Desembargador repreende advogada por estar com bebĂȘ em sessĂŁo online: VÍDEO

Por Marina, ContilNet 24/08/2022 Ă s 09:42
Advogada repreendida por bebĂȘ chorar em sessĂŁo. — Foto: Divulgação

CLIQUE AQUI para ver o vĂ­deo.

A advogada Malu Borges Nunes foi repreendida pelo presidente da 2ÂȘ CĂąmara CĂ­vel do Tribunal de Justiça do Amazonas (TJ-AM), o desembargador Elci SimĂ”es, na manhĂŁ de segunda-feira (22), por estar com a filha, uma bebĂȘ de seis meses, durante uma sessĂŁo plenĂĄria realizada por meio de videoconferĂȘncia. Um vĂ­deo mostra o momento da repreensĂŁo e o caso ganhou repercussĂŁo nas redes sociais (veja acima).

Na sessĂŁo, Ă© possĂ­vel ouvir que hĂĄ resmungos da bebĂȘ ao fundo. A criança estava no colo da mĂŁe, a advogada Malu Borges, que trabalhava no regime home office.

O desembargador Elci SimÔes paralisou a sessão por alguns segundos para repreender a advogada, afirmando que o barulho que a criança estava fazendo atrapalhavam a concentração da sessão.

“Eu queria pedir para Dra. Malu que… quebra o silĂȘncio das sessĂ”es do tribunal, interferĂȘncias outras na sala em que a senhora estĂĄ. Isso prejudica os colegas. NĂŁo deixe que outras interferĂȘncias, barulhos, venham atrapalhar nossa sessĂŁo porque Ă© uma sessĂŁo no tribunal, nĂŁo pode ter cachorro latindo, criança chorando. Se a senhora tiver uma criança, coloque no lugar adequado. SĂŁo barulhos que tiram a nossa concentração. A senhora precisa ver a Ă©tica da advogada”, afirmou SimĂ”es.

A advogada, que estava amamentando a filha, respondeu a repreensĂŁo com um “Ok, excelĂȘncia, agradeço a compreensĂŁo”.

RepercussĂŁo

O caso teve grande repercussĂŁo nas redes sociais. Enquanto uns criticaram a atitude do desembargador, outros apoiaram, ressaltando que sessĂ”es do gĂȘnero precisam de seriedade.

Em nota, Malu Borges pediu respeito e disse que, como outras mães no país, exerce jornada tripla, sem apoio (leia a nota completa no final da matéria).

“NĂłs mulheres sĂł queremos que nossa voz seja ouvida, que nos respeitem no nosso ambiente de trabalho e na sociedade. Que nossa Ă©tica profissional nĂŁo seja questionada por estarmos exercendo dupla/ tripla jornada sem qualquer tipo de apoio. A minha realidade Ă© a de milhĂ”es de brasileiras – trabalhadora e mĂŁe”, afirmou a advogada.

Malu afirmou, ainda, que nĂŁo falhou com a Ă©tica profissional. “Minha Ă©tica poderia ser questionada somente se eu deixasse de cumprir prazos e realizar atos, o que nĂŁo Ă© o caso. NĂŁo sou antiĂ©tica por trabalhar em home office com a minha filha no colo”, afirmou.

A advogada tambĂ©m lembrou um caso parecido que aconteceu durante uma sessĂŁo do Superior Tribunal de Justiça (STJ). Na ocasiĂŁo, um advogado teve atendimento antecipado por estar com o filho de 1 ano, durante uma sessĂŁo por videoconferĂȘncia. Malu caracterizou o episĂłdio que viveu como machismo estrutural, quando um comportamento reforça a desigualdade entre homens e mulheres.

O desembargador Elci SimĂ”es tambĂ©m se manifestou sobre o caso. Ele afirmou que recomendou, de formada educada, o silĂȘncio durante as sessĂ”es.

“Recomendou-se educadamente e com todo o cuidado evitar barulhos durante a sessĂŁo, ainda mais em respeito Ă  presença de outros advogados em audiĂȘncia pĂșblica complexa e extensa”, disse.

A Ordem dos Advogados do Brasil do Amazonas (OAB-AM) apontou que a advogada, ao participar de uma sessĂŁo remota de julgamento no TJAM, dentro de sua residĂȘncia e ao lado de sua filha, nĂŁo cometeu qualquer infração disciplinar nem violou preceito do CĂłdigo de Ética e Disciplina da OAB. A Ordem ainda ressaltou o papel da mĂŁe no direito. (leia a nota completa no final da matĂ©ria)

“A OAB-AM ressalta a importĂąncia da sustentação oral, direito de todo profissional da advocacia. O que ocorreu no referido julgamento Ă© a realidade da mĂŁe profissional autĂŽnoma que tambĂ©m nĂŁo tem como controlar o choro de uma criança ou exigir dela o silĂȘncio, fato que expĂ”e a necessidade de conscientização sobre a maternidade e a vida profissional”.

Nota da advogada Malu Borges Nunes

Nós mulheres só queremos que nossa voz seja ouvida, que nos respeitem no nosso ambiente de trabalho e na sociedade. Que nossa ética profissional não seja questionada por estarmos exercendo dupla/ tripla jornada sem qualquer tipo de apoio.

A minha realidade Ă© a de milhĂ”es de brasileiras – trabalhadora e mĂŁe. Obviamente que se eu tivesse uma opção melhor para deixar a minha filha (que acabou de completar 6 meses e depende de mim para tudo) enquanto eu trabalho eu aderiria, pois, a maior prejudicada sou eu, que trabalho os 3 turnos para dar conta da quantidade de tarefas.

Minha Ă©tica poderia ser questionada somente se eu deixasse de cumprir prazos e realizar atos, o que nĂŁo Ă© o caso. NĂŁo sou antiĂ©tica por trabalhar em home office com a minha filha no colo. O triste episĂłdio ocorrido no TJAM – nĂŁo somente quanto a fala do Desembargador Elci, mas tambĂ©m quanto a falta de respeito a minha preferĂȘncia legal (lactante) – infelizmente somente comprova, mais uma vez, o machismo estrutural da nossa sociedade.

Isso porque, ao passo que eu fui condenada por estar com uma bebĂȘ resmungando (nĂŁo chorando) na sessĂŁo, hĂĄ uma semana um pai advogado teve preferĂȘncia no seu processo no STJ por estar com o seu filho de 1 ano presente (matĂ©ria de repercussĂŁo nacional, inclusive). Mesmo diante da falta de compreensĂŁo com minha situação, continuarei sustentando amamentando ou com a minha filha prĂłxima, que Ă© o local adequado para ela.

Nota da OAB Amazonas

A ORDEM DOS ADVOGADOS DO BRASIL, SECCIONAL AMAZONAS, por meio da sua Diretoria e da ComissĂŁo Permanente da Mulher Advogada, vem a pĂșblico manifestar apoio e solidariedade Ă  Dra. MALU BORGES NUNES, advogada, inscrita na OAB/AM sob o nÂș A1516, pelos transtornos e constrangimento vivenciados quando em exercĂ­cio de seu dever legal durante a sessĂŁo de julgamento ocorrida na manhĂŁ desta segunda-feira (22/08), por videoconferĂȘncia, presidida pelo Desembargador Elci SimĂ”es de Oliveira, do Tribunal de Justiça do Estado do Amazonas.

O advento das audiĂȘncias virtuais possibilitou a muitas mĂŁes advogadas, como a profissional ora apoiada, exercer a advocacia com plenitude que, em outros tempos, poderiam tĂŁo somente exercer a maternidade.

Sobre a equivocada afirmação do desembargador de que “Ă© preciso ver a Ă©tica da advogada”, deve ser esclarecido que a Dra. MALU BORGES NUNES, ao participar de uma sessĂŁo remota de julgamento no TJ/AM, dentro de sua residĂȘncia e ao lado de sua filha, nĂŁo cometeu qualquer infração disciplinar e nem violou preceito do CĂłdigo de Ética e Disciplina da OAB.

A OAB/AM ressalta a importĂąncia da sustentação oral, direito de todo profissional da advocacia. O que ocorreu no referido julgamento Ă© a realidade da mĂŁe profissional autĂŽnoma que tambĂ©m nĂŁo tem como controlar o choro de uma criança ou exigir dela o silĂȘncio, fato que expĂ”e a necessidade de conscientização sobre a maternidade e a vida profissional.

A construção de uma sociedade igualitåria exige a inclusão e respeito às condiçÔes de cada indivíduo e é uma tarefa de todos, sendo objetivo norteador desta Seccional.

O mercado jurídico evoluiu. Todavia, a maternidade ainda é uma estranha fissura em nossa sociedade. Assim, a OAB/AM repudia a posição do Desembargador Elci SimÔes de Oliveira em face da advogada, que não descumpriu sua ética profissional, e apenas exerceu legalmente o seu mister.

ConteĂșdo Original / Fonte: G1

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