĂ©sbica, seja quem for. Hoje tem espaço para todo mundo no futebol e onde quer que seja – disse Rafael Silva, jogador do Real Centro.

André e Rafael Silva são jogadores do Real Centro — Foto: Gustavo Dantas/Mavo

André e Rafael Silva são jogadores do Real Centro — Foto: Gustavo Dantas/Mavo

Real Centro, o pioneiro

“Muita gente nĂŁo podia aparecer, nĂŁo queria que a famĂ­lia soubesse. Como atĂ© hoje Ă© em muitos casos.” Valdo Silva conta que tudo era muito diferente quando o grupo de amigos fundou o Real Centro, em 1989. O time de futebol nĂŁo podia revelar que era formado por homens gays.

– Quando jogamos entre a gente, a gente faz as brincadeiras todas, mas quando a gente ia jogar fora, tinha que ficar aquela repressĂŁo, ficar reprimido, porque se sabem que o time Ă© gay, os caras ficam loucos! Ainda mais se eles perderem! – conta Valdo, que aos 60 anos ainda frequenta os treinos do Real.

Real Centro é o primeiro time LGBT do Brasil — Foto: Marcos Guerra

Real Centro é o primeiro time LGBT do Brasil — Foto: Marcos Guerra

Segundo o estudo da Nix Diversidade, 89,9% da população LGBTQIAP+ afirma que há muito preconceito no futebol ainda hoje. Por isso, o primeiro time LGBT do Brasil demorou mais de uma década para começar a se posicionar como um coletivo inclusivo e só cresceu desde então. Os fundadores estimam que mais de 200 jogadores já passaram pela equipe em 33 anos de existência.

– Esse grupo de amigos foi se fortalecendo ao longo dos anos e hoje abre espaço nĂŁo sĂł para o coletivo LGBT mas para qualquer um que quiser se inserir no esporte. O Real Ă© muito isso, Ă© muito famĂ­lia e muito acolhedor em relação a qualquer gĂŞnero. O Real Ă© um lugar de segurança – disse Rafael Silva, de 28 anos, goleiro do Real.

O esporte que transforma

Quase 30 anos depois do surgimento do Real Centro, nasceu o primeiro e até hoje único time do Brasil para mulheres trans. O Angels Volley já tinha uma década acolhendo principalmente homens gays quando criou um projeto focado na comunidade trans feminina. O coletivo atua para além das quadras, oferece acompanhamento médico, fisioterapia, endocrinologista, psicólogo e amparo judicial. Ainda tem parcerias para que as jogadoras completem o ensino médio e ganhem bolsas universitárias.

– É totalmente transformador, uma vez que foi muito difĂ­cil encontrar esse lugar de pertencimento, onde eu possa me sentir segura, onde eu possa me sentir Ă  vontade, sem passar constrangimento, porque muitas pessoas trans tĂŞm essa dificuldade de se encaixar em um lugar onde ela tem sua integridade respeitada. Na escola eu lembro que era horrĂ­vel assim. Sempre tinha um comentário chato, situações que me levaram a sair triste da quadra. EntĂŁo tenho esse lugar onde eu possa viver, fazer uma coisa que eu goste, uma prática esportiva que me faz bem, alimentar ainda amizades. E o Angels para mim Ă© minha famĂ­lia – contou Ciara Pitima, jogadora do Angels Volley.

Ciara Pitima Angels Volley vôlei — Foto: Marcos Guerra

Ciara Pitima Angels Volley vôlei — Foto: Marcos Guerra

O projeto para mulheres trans do Angels é referência internacional por entender que não basta uma bola e uma quadra para garantir a prática esportiva a uma população com expectativa de vida de apenas 35 anos no Brasil.

A prática esportiva Ă© mais um direito básico negado Ă s pessoas transgĂŞnero. Um espaço que aos poucos está sendo conquistado. Dos 59 coletivos mapeados pelo estudo da Nix Diversidade no paĂ­s, seis sĂŁo focados na comunidade “T”. AlĂ©m do Angels no vĂ´lei, cinco times de futsal e futebol sĂŁo um lugar seguro para homens trans, como o Meninos Bons de Bola (MBB).

– O acolhimento acho que Ă© essencial do time. Pelo fato de eu ser homens trans, nunca tinha tido afeto ou proximidade com alguĂ©m do tipo. Cheguei com medo, sem chuteira, sem saber como ia ser, como iam me tratar, como eles iriam me olhar, e foi sensacional. No primeiro dia: “Vem, fica tranquilo, fica Ă  vontade, a gente vai arrumar chuteira para você”. É uma famĂ­lia incrĂ­vel. É pau para toda obra. O que vocĂŞ precisar, tipo da bola e atĂ© alĂ©m – contou Murillo Albuquerque, jogador do MBB.

Tamanduás-Bandeira, um passo além

Todos os 59 coletivos mapeados pela Nix Diversidade não são profissionais e disputam torneios amadores, não raras vezes exclusivos para pessoas LGBTQIAP+. Um desses times, porém, deu um passo além neste ano. O Tamanduás-Bandeira se tornou a primeira equipe inclusiva a disputar uma competição oficial no Campeonato Paulista de rugby.

– Foi uma aventura mesmo. Primeiro time de rugby LGBT dentro de um campeonato federado, e está sendo um desafio para a gente. Temos poucos jogadores, mas muita vontade de jogar. É uma experiĂŞncia Ăşnica. A gente está em campo, ocupando esse espaço, criando representatividade dentro dos esportes, principalmente dentro do rugby, que Ă© um esporte democrático, e a gente quer tornar mais democrático ainda – disse Alan Alves, jogador do Tamanduás-Bandeira.

Tamanduás-Bandeira rugby — Foto: Weslley Amorim Moreira/Tamanduás-Bandeira

Tamanduás-Bandeira rugby — Foto: Weslley Amorim Moreira/Tamanduás-Bandeira

O time de rugby de São Paulo é aberto a todos os interessados, sem restrições de gênero ou sexualidade. No Campeonato Paulista, o Tamanduás-Bandeira só tem quórum para disputar a categoria masculina. Entre seus jogadores federados está Tiely, um homem trans que simboliza a mensagem de inclusão da equipe.

– Foi uma porta que foi aberta, eu entrei e estou aproveitando atĂ© agora. A gente abre uma trincheira e deixa a trincheira aberta para outras pessoas entrarem e ir Ă  guerra juntos, nĂ©!? A gente nĂŁo pode deixar de olhar pra trás, porque outras pessoas abriram trincheiras para que outras pudessem guerrear e lutar. EntĂŁo minha mensagem Ă© essa representatividade dentro do time – disse Tiely.

Tiely Tamanduás-Bandeira rugby — Foto: Marcos Guerra

Tiely Tamanduás-Bandeira rugby — Foto: Marcos Guerra

ConteĂşdo Original / Fonte: GE

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