“A ditadura que também afetou o Acre expandiu desenfreadamente o capitalismo”, diz historiadora

Por Everton Damasceno, ContilNet 09/06/2018 às 14:39

A greve dos caminhoneiros nas últimas semanas atingiu várias esferas da sociedade civil e também causou impactos significativos no mercado brasileiro, fazendo com que vários grupos ideológicos e membros do legislativo apoiassem uma intervenção militar como possível caminho para a saída desse momento de crise que o Brasil atual enfrenta e a possibilidade de uma organização que ‘varresse’ os corruptos do país.

Nesse sentido, a reportagem da ContilNet procurou a historiadora acreana e mestre em história do Brasil, Fátima Almeida, para obter esclarecimentos sobre os fatos relacionados ao momento em que os militares tomaram o controle da nação brasileira em 1964, além dos impactos que o Acre sofreu com o regime ditatorial.

O regime militar no Brasil durou 20 anos/Foto: Reprodução

Almeida levantou alguns dados históricos a respeito do controle militar que durou 20 anos, tendo se estendido até 1985, compartilhando informações relevantes para o entendimento de como o estado acreano se configurava nesse mesmo período e quais ensinamentos o cidadão de direito pode extrair daquilo que a história expõe.

Confira na íntegra a entrevista

ContilNet: Há diferença entre ditadura militar e uma intervenção militar? Como esta afetaria o país?

Fátima Almeida: Na ditadura todos os poderes ficam nas mãos de um indivíduo, partido ou grupo, como um feixe, com supressão das liberdades individuais. A intervenção militar, no caso do Brasil, só pode haver com autorização do presidente da república que é também presidente do conselho de defesa nacional. Portanto, quando se pede intervenção militar, hoje, é no sentido de um golpe de estado para derrubar o governo sem apoio na constituição federal que veda isso, de forma ilegal, portanto.

No entanto, cabe uma reflexão que me foi induzida após conversar com o Gilson, dono do lanche da COHAB, que me alertou para o fato de que nas constituições anteriores, mais recentes, a de 1946 e a de 1967, no artigo primeiro consta que “todo poder emana do poder, para o povo e por ele será exercido”. Na atual, de 88, consta que “todo poder emana do povo e será exercido por representantes eleitos…..” o qual coloca todo poder nas mãos dos parlamentares. Interessante notar que alguns constituintes de 88 estão em evidência e no poder, como Michel Temer, Aloysio Nunes, atual ministro das relações exteriores, o qual participou da guerrilha urbana, durante da ditadura militar, do mesmo modo como Dilma Roussef, FHC, Serra, se não me falha a memória. São eles que dirigem os dois maiores partidos, o PSDB e o MDB, e que fizeram lei para que se criasse um fundo, no Tesouro Nacional para suas despesas de campanha, de maneira que cada um dos três grandes partidos, aqueles e o PT, irão receber 200 milhões em média. Partidos menores, 10 milhões, o partido da Marina Silva e assim, conforme o número de parlamentares na câmara federal. Ora, não resta dúvida que eles estão no controle da situação, o que explica porque não fizeram reforma político – partidária, já que não atuariam em desfavor de seus privilégios. Isso explica a existência de um movimento pró-intervenção militar como está ocorrendo no país.

Apenas as pessoas com ideologias comunistas foram torturadas no período da ditadura militar?

Acredito que sim, mas existe a comissão da verdade que pode fornecer informações mais detalhadas.

Almeida é mestre em História do Brasil/Foto: Reprodução

Como o período ditatorial militar afetou o estado do Acre?

Os governos dos generais tiveram ministros civis como Mário Andreazza, Delfim Neto, o acreano Jarbas Passarinho, na Educação, de maneira que foi criado um espírito de grandes feitos, grandes obras, como a rodovias Belém Brasília, a hidrelétrica de Balbina, Itaipu, só que sem o mínimo estudo de impacto ambiental, o que redundou em desastres ambientais, sobremaneira no tocante a noção de “integrar para não entregar”, no nosso caso, quando o Acre foi ligado por estrada ao país, encerrando o ciclo de transporte fluvial, a rede comercial com Manaus e Belém, passando-se à dependência da indústria do centro-Sul. Pecuaristas adentraram pelos interiores, milhões de métricos cúbicos de madeira foram queimados, pelo menos seis espécies de madeira de lei estão extintas e a pecuária extensiva é só o que rende impostos no momento. Lembro-me que a estrada que liga Rio Branco a Quinari era cortada em meio a mata, que se erguia de um lado e outro como grossa cortina de árvores, de modo que nela escurecia cedo e esfriava no cair da tarde. Hoje, as novas gerações não têm essa experiência visual da floresta, na referida rodovia o arco do desmatamento é uma linha tênue no horizonte, para além dos extensos pastos onde o gado fica rarefeito. Além disso, centenas de famílias que habitavam na floresta, vivendo do seu roçado, fruteiras, caça, pescaria, etc, foram desalojadas e vieram para as cidades em busca de moradia e sobrevivência, quando surgiram bairros como a Estação Experimental, Aeroporto Velho e Pista no antigo aeroporto, Cidade Nova, Bahia, Palheiral, que hoje, nem de longe, lembram aquela poeira, gente chegando, fazendo casas, etc..Mas o governo local, nem o federal previram isso, de modo que foi a Igreja Católica que saiu em socorro dessas pessoas, organizando seu movimento por luz elétrica, arruamento, etc..com os centros comunitários, quando surgiram as comunidades eclesiais de base por toda a América Latina e o próprio PT, em São Paulo, quando essas comunidades faziam campanha por alimentos e agasalhos durante as greves do ABC Paulista, surgindo o Lula e demais. O PT surgiu no Acre com esse movimento de resistência contra os pecuaristas porque expulsaram todas aquelas famílias, aglutinando artistas, jornalistas, professores, indigenistas. Surgiu também Chico Mendes que idealizou o Empate, qual seja, quando os jagunços chegavam para derrubar as mulheres com suas crianças se plantavam na frente, daí eles recuavam….portanto, o período dos governos militares afetou muito o Acre, possibilitou a expansão do capitalismo de forma desenfreada, sem olhar algum para o social, lembrando que foi uma ditadura apoiada por civis, industriais, empreiteiros e fazendeiros que se aproveitaram do ódio ao comunismo, em tempos da guerra fria, para agirem livremente, porque qualquer contestação era vista como subversiva.

O que a história pode ensinar sobre caminhos necessários para o desenvolvimento, numa mudança que abranja todas as dimensões desse país?

O que a história mostra é que se perpetua no país a disparidade entre os letrados e não letrados. Pelo menos dois terços da população não conhece a história do país, do Estado, a sua própria história de vida para compreender seu lugar no mundo, sua posição social. Desse modo, ficam a mercê dos políticos que sempre aproveitam esse capital humano para a sua própria ascensão social, deixando-os depois relegados ao abandono, sem assistência seja na saúde, na educação quanto aos cursos profissionalizantes dos seus filhos, dependentes das migalhas do programa bolsa família e vivendo, dando duro, sem horizonte algum. Essa situação independe do partido da vez, é muito maior no Norte e no Nordeste onde existe o coronelismo por tradição na política. Mudança só com educação de qualidade e isso requer renda, boa renda, porque a cultura é cara, o acesso à educação e à cultura custa dinheiro, para ter dinheiro precisa ser instruído e assim fica essa situação como um cachorro mordendo o próprio rabo. Os governos não trabalham no sentido de diminuir essa distância entre letrados e não letrados porque são governos de gabinete, não são de andar por aí e ver como as pessoas estão vivendo. Não se sentem responsáveis, não têm interesse algum em ajudar os pobres.

Fátima Almeida é graduada em História, pós graduada em História econômica e social da Amazônia, pela Universidade Federal do Acre, Mestrado em História do Brasil pela UFAC/UFP, Articulista, escritora acreana.

Conteúdo Original / Fonte: EVERTON DAMASCENO, DA CONTILNET

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