Aos 42 anos, Aldair Gomes Vieira, pôde, pela primeira vez, ter eletricidade durante 24 horas em sua casa, localizada na comunidade Terra Firme, na região do Baixo Madeira, em Porto Velho. Isso porque a comunidade recebeu mais de 20 placas de energia solar.
A partir de agora, Aldair e sua famĂlia poderĂŁo armazenar alimentos por mais tempo, consumir água gelada e usufruir do conforto que atĂ© entĂŁo, estava garantido apenas Ă s pessoas que residem nas regiões metropolitanas do paĂs.
“A gente nĂŁo podia trazer nada da cidade porque estragava. Hoje, vocĂŞ pode ter uma geladeira, um freezer pequeno, assistir o jornal e em muitos lugares aqui, nĂŁo existia isso, a gente sĂł ouvia os outros falarem”, disse.
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Comunidade Terra Firme está marcada de azul no mapa — Foto: Reprodução/Google Maps
Terra Firme está localizada na margem direita do rio Madeira, na capital de Rondônia. Para chegar, é necessário percorrer mais de 70 km de estrada de chão e mais de duas horas de lancha. Para os viajantes que atravessam o rio, a comunidade, rodeada por árvores, não passa mais desapercebida.
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Entrada da comunidade Terra Firme, em Porto Velho, ao lado do rio Madeira — Foto: ThaĂs Nauara/g1
Para minimizar a falta de energia, a Energisa, por meio do projeto do Governo Federal ”Mais Luz Para AmazĂ´nia’, instalou 26 placas de energia fotovoltaica na comunidade. A instalação deve atender mais de 20 famĂlias e garantir acesso a energia limpa aos ribeirinhos.
E mesmo morando ao lado do rio que mantém a maior hidrelétrica de energia do estado funcionando, o técnico de distribuição Sebastião Santiago, explica que não há como a eletricidade chegar por vias tradicionais de distribuição.
“NĂŁo Ă© viável construir torres, Ă© muito caro. A maneira mais fácil Ă© a instalação de placas de energia solar. NĂŁo tinha energia na comunidade, era precário e hoje vocĂŞs estĂŁo vendo, temos energia”, explicou.
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Programa ‘Mais Luz Para AmazĂ´nia’ na comunidade Terra Firme, em Porto Velho — Foto: ThaĂs Nauara/g1
Mudança na rotina
A rotina sobrecarregada da Flaviane Santos, de 27 anos, esposa de Aldair e mĂŁe de trĂŞs crianças, foi facilitada com a chegada da eletricidade. Meses atrás, ela usava o tempo livre para garantir que a refeição da famĂlia nĂŁo estragasse.
“As vezes a gente comprava as coisas e tinha que tratar tudo porque estragava. A gente chegava cansado e tinha aquela coisa para tratar, para colocar lá dentro [da casa] para nĂŁo estragar e agora nĂŁo, a gente limpa e guarda”, explicou.
Diferente do que passou na infância e em boa parte da vida adulta, os trĂŞs filhos de Aldair irĂŁo crescer com uma rotina diferente, já que com a chegada da luz, eles poderĂŁo ter acesso as notĂcias da regiĂŁo e do mundo.
“Já muda a educação nĂ©?! Eles assistem muitas coisas e muitas coisas dali já servem de experiĂŞncia para vida deles. A gente assiste jornal, entĂŁo eles veem o que passa mundo afora e antes, a gente nĂŁo tinha isso, porque a gente tinha o rádio, mas nĂŁo tinha a pilha.”
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Aldair, produtor de farinha da comunidade Terra Firme, em Porto Velho — Foto: ThaĂs Nauara/g1
AlĂ©m da famĂlia de Aldair e Flaviane, outras 20 casas serĂŁo contempladas com a iniciativa sustentável da Energisa. Jorge, de 36 anos, comemora a chegada da energia, já que depende dela para trabalhar.
“Trabalho como barbeiro desde que eu tinha uns 16 anos. Moro aqui desde que eu nasci. A gente tinha um gerador, que a gente ligava pra poder trabalhar e agora, vai ficar bem melhor, vai aumentar a clientela”, disse.
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Jorge, barbeiro e morador da comunidade Terra Firme, em Porto Velho — Foto: ThaĂs Nauara/g1
Redução de gastos
Além de facilitar a rotina, a instalação das placas solares deve reduzir os gastos de Aldair, que anteriormente, era focado na manutenção de um motor a diesel.
“O diesel a gente gastava R$ 200, R$ 300 por mĂŞs e sĂł tinha trĂŞs horas de energia, das 6h Ă s 9h, nĂŁo podia passar e isso se o motor nĂŁo quebrasse nenhuma peça”, explicou.
A iniciativa sustentável também gerou renda para os moradores, que depois de treinamentos, fizeram a instalação das placas cedidas pela empresa.
“Eles pegaram pessoas da localidade para trabalhar com eles e foi bom, porque gerou emprego”, explicou Alcinei, morador da comunidade Terra Firme a 36 anos.
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Mulher assistindo televisão na comunidade Terra Firme, em Porto Velho — Foto: Reprodução/Rede Amazônica
Programa
Segundo o Governo Federal, o ‘Programa Mais Luz para a AmazĂ´nia (MLA)’ foi criado com o “objetivo de promover o acesso Ă energia elĂ©trica para a população brasileira localizada nas regiões remotas dos estados da AmazĂ´nia Legal”.
A distribuidora de energia de RondĂ´nia aponta que R$ 32 milhões foram investidos no projeto. TrĂŞs mil placas devem ser instaladas em 68 comunidades, localizadas em 10 cidades de RondĂ´nia e ao todo, 900 famĂlias devem ser atendidas.
De acordo com a World Wide Fund for Nature (WWF), cerca de 237 localidades não tem acesso a energia no Brasil. Segundo o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), a maior parte está na região Norte, nos estados de Rondônia, Acre, Amazonas, Roraima, Amapá e Pará.

