Símbolo do traço desumano que marca a migração de caribenhos e africanos, o abrigo da Chácara Aliança, em Rio Branco, capital do Acre, registra, no segundo semestre de 2015, queda brusca na chegada de haitianos e senegaleses que buscam vida nova no Brasil.
Em maio deste ano, quando ZH esteve no local, mais de 600 homens e mulheres se acotovelavam em peças úmidas, sujas e fétidas, convivendo com doenças, falta de água, esgoto a céu aberto, colchões rasgados e mofados e banheiros inutilizáveis pelo acúmulo de dejetos.
No ápice, o abrigo humanitário de Rio Branco chegou a ter 1.297 imigrantes de uma só vez. Até abril de 2014, a acolhida era feita em Brasileia, cidade acriana distante 100 quilômetros da fronteira com o Peru. Naquele município, os picos indicavam a presença simultânea de 2,5 mil a 2,8 mil viajantes em galpões — a maioria absoluta de haitianos.
A realidade, agora, mudou. Em julho, a média de imigrantes na capital acriana despencou para cerca de 200 pessoas. E o decréscimo continua acentuado. Na última quarta-feira, 23 de dezembro, apenas sete estavam na chácara, sendo seis haitianos e um senegalês. Os naturais do Haiti, que sempre predominavam, pernoitando no local às centenas, passaram a ficar em contingente semelhante ao africano.
— A chegada dos haitianos reduziu em massa. A entrada dos senegaleses se manteve na média dos 40 por semana — explica Antonio Carlos Ferreira Crispim, um dos coordenadores do abrigo.

O abrigo de Rio Branco chegou a ter 1.297 imigrantes de uma só vez/Foto: Mateus Bruxel / Agencia RBS
Três fatores são apontados como os mais decisivos para a retração na rota do Acre, que inclui a negociação com coiotes para atravessar República Dominicana, Panamá, Equador e Peru, antes da chegada ao Brasil. Um dos motivos é a crise econômica do país. Com muitos imigrantes desempregados e marginalizados, a rede de contatos dos haitianos fez chegar aos compatriotas a informação de que as condições, em terras brasileiras, não são as melhores.
— Já está sendo falada no Haiti a questão da crise. Ajudou a causar essa redução drástica — diz Esdras Hector, haitiano que ajuda na acolhida dos compatriotas no abrigo.
Os outros dois elementos envolvem cooperação internacional.
— O Ministério das Relações Exteriores aumentou o número de vistos concedidos na embaixada do Brasil em Porto Príncipe, capital do Haiti, para que a entrada deles ocorra de forma legal, pelos aeroportos. Agora são emitidos dois mil vistos por mês, antes o número não chagava a 100 — comenta o procurador-chefe do Ministério Público do Trabalho em Rondônia e Acre, Marcos Gomes Cutrim.
O último fator é o controle da circulação de haitianos na República Dominicana e no Equador, onde antes havia trânsito livre.
— A República Dominicana tem problemas diplomáticos com o Haiti. E, com a barreira no Equador, ficou mais difícil passar — conta Esdras.
Para Cutrim, chefe do MPT, o cenário indica que o ingresso de caribenhos no país se dará, cada vez mais, pelos aeroportos, com o visto humanitário emitido antes do desembarque.
— Essa rota do Acre tende a não ser mais utilizada pelos haitianos a partir dessas medidas — diz.
É um golpe nos coiotes, que cobram até US$ 3 mil para fazer a travessia dos caribenhos.
Com a redução de estrangeiros no abrigo de Rio Branco, as condições sanitárias e estruturais do local melhoraram. Equipes de limpeza atuam diariamente, banheiros antes semidestruídos e tomados por fezes passaram por reformas e agentes foram contratados por meio de um convênio para ajudar na confecção de documentos e ensino básico do português.
— Também não falta mais água. A única coisa em que ainda não conseguimos avançar foi nos colchões — conta Crispim.
