Arqueólogos identificam 48 ilhas construídas por indígenas na Amazônia da era pré-colonial

Por G1 20/02/2021 Ă s 09:58

As longas distâncias percorridas em voadeiras e as conversas informais com ribeirinhos resultaram no registro de 48 ilhas criadas artificialmente por indígenas no período anterior à era-colonial na floresta amazônica.

Entre 2015 e 2019, arqueólogos do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá trabalharam na identificação dessas estruturas, localizadas em áreas de várzea do Médio e Alto Solimões, no Amazonas.

“Um dos principais pontos de importância (da identificação das ilhas) Ă© a engenhosidade humana frente Ă s adversidades, pois na AmazĂ´nia se tem uma ideia vaga e pensa que populações que viveram aqui nĂŁo conseguiram desenvolver estratĂ©gias e evoluir. É uma resposta positiva de como se integrar Ă  natureza e como aproveitar recursos de uma maneira mais ordenada e se ter segurança, alimento, fatura. É um legado que a gente precisa passar das populações que viveram na floresta amazĂ´nica“, declarou Márcio Amaral, pesquisador do instituto que encontrou as ilhas.

 

Ilustração de indivíduo da população indígena Omágua, atual Kambeba.  — Foto: Alexandre Rodrigues Ferreira/Arquivo pessoal

Uma das hipóteses dos arqueólogos envolvidos no levantamento aponta que essas ilhas podem ter sido construídas por indígenas Omáguas, ancestrais dos Kambeba, população composta atualmente por cerca de 1,5 mil indivíduos, segundo o Instituto Socioambiental (ISA).

Os pesquisadores acreditam também que há chances dessas áreas terem sido ocupadas ainda entre os séculos XV e XVI, época em que os europeus começaram a passar pela Amazônia – principalmente no entorno do rio Solimões. O indício reforça a teoria de que o bioma possivelmente já era ocupado nesse período por grupos organizados e complexos.

“Essas ilhas foram encontradas meio que por acaso. Por acaso por nĂłs, pesquisadores. Na verdade, a gente estava fazendo trabalho de levantamento de sĂ­tio. Eram áreas que a gente nĂŁo conhecia nada, nĂŁo sabia nem como eles eram. Isso Ă© interessante porque todas essas informações já vieram dos moradores. SĂł vamos incorporando essas informações”, complementou Eduardo Kazuo, coordenador do grupo de pesquisa em arqueologia do Instituto Mamirauá.

Ilhas artificiais foram identificadas em áreas de várzea do Médio e Alto Solimões, no Amazonas.  — Foto: Earth Studio/Reprodução

Ilhas artificiais foram identificadas em áreas de várzea do Médio e Alto Solimões, no Amazonas. — Foto: Earth Studio/Reprodução

Mas os dados ainda são preliminares. Segundo os arqueólogos, ainda não se tem conhecimento, por exemplo, sobre o período de ocupação das ilhas ou quais as culturas indígenas que estavam ali.

Os “aterrados”, como sĂŁo chamados pelas pessoas que moram nas proximidades, medem pelo menos de um a trĂŞs hectares por sete metros de largura. Márcio Amaral cita que somente na Ăşltima expedição, ocorrida em novembro de 2019 e com duração de 12 dias, encontrou 13 ilhas. Todo o trabalho dos pesquisadores abrange uma área de 180 mil km² e 350 sĂ­tios arqueolĂłgicos já foram mapeados.

Resquícios de materiais foram encontrados nas ilhas artificiais identificadas na Amazônia.  — Foto: Márcio Amaral/Instituto Mamirauá

Resquícios de materiais foram encontrados nas ilhas artificiais identificadas na Amazônia. — Foto: Márcio Amaral/Instituto Mamirauá

“O primeiro traço diagnĂłstico dessas ilhas Ă© a forma singular na paisagem. Há um microbioma nessas ilhas que tem relação com plantas Ăşteis, árvores frutĂ­feras, algumas plantas medicinais. Se tem uma floresta antropogĂŞnica, que tem um fundo de criação humana, com árvores e espĂ©cies Ăşteis aos seres humanos que Ă© diferenciado do entorno imediato da várzea. A cobertura florestal Ă© diferente”, acrescentou.

Márcio tambĂ©m conta ter encontrado resquĂ­cios de material cerâmico nas ilhas. Segundo o arqueĂłlogo, cacos, potes, panelas e tigelas achados eram usados, principalmente, para preparar os alimentos e armazená-los, “alĂ©m de várias outras coisas de origem orgânica, como ossos, carvões, atĂ© o chamado ‘pĂŁo de Ă­ndio’, que pode ser mandioca ou milho, processado e armazenado de maneiras que poderiam ser estocado de um ano para o outro”, acrescentou.

PrĂłximos passos

O material encontrado pelos pesquisadores ainda precisa ser registrado junto ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) para que possam, então, conseguir recursos e retornar a campo. O objetivo é seguir com o trabalho de escavação para futuras análises. Conforme Eduardo Kazuo, um relatório sobre as identificações está sendo preparado para ser encaminhado ao instituto.

Somente no Amazonas, 395 sítios arqueológicos estão registrados no Cadastro Nacional de Sítios Arqueológicos (CNSA) e mais de mil já foram identificados, conforme o IPHAN. Todos são protegidos pela Lei Federal 3.924, de julho de 1961. Ainda conforme o IPHAN, o tipo de sítio mais conhecido no estado do Amazonas são os que estão relacionados com as ocupações ceramistas.

“Contudo, na minha visĂŁo, os agentes de preservação mais importantes dos sĂ­tios arqueolĂłgicos, sobretudo na AmazĂ´nia, sĂŁo as comunidades que ali vivem no entorno e muitas vezes sobre os sĂ­tios arqueolĂłgicos, que conhecem esses sĂ­tios, auxiliam os pesquisadores a identificarem esses lugares, registrarem e pesquisarem. Eu vejo os moradores dos sĂ­tios arqueolĂłgicos como os principais agentes de conservação“, declarou a arqueĂłloga Helena Lima, pesquisadora titular do Museu Paraense EmĂ­lio Goeldi (MPEG).

“Na Amazônia, a gente não tem muita pedra como material construtivo. Não tem muita rocha. Então, o que que era utilizado por esses povos como material construtivo que viviam ali? Era a própria terra, o solo que era movimentado, coisas de madeira e de palha que se apodrecem muito rapidamente ao longo do tempo. Então normalmente um sítio arqueológico na Amazônia vai ter muita cerâmica fragmentada na superfície, vai ter restos de plantas e ossos de animais, vai ter solos escuros, que são as terras pretas, mas em alguns lugares vamos encontrar aterros artificiais, que são como ilhas”, explicou o arqueólogo e professor da USP Eduardo Neves.

Ainda de acordo com o professor Eduardo Neves, tais registros revelam informações sobre uma AmazĂ´nia ocidental que Ă© “absolutamente desconhecida”.

“E segundo que mostra uma variabilidade, pois se a gente olhar para os povos indĂ­genas hoje no Brasil e na AmazĂ´nia, a gente percebe que tem uma diversidade cultural muito grande que pode ser aferida das diferentes, centenas, dezenas de lĂ­nguas indĂ­genas faladas na AmazĂ´nia, na AmĂ©rica do Sul, mas na AmazĂ´nia em particular”, reforçou.

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