Txai SuruĂ­ conta que recebeu ameaças presenciais apĂłs chegar em RondĂ´nia: ‘Ă© triste, mas cresci com isso’

Por G1 09/12/2021 Ă s 08:34
Walelasoetxeige Suruí, conhecida como Txai Suruí — Foto: Redes Sociais

A jovem ativista indígena Txai Suruí, voltou ao Brasil e em entrevista ao g1 afirmou que recebeu ameaças presenciais ao chegar em Rondônia. Ela já havia sido agredida virtualmente após ser alvo de ataque do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), logo depois do discurso na abertura da Conferência da Cúpula do Clima (COP26), na Escócia.

“Querendo ou nĂŁo Ă© triste, mas a gente cresceu com isso. Meus pais foram a vida inteira ameaçados. A gente já teve que ser escoltado pela Força Nacional algum tempo. A minha mĂŁe durante a pandemia estava sendo ameaçada de morte e nĂŁo podia ficar em Porto Velho”.

Filha do cacique Almir Suruí e da ativista Ivaneide Bandeira, a jovem indígena Txai decidiu seguir na trilha de determinação dos pais em luta pela preservação dos povos indígenas e contra o desmatamento da Amazônia, mesmo sob ameaças.

Ivaneide Bandeira, conhecida como Neidinha Suruí, e cacique Almir Suruí — Foto: Kanindé

Ivaneide Bandeira, conhecida como Neidinha Suruí, e cacique Almir Suruí — Foto: Kanindé

Grande parte dos ataques ainda acontecem nas redes sociais. Txai comentou que isso pode ocorrer porque as pessoas acham que “internet Ă© uma terra sem lei”.

“NĂŁo vou mentir dizendo que muitas vezes nĂŁo dá medo […] mas eu nĂŁo posso parar de falar, porque os ataques por quem luta pelo meio ambiente vĂŁo continuar, entĂŁo eu tenho que usar minha voz e a visibilidade que eu tenho agora para denunciar o que está acontecendo para o mundo”, afirmou.

‘VisĂŁo colonizadora’

 

Txai discursou na abertura da COP26 diante de líderes mundiais como o premiê britânico, Boris Johnson, e o secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, e foi ouvida pelo mundo todo. Em entrevista, a indígena contou que o Brasil é visto de forma negativa pelos outros países por sua política antiambientalista, mas que seu discurso mostrou ao mundo que há esperança na preservação da Amazônia.

“O Brasil está muito mal visto internacionalmente por toda essa polĂ­tica antiambientalista que vem praticando. EntĂŁo ouvir uma voz que fala de esperança, que fala que a gente consegue reverter essa crise e que os povos indĂ­genas fazem parte dessa salvação, faz o mundo acreditar um pouco no Brasil e mostra que aqui ainda existem pessoas que tĂŞm compromisso com agenda climática e que o Brasil nĂŁo Ă© sĂł destruição da AmazĂ´nia”, falou.

Apesar do discurso ter tido grande repercussão no mundo, Txai sofreu ataques por ter discursado em inglês. Segundo ela, isso reflete preconceitos culturais da época em que o Brasil foi colonizado.

“As pessoas tĂŞm no imaginário delas de que o Ă­ndio tem que ser do jeito que elas querem, ainda em uma visĂŁo colonizadora. As pessoas nĂŁo pensam, por exemplo, que qualquer criança indĂ­gena fala pelo menos duas lĂ­nguas hoje em dia, que Ă© a lĂ­ngua do nosso povo e o portuguĂŞs. A gente já nasce bilĂ­ngue. E quem aqui na cidade já nasce bilĂ­ngue? Quem fala duas lĂ­nguas aprende trĂŞs fácil”, disse.

Juventude como sĂ­mbolo de resistĂŞncia

Txai Suruí durante protesto de indígenas — Foto: Divulgação

Txai Suruí durante protesto de indígenas — Foto: Divulgação

Txai é fundadora do Movimento da Juventude Indígena de Rondônia, que desenvolveu uma vaquinha online para custear a passagem dos integrantes à Escócia para a conferência. Segundo a ativista, o Brasil teve a maior delegação de jovens da história da COP26.

Essa participação da juventude nas decisões sobre o clima e meio ambiente, para Txai, é um símbolo de resistência.

“Durante muito tempo as pessoas tratam a juventude como ‘vocĂŞ ainda Ă© muito novo’, ‘vocĂŞ nĂŁo sabe o que está falando’. SĂł que a verdade Ă© que a gente já está sofrendo com o que está acontecendo. A juventude nĂŁo está lutando sĂł pelo futuro, a gente entende que estamos lutando pelo nosso presente, pelo nosso agora“.

“A nossa geração cresceu durante um perĂ­odo de desesperança. A gente cresceu na instabilidade polĂ­tica. A gente vĂŞ o que está passando durante esses dois anos no Brasil, onde tem desemprego, milhões de pessoas passando fome e fazendo fila para comprar osso. Isso Ă© onde os jovens do Brasil estĂŁo crescendo agora. EntĂŁo acho que o maior sĂ­mbolo de resistĂŞncia sĂŁo os jovens lutando por isso”, finalizou.

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